Meirelles lutou por cenários reais em "Jardineiro"

Fernando Meirelles passou a maior parte de sua carreira dirigindo comerciais e programas de televisão e nunca imaginou que faria filmes fora do Brasil.Mas alguns dias depois de Cidade de Deus ser exibido no Festival de Cannes de 2002, Meirelles ficou atolado com ofertas de estúdios de Hollywood. Muitas vezes ele não conseguia entender por que seu nome era cogitado, diz o cineasta de 49 anos. "Eles me mandaram centenas - e quando digo centenas quero dizer centenas - de roteiros", ele disse.Meirelles depois separou dois projetos: o thriller de ação Colateral, quer acabou sendo dirigido por Michael Mann, e a adaptação do romance vencedor do Prêmio Pulitzer de 1981, A Confederacyof Dunces, projeto que há tempos está parado.Sobre Dunces, Meirelles disse: "Senti que não saberia como fazer esse filme. É muito americano... E pensei que poderia estragar um bom roteiro".Mas sobre o roteiro de O Jardineiro Fiel, um thriller que mistura uma história de amor com crimes das empresas farmacêuticas, o diretor assinou contrato quase imediatamente, muito porque ele estava animado com a possibilidade de filmar no Quênia. Meirelles, que foi indicado ao Oscar por Cidade de Deus, teve de convencer a produtora Focus Features a não fazer o filme na África do Sul, onde a indústria está mais estabelecida.Meirelles filmou Cidade de Deus nas favelas do Rio de Janeiro. Muitas cenas de O Jardineiro Fiel foram filmadas em Kibera, uma favela queniana onde a aids e a pobreza extrema são apenas alguns dos desafios enfrentados pelos 800 mil habitantes.Filmar em cenários reais é crucial para a visão de Meirelles. "Algumas vezes você está filmando uma cena, e enquanto a maquiadora está fazendo algo no ator, você vira a câmera e tem um documentário à sua volta", ele disse. "Se você tem que criar vida imagem, não é o mesmo, é? É mais caro e nunca fica tão real. É difícil reproduzir a realidade".O método foi criado por necessidade durante as filmagens de Cidade de Deus. "Nós precisávamos encontrar uma maneira de filmar com atores amadores", disse Meirelles. Um estilo criado para amadores provou libertador para Rachel Weisz, Ralph Fiennes e o resto do grande elenco britânico de O Jardineiro Fiel, uma adaptação do romance homônimo de John le Carré. O filme estreou quarta-feira nos Estados Unidos e vai concorrer ao Leão de Ouro no Festival de Veneza. "Os atores sentem-se livres. O ator não precisa pensa onde está a câmera, ele tem que se concentrar no que está fazendo e esquecer da câmera", disse Meirelles.Como mostrou em Cidade de Deus, Meirelles não se interessa por contar uma história linearmente. Depois de fazer uma versão linear de O Jardineiro Fiel, Meirelles desistiu. "Era um desastre, chato demais", ele disse. Mas com a ajuda de alguns testes de público ele conseguiu acertar a edição. "Esta é a parte que eu mais gosto do processo, editar e tentar encontrar uma história", disse Meirelles.

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