Meirelles admite que 'Ensaio' é sombrio demais para abrir Cannes

"Ensaio Sobre a Cegueira" levou visõesapocalípticas da sociedade em colapso ao Festival de Cinema deCannes nesta quarta-feira, e o diretor Fernando Meirellesadmitiu que o cenário sombrio que ele fez da humanidade foi umaescolha estranha para abrir o glamouroso evento francês. Foi uma inauguração séria dos 12 dias de filmes,entrevistas, iniciativas publicitárias e festas no resort daRiviera francesa, que se orgulha de promover o cinemaalternativo tanto quanto de receber a realeza de Hollywood emseu tapete vermelho. "Ensaio Sobre a Cegueira" é uma adaptação do romancehomônimo do premiado com o Nobel José Saramago e conta ahistória de uma epidemia de cegueira que varre o mundo. Julianne Moore faz a esposa de um médico que, como opúblico do filme, consegue enxergar a morte, a crueldade e adegradação que a cercam. Pouco a pouco, ela se conscientiza daresponsabilidade que sua posição singular lhe impõe. "Nós nos achamos tão fortes, sofisticados e sólidos", disseMeirelles a jornalistas depois da exibição do filme para aimprensa. "Mas então uma coisa dá errado e tudo desaba." "Patinamos sobre gelo fino. Qualquer coisa pode acontecer eacontece", continuou o diretor, que ganhou fama mundial com"Cidade de Deus". A estréia oficial do filme será esta noite. Meirelles e o roteirista Don McKellar disseram que sesentiram inspirados pelo fato de o romance de Saramagoaparentemente refletir os desastres naturais da vida real, asdoenças e nossos temores recentes com segurança alimentar. ESCOLHA ESTRANHA PARA ABRIR O FESTIVAL Fernando Meirelles disse que abrir o festival de Cannes éuma honra e também uma pressão, mas acrescentou: "Para serfranco, acho que este não é o melhor filme para abrir umfestival". Boa parte do filme é ambientada num asilo abandonado nasproximidades de uma cidade não identificada. As autoridades empânico encerram ali a vida de pessoas atingidas pela contagiosa"doença branca" -- assim chamada porque os cegos enxergam tudobranco, e não negro. Um sistema de vida operacional, apesar da miséria humana,derrapa quando um dos detentos -- o mexicano Gael Garcia Bernal-- decide aplicar a lei com suas próprias mãos. Em meio à anarquia resultante, atrocidades são cometidas e,quando os detentos se libertam, Moore descobre que o resto dacidade não está se saindo muito melhor que eles. "Agimos como pessoas civilizadas porque temos comida, temostudo bem estabelecido", disse Meirelles. "Basta perdermos issopara vir à tona o que realmente somos por baixo." Ao lado de "Ensaio Sobre a Cegueira", a competiçãoprincipal em Cannes inclui outro filme brasileiro -- "Linha dePasse", de Walter Salles e Daniela Thomas. Há também doisargentinos: o drama carcerário "Leonera", de Pablo Trapero, e osuspense "La Mujer Sin Cabeza", de Lucrecia Martel. Os filmes vão competir com "A Troca" ("Changeling"),dirigido por Clint Eastwood e estrelado por Angelina Jolie, e"Che", de Steven Soderbergh, épico de quatro horas e meia sobreo revolucionário argentino Che Guevara, com Benicio del Toro nopapel-título. Os dois outros filmes americanos da competição são "TwoLovers", com Gwyneth Paltrow e Joaquin Phoenix, e "Synecdoche,New York", de Charlie Kaufman, com Philip Seymour Hoffman. Outra atração de Cannes este ano será "Indiana Jones e oReino da Caveira de Cristal", de Steven Spielberg, em queHarrison Ford faz o arqueólogo Indiana Jones pela quarta vez nocinema.

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