Kay Nietfeld/EFE
Kay Nietfeld/EFE

Meio ambiente é um dos principais temas do Festival de Berlim

Importante evento do cinema segue apostando na estética política

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

04 de fevereiro de 2015 | 03h00

Vai começar mais uma Berlinale, a de número 65. De quinta até 15, Berlim converte-se na capital mundial do cinema. O festival, iniciado numa capital que se reconstruía dos escombros da destruição provocada pela derrota da Alemanha na guerra, atravessou os anos da Guerra Fria e da divisão do país em duas partes. A reunificação, com o fim do império soviético, não afastou a Berlinale de sua vocação. No mundo global, o Festival de Berlim segue apostando na estética política. Engajamento é a palavra de ordem. Numa entrevista no site do evento, o diretor Dieter Kosslick e o presidente do júri deste ano, o cineasta Darren Aronofsky, conversam sobre o que é relevante para o mundo neste (ainda) alvorecer do século 21. Aronofsky, diretor de Noé, fala da necessidade de uma consciência ecológica global. O meio ambiente é o mais importante dos temas. Dele depende nossa sobrevivência, o futuro da Terra.

Serão 19 longas na competição, mais cinco fora de concurso na mostra principal. O Brasil não compete pelo Urso de Ouro, exceto na categoria de curta, com Joel Pizzini. Mas o País estará representado em diferentes seções, e com programas dos mais atraentes. Em 1998, quando Walter Salles ganhou o Urso de Ouro por Central do Brasil, o chinês Jia Zhang-ke ainda era um principiante que se iniciava no mundo dos grandes festivais. Agora eles voltam juntos com O Homem de Fenyang, o belo documentário que Salles dedicou a seu colega da China (e que já foi exibido na Mostra). O Brasil estará representado no Panorama, no Fórum. São filmes de diretores consagrados, como Anna Muylaert (Que Horas ela Volta?), Chico Teixeira (Ausência) e Lírio Ferreira (Sangue Azul), mas também de novos realizadores, como os gaúchos Felipe Matzenbacher e Márcio Reolon, de Beira-Mar.

O cartaz dessa 65.ª edição mostra uma cortina, indicando que o espetáculo vai começar. “O glamour e o suspense de toda experiência cinematográfica são precedidos pelo momento em que a cortina se abre, revelando a tela. Nosso cartaz desse ano é uma homenagem a esse instante mágico para todos os cinéfilos”, define Herr Kosslick. 


A cortina amanhã vai se abrir para a espanhola Isabel Coixet, uma veterana que já teve vários filmes apresentados em diferentes seções das Berlinale. Desta vez, ela concorre com Nobody Wants the Night. Vem em boa companhia: a estrela francesa Juliette Binoche, a japonesa Rinko Kikuchi (de Babel, de Alejandro González Iñárritu) e Gabriel Byrne. A competição traz nomes de ponta do cinema de autor - o norte-americano Terrence Malick, com Knight of Cups; o inglês (sob a bandeira da Holanda) Peter Greenaway, com seu novo filme inspirado na passagem do célebre diretor de O Encouraçado Potemkin pelo México (Eisenstein in Guanajuato); o francês Benoit Jacquot, com a nova versão de O Diário de Uma Camareira; o alemão Wener Herzog com um filme rodado dos Estados Unidos, Queen of the Desert, com Nicole Kidman.

Homenagem. A América Latina terá dois filmes do Chile (El Botón de Nácar, de Patricio Guzman, e El Club, de Pablo Larraín), mais uma da Guatemala (Yxcanul Volcano, de Jayro Bustamante) na competição. Wim Wenders, que receberá um Urso de Ouro honorário, por sua carreira, vai lançar o novo filme fora de concurso - Everything will Be Fine, com James Franco e Charlotte Gainsbourg. Dieter Kosslick justifica a homenagem - “Seu trabalho como diretor, fotógrafo e escritor forjou nossa memória do cinema e segue inspirando outros diretores.” As demais seções prometem temas fortes e obras de grande impacto. Wielland Speck explica o motivo que determinou suas escolhas na seleção do Panorama. O abuso é como uma praga que precisa ser combatida. O Panorama terá filmes como Härte/Tough Love, de Rosa von Praunheim, sobre garoto abusado pelos pais, que direciona sua revolta para o ringue e vira campeão de lutas. É no Panorama que se concentra a participação brasileira deste ano, com os filmes de Anna Muylaert, Lírio Ferreira, Chico Teixeira e Walter Salles (em Panorama Dokumente). No Fórum, Stefanie Schulte explica o título de sua seleção - que inclui Beira-Mar -, The Sound of the Closing Door, o Som da Porta Fechando-se. Nem sempre é um fim, mas a possibilidade de um (re)começo. Por exemplo, a retrospectiva deste ano privilegia o Technicolor, sistema que se tornou obsoleto com as novas tecnologias que abriram um campo novo (para a nouvelle vague, o Cinema Novo) nos anos 1960.

ENTREVISTA - Joel Pizzini - DIRETOR

Cineasta vive momento de destaque


Joel Pizzini jura que tomou um susto com a seleção de Mar de Fogo para concorrer ao Urso de Ouro de curtas, prêmio que o Brasil já ganhou com o antológico Ilha das Flores, de Jorge Furtado, de 1989. Joel anda numa fase gloriosa.

É muita coisa ocorrendo com você, não?

O Festival Internacional de Curtas fez uma retrospectiva dos meus trabalhos no ano passado e isso motivou o surgimento de um livro de ensaios chamado Cinema de Poesia. Cinco curtas e o Anabazys, em codireção com Paloma Rocha, estão nos DVDs lançados pelo CTAV/MinC. Tenho uma instalação atualmente no Museu Iberê Camargo, de Porto Alegre, na grande exposição comemorativa do centenário do artista. E, convidado pelo projeto Tomada Única, fiz um filme em super-8 chamado O Último Trem, com Emmanuel Cavalcanti.

Haverá um coroamento de tudo isso em Paris, em abril. O que é?

Vou ganhar uma mostra na Cinemateca Francesa, dentro de um grande evento dedicado ao cinema brasileiro, com direito a debate coordenado pelo crítico Bernard Payen.

Mar de Fogo é um ensaio que recria as pulsões de Mário Peixoto para criar o clássico Limite. O que representa para você?

Com a evidência de Mar de Fogo espero reativar meu projeto de longa Mundéu - A Invenção de Limite, que foi autorizado pelo próprio Mário, por meio de uma carta em que me cede os direitos para recriação de sua vida e obra. O roteiro foi concebido a partir de conversas que tive com ele, nos anos 1990, em Angra dos Reis, quando me revelou as motivações de cada plano do filme.

Brasil terá participação forte, mas fora da disputa principal

Walter Salles apresenta o documentário sobre Jia Zhang-ke; Joel Pizzini concorre ao Urso de Ouro com o curta Mar de Fogo


Mesmo fora da disputa de longa pelo Urso de Ouro, o Brasil terá expressiva participação na 65.ª Berlinale. Serão três ficções e um documentário no Panorama, mais outra ficção no Fórum. Vale lembrar que todas as seções do Festival de Berlim são contempladas pelo prêmio da crítica e, no ano passado, o Brasil venceu no Panorama com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro.

Walter Salles emitiu um comunicado dando conta de sua satisfação de estar de volta a Berlim. “O primeiro filme de Jia, Xiao Wu, estreou em Berlim no mesmo ano em que Central do Brasil competiu, em 1998. Cada novo filme de Jia Zhang-ke reforçou a sensação de que ele se tornou o cineasta mais importante em atividade, aquele que melhor traduz o nosso tempo. É dessa percepção que surge Um Homem de Fenyang. Estar de volta a Berlim com um documentário sobre o cineasta extraordinário que é Jia Zhang-ke é uma honra. É como se um círculo se fechasse”, reflete Salles.

Zhang-ke acrescenta - “Foi através desse festival que nós dois tomamos conhecimento do trabalho um do outro e iniciamos nosso contato. Sou grato ao Walter por mostrar meu trabalho com a obra dele, e no local onde nos conhecemos. O Festival de Berlim virou um marco na minha vida. Foi meu ponto de partida. O documentário conta às pessoas o que passou na minha cabeça enquanto vagueava pelo mundo do cinema.”

O Homem de Fenyang passa em Panorama Dokumente. Os demais longas ficcionais - três deles - passam no Panorama, correspondendo ao tema geral que o curador Wiellkand Speck escolheu para este ano - a denúncia do abuso. Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, foi muito bem acolhido no Sundance Festival. Foi até premiado - Regina Casé, coberta de elogios pela Variety, a Bíblia do show biz, recebeu o prêmio de melhor atriz. O filme encerra um ciclo, tratando das domésticas que não dormem mais na casa dos patrões.

Sangue Azul, de Lírio Ferreira, premiado em Paulínia, é sobre incesto (entre irmãos). Ausência, de Chico Teixeira, mostra garoto carente numa relação perturbada com seu professor. Matheus Fagundes foi melhor ator no Festival do Rio. Beira-Mar, da dupla Felipe Matzembacher/Márcio Feolon, no Fórum, trata das descobertas afetivas e sexuais de dois amigos adolescentes. E ainda tem o curta de Joel Pizzini, Mar de Fogo.


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