Delicatessen Filmes / Divulgação
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'Me Sinto Bem com Você' traz sentimento de urgência na pandemia

Filme dirigido pelo também ator Matheus Souza trata do amor em tempos de confinamento

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

24 de maio de 2021 | 05h00

Matheus Souza é o primeiro a admitir. “Quando se começa a fazer cinema autoral como eu, e falando sobre relacionamentos, me parece natural que algumas pessoas reajam negativamente, questionando minha experiência, por exemplo”. Felizmente, ele foi apadrinhado pelo diretor – o autor – que sempre foi seu farol, no cinema brasileiro, Domingos Oliveira. Não será mera coincidência que no seu novo filme – Me Sinto Bem com Você, já disponível na Amazon Prime Video –, e no qual, além de diretor e roteirista, é também ator, Matheus faça com que sua mãe, na ficção, seja interpretada pela viúva de Domingos, Priscilla Rozenbaum. 

“Esse é um filme sobre afetos, liga-se ao meu primeiro, Apenas o Fim. Nasceu da urgência nessa pandemia. Foi feito rapidamente, do roteiro à realização não demorou mais de dois meses, no fim do ano passado.” Matheus gosta de dizer que Me Sinto Bem nasceu do nada. “Domingos tinha uma frase de que gosto muito: ‘a vida é repleta de pequenos momentos que não significam nada para os outros, mas resumem o universo para os que são afetados por eles’.” E ele acrescenta – “Comecei a fazer anotações, para manter minha sanidade mental no isolamento. E passei a trocar ideias com amigos que também escrevem, são atores e atrizes”. 

Foi tudo feito virtualmente, da escrita à pós-produção. A própria filmagem trouxe um desafio. “Formávamos uma equipe bem pequena, mas que seguia todos os protocolos de segurança ao entrar na casa das pessoas.” E Matheus reflete – “O cinema é uma arte colaborativa e aqui, apesar da distância, trabalhei com uma equipe muito motivada. Todo mundo contribuiu nas cenas, nos diálogos. O filme é nosso abraço”. Assim como Domingos o acolheu, ele sente que agora retribui, fazendo seus filmes com essa galera jovem, ou ministrando cursos de roteiro à distância. 

“Meu personagem forma dupla com a Manu (Gavassi). Nasceu de um sentimento que muita gente me disse que experimentou nessa fase difícil. Sabe aquela coisa da solidão? Nossos personagens romperam, mas aí começam a trocar e-mails e se reaproximam.” Agora é o repórter que lembra outra frase de Domingos – “É muito triste quando um grande amor termina e não fica nem uma amizade. A vida é muito curta para ser desperdiçada com amargura e ressentimento”. Poderia ser a definição para Me Sinto Bem com Você.

“A vontade sempre foi fazer um filme amplo, com personagens diferenciados e diversificados. Temos o casal de negros, e a Amanda Benevides e o Richard Abelha trouxeram todo o entusiasmo deles para os papéis. Richard quer ser diretor e eu vou fazer o que puder para ajudá-lo.” A ciranda de relacionamentos inclui o casal confinado que está sempre brigando, Thati Lopes e Victor Lamoglia, as duas garotas que se expressam pela música e vivem o medo de que a ligação acabe com a distância, Fabz e Clarissa Mueller, e as duas irmãs que se afastaram antes da pandemia e tentam retomar o vínculo familiar, Thuany Parente e Bel Moreira. 

Rohmer

O autor faz uma confissão. “Quando o filme começou a nascer, fiz uma coisa que foi muito importante – revi os longas de Eric Rohmer. Tem até uma citação explícita.” Rohmer filmava casais, os encontros e desencontros do amor nas suas séries de Contos Morais, Comédias e Provérbios e Contos das Estações, mas era um autor gutenberguiano, que se nutria da literatura, e isso valia desde os tempos da nouvelle vague. Matheus trabalha sobre uma geração que se expressa pelas redes sociais, e ainda por cima nessa fase de quarentena, em que celulares e notebooks cumprem a função de aproximar os que estão distantes. Para isso, ele mostra os textos correndo – virtualmente – nas suas imagens, divide a tela. 

Do ponto de vista da técnica, da dramaturgia, Me Sinto Bem com Você é um filme urgente, para esses tempos. Matheus está com aquele friozinho na barriga. “É sempre difícil lançar um filme, é como botar um filho no mundo.” Me Sinto Bem – o título já carrega uma promessa, ou esperança, de união – atropelou outro filme que ele terminou no fim de 2019 e aguarda lançamento. A Última Festa é uma produção maior, com participação da Globo Filmes. “As pessoas se encontram numa festa de formatura e afloram sentimentos, conflitos.” Ele ainda não sabe quando o filme será lançado, talvez mais para o fim do ano. Enquanto isso, segue a receita de Cazuza – o tempo não para. Não adianta ficar parado. A vida sempre vem, outra lição do mestre Domingos.

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