Mazzaropi abre ciclo de cinema em 16 mm

O Sesc Ipiranga inaugura nesta terça-feira o projeto Cinema 16, que resgata as projeções de filmes em 16 milímetros, ao ar livre, toda terça-feira, às 21 horas, nas dependências do Sesc. Abrindo o evento, três filmes do comediante Mazzaropi, um dos maiores fenômenos de bilheteria do cinema nacional. A cada filme, costumava levar 3 milhões de espectadores às salas de exibição, ao passo que nossos atuais recordistas, O Auto da Compadecida e Xuxa Requebra penaram para chegar à casa dos 2 milhões.O filme desta terça é Nadando em Dinheiro (1952), dirigido por Abílio Pereira de Almeida, segundo filme do comediante, revelado pelos estúdios da Vera Cruz. É a história de um caminhoneiro pobre que descobre ser o único herdeiro de uma fortuna, passando a levar vida dupla. No filme, embora ainda não estivesse caracterizado como Jeca, personagem que o consagraria, ele já fazia o tipo ingênuo e caipira, sempre conservador e malicioso.No dia 16 é a vez de O Corintiano (1966), dirigido por Milton Amaral. Este foi o 11.º trabalho produzido por sua produtora, a PAM Filmes (Produtora Amácio Mazzaropi), que se destacava pela notável visão de mercado. Aqui, ele já incorpora o Jeca Tatu, inspirado na obra de seu conterrâneo Monteiro Lobato, que se envolve em brigas e confusões para defender seu time de futebol.Dia 30, o Sesc exibe O Jeca e a Freira (1967), dirigido pelo próprio Mazzaropi e estrelado por ele, Geny Prado, Maurício do Valle, Roberto Pirillo e Ewerton de Castro. Este é considerado um dos melhores trabalhos do comediante, no qual o Jeca tem de livrar a enteada de um fazendeiro ambicioso e recebe a ajuda de uma freira.Carreira - Mazzaropi nasceu em 1912, na cidade de São Paulo, mas passou a infância em Taubaté, no interior do Estado, onde nasceu o escritor Monteiro Lobato, criador do Jeca Tatu, personagem que encontraria no ator a sua mais completa tradução. Filho de pai italiano, ele logo cedo revelou sua vocação artística e ainda adolescente abandonou a casa dos pais para ganhar o mundo acompanhando um show ambulante.Criativo, aos 28 anos inventou uma espécie de teatro desmontável, que levava a toda parte, fazendo grande sucesso. Aos 30 anos ganhou um pequeno programa na Rádio Tupi, onde criou o tipo caipira, que o tornou bastante popular e lhe abriu as portas da televisão Tupi, onde o sucesso se repetiu. Seus shows circenses chegavam a parar as cidades por onde passavam.Mas foi em 1951 que a então estreante companhia cinematográfica Vera Cruz, uma espécie de versão brasileira dos estúdios de Hollywood, levou Mazzaropi para o cinema. Ele teria na sétima arte o veículo que lhe permitiria expressar toda a sua criatividade, tolhida pela rapidez e improvisação da TV.Mazzaropi estreou com Sai da Frente, de Abílio Pereira de Almeida, criando o tipo desajeitado, caipira, malicioso e honesto que o consagraria. Os três filmes que fez para os ambiciosos estúdios de São Bernardo do Campo estão entre as maiores bilheterias da época e ajudaram a dar uma sobrevida à Vera Cruz.Em 1958 criou a PAM, responsável por todos os seus filmes a partir dessa data. No ano seguinte, a produtora lançaria o filme Jeca Tatu, baseado na obra de Monteiro Lobato. O sucesso estrondoso marcaria para sempre a carreira do ator, a ponto de confundi-lo com o personagem, a exemplo do que ocorreu com Chaplin e o vagabundo Carlitos.A PAM Filmes era astuta como o Jeca e sabia relacionar-se com os distribuidores de uma forma que o cinema brasileiro nunca mais conseguiu. Além disso, possuía um sistema próprio para fiscalizar a arrecadação dos cinemas, método que ele aprendeu nos tempos da Vera Cruz.Contemporâneo das chanchadas cariocas, ele desenvolveu um humor calcado nas palavras de duplo sentido, na cultura popular, no matuto honesto, que vence graças à astúcia. Malvisto pela crítica, que considerava seus filmes simplistas, alienantes e retrógrados, ele arrastava multidões de fãs graças a seu inegável carisma. Na verdade, boa parte de seus filmes consistia em reciclagens dos anteriores, mas ele ficou para a história como um marco do humor ingênuo e popular, destino semelhante ao que aguarda os filmes dos Trapalhões. Mazzaropi morreu de câncer em 1981, aos 69 anos.Projeto Cinema 16 mm - Terça, Nadando em Dinheiro/52, direção de Abílio Pereira de Almeida e Carlos Thiré. Terça, às 21 horas. Grátis. Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor 822, tel. 3340-2000. Até 30/1.

Agencia Estado,

08 de janeiro de 2001 | 20h52

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