Mazzaropi, a volta do jeca das multidões

Durante quase 30 anos, uma tradiçãose repetiu em São Paulo: no dia 25 de janeiro, aniversário dacidade, uma enorme fila se estendia na Avenida São João, nocentro, a partir da entrada do Cine Art Palácio. A expectativaera a estréia de mais um filme de Mazzaropi, comediante que,para os críticos da época, realizava um cinema simples egrotesco. Mas, nos anos 50 e 60, atraía um público médio de 6milhões de espectadores a cada nova estréia, número hojepraticamente inatingível - os produtores de Xuxa e osDuendes, por exemplo, comemoram a audiência de 2,5 milhões deespectadores, recorde na chamada retomada do cinema nacional.Apontado como o maior cômico do Brasil em pesquisarealizada no ano passado pelo Canal Brasil com internautasbrasileiros e portugueses, Amácio Mazzaropi (1912-1981) é temada mostra 90 Anos de Alegria, que o Centro Cultural Banco doBrasil começa a exibir a partir de amanhã, em São Paulo. Sãodez filmes que celebram o comediante que se consagrou, em 32filmes, na figura do homem desengonçado, com os dentes cariados,a camisa xadrez abotoada até o pescoço e um sotaque caipirafortíssimo. "Um dos méritos da mostra é a exibição dos filmesem película, algo que não acontecia desde o lançamento de suaúltima obra, O Jeca e a Égua Milagrosa, de 1980", comentaCláudio Marques, curador do ciclo. "Desde então, as exibiçõesque aconteciam eram em vídeo."A mostra começa amanhã com a apresentação dovídeo-documentário Mazzaropi, o Cineasta das Platéias, deLuis Otávio De Santi, que serve como um aperitivo ao apresentaro comediante - desde sua história, que começou no circo e noteatro popular, passou pelo rádio e a televisão até chegar aocinema, até o depoimento de críticos e estudiosos que buscam,hoje, dedicar uma importância à obra de Mazzaropi que ele nãoconseguiu ter à sua época.O dado mais curioso é a importância da intuição deMazzaropi que, mesmo sem entender da mecânica cinematográfica,conseguia o sucesso graças ao seu conhecimento do gosto popular."Ele era mais de circo que de cinema, adorava improvisardurante as filmagens, pois o que importava era a piada e acomicidade", comenta Máximo Barro, que trabalhou como montadordos filmes. "Muitas vezes, durante a rodagem, era precisoconvencer Mazzaropi que determinada cena tinha de ser filmadapara facilitar a continuidade da história."O fato de estar rodeado por profissionais que dominavama linguagem cinematográfica compensou a falta de conhecimentodessa arte, acredita Jean-Claude Bernardet, em depoimento aodocumentário. "Acredito que ele não tinha noção de cinema, masera assessorado por pessoas talentosas, como diretor defotografia, montador, atores, que ajudavam nas minúcias comoperspectiva, eixo, ângulo", observa.A preocupação, portanto, era evitar que a produção setornasse impossível de ser exibida. O ator Ewerton de Castroconta, por exemplo, que, apesar de ainda jovem, percebia osproblemas de continuidade. "Eu dizia a ele que não era possíveltrocar a roupa dos personagens, pois o público no cinemaperceberia", afirma.A preocupação era justificável, mas talvez osespectadores não se importassem. Afinal, conta-se que, quando oJeca saía de cena, as pessoas se desinteressavam da trama e sedistraíam, comendo pipoca e conversando com o vizinho. Quando oJeca reaparecia na tela, a platéia voltava sua concentração paraa história e ria de qualquer coisa que ele dissesse. "Ele eramuito cuidadoso e não deixava que nenhuma cena que pudesseconstranger o público fosse exibida", comenta Cláudio Marques."Daí o grande sucesso dos filmes, que atraíam adultos ecrianças."O talento de Mazzaropi estava em deter o segredo dogosto popular. Desde sua estréia, em 1951, com Sai da Frente, produção da Vera Cruz dirigida por Abílio Pereira de Almeida,até as últimas produções, ele buscava na realidade o assunto deseus filmes. Foi o que fez em produções como Betão RoncaFerro, de 1971, que aproveitou o sucesso da novela BetoRockfeller, da TV Tupi. Também a dicção caipira de seupersonagem agradava ao público. "O povo que o assistia não eranascido na capital, mas paulista, portanto, vindo do interior doEstado como ele", observa Jean-Claude Bernardet.Mazzaropi evitava também que seu Jeca se confundisse coma célebre criação de Monteiro Lobato. "A explicação erasimples: enquanto o do escritor era triste e preguiçoso, o Jecado Mazzaropi era astuto e divertido", comenta Marques,lembrando que a esperteza continuava atrás das câmeras - emboradetivesse o controle de seus filmes, Mazzaropi só se tornouplenamente independente ao montar o próprio estúdio, a PamFilmes, em 1958. Produziu, então, 24 filmes em que comandavarigidamente até a distribuição. "Ele colocava um fiscal naporta de cada cinema para não ser roubado", diverte-se a atrizMarly Marley."Mazzaropi sabia fazer a reelaboração da identidadecaipira. Esse era um dos motivos de seu grande sucesso", afirmao sociólogo Glauco Barsalini em seu livro Mazzaropi, o Jeca doBrasil (Átomo, 157 páginas, R$ 30), recentemente lançado.Desenvolvido como dissertação de mestrado, o trabalho contrariaa crítica que sempre desprezou a importância dos filmes do Jeca,apresentado como um espelho fiel do caipira astuto edesconfiado. Para exemplificar, destaca um diálogo de O Jeca ea Égua Milagrosa, em que ele conversa com um padre: "O senhorpensa que nói tem vontade de votá? Nói num tem vontade de votánão. É que é obrigado. Agora, se o governo falá anssim: num éobrigado a votá, ah, nói fai um feriadão e vai pescá". No fimdos anos 70, a abertura política ainda não empolgava e o Jecaretratava uma época. É desse período também A Banda das VelhasVirgens, em que ironiza padres, a repressão sexual e apornochanchada, que dominava o cinema nacional. Mazzaropi morreuem 1981, vítima de câncer na medula.90 Anos de Alegria - Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, tel.: 3113-3651.

Agencia Estado,

12 de agosto de 2002 | 16h17

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