ARCHIMEDE
ARCHIMEDE

Matteo Garrone espera surpreender o público com uma versão mais literal de 'Pinóquio'

Diretor decidiu dar a sua interpretação e resultado é uma narrativa bem mais realista, às vezes mais sombria, do conto

Elisabetta Povoledo  THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2020 | 05h00

O Pinóquio, de Carlo Collodi, é um dos livros mais amados pelas crianças em todo o mundo, traduzido para mais de 280 línguas e dialetos, e foi tema de incontáveis filmes e séries de televisão. Quando o diretor italiano Matteo Garrone decidiu dar a sua interpretação a Pinóquio, filme lançado no dia de Natal nos Estados Unidos, ele seguiu um caminho inusitado, ou seja, manteve-se fiel ao livro original, Aventuras de Pinóquio, publicado em 1883.

O resultado é uma narrativa bem mais realista, às vezes mais sombria, do conto. Nada de gatinhos lindos, peixes dourados e relógios cucos que animaram a versão da Disney de 1940. E nem canções cativantes, fáceis de lembrar, destinadas a se tornarem clássicos.

Mas Garrone inseriu o seu Pinóquio no ambiente – e na pobreza – da Toscana em meados do século 19 de maneira tão precisa que, quando o filme penetra no campo do fantástico – o que ocorre com frequência – parece algo inconcebível.

Afinal, Collodi, cujo nome verdadeiro era Carlo Lorenzini, escreveu o livro como uma história que fosse uma lição de vida. No início seu conto foi publicado em capítulos numa revista infantil e Collodi abruptamente encerrou as aventuras do boneco depois do capítulo 15, deixando Pinóquio se enforcar pendurado numa árvore. Quando os leitores se manifestaram contra esse final, o editor de Collodi o convenceu a prolongar a história, com suas muitas idas e voltas, e chegar ao proverbial final feliz.

Para o público americano, a incursão de Garrone no campo da fantasia deve surpreender. O diretor é conhecido por sua série de 2008, Gomorra, totalmente desprovida de sentimentos, que explora o crime organizado napolitano que um crítico do Times descreveu como sendo um “instantâneo do inferno”.

Na verdade, Garrone já se aventurou no mundo dos contos de fada no seu filme de 2015 O Conto dos Contos, uma mistura de histórias recolhidas pelo autor napolitano do século 17 Giambatista Basile, que, por seu lado, influenciou os Irmãos Grimm. Garrone atribui seu interesse pelo fantástico ao seu trabalho como pintor.

Mas Pinóquio é algo mais. A história do boneco que anseia por se tornar um menino de verdade despertou a fantasia de muitos diretores, às vezes com resultados inesperados. Pinóquio viajou para o espaço, tornou-se companheiro de Shrek e mostrou um lado mais malvado num filme mais tenebroso de 1995. Mas não existe nenhum sinal de que a popularidade da história esteja diminuindo. A versão da Disney com Tom Hanks deve ser lançada no serviço de streaming da companhia e Guillermo del Toro vem trabalhando num filme sobre Pinóquio para a Netflix.

Quanto a Garrone, 52 anos, o livro o motivou a criar o que chama de o seu primeiro storyboard, uma versão em quadrinho feita por ele quando tinha cinco ou seis anos de idade, que colocou num quadro que mantém diante da sua mesa como inspiração.

“Você é uma pessoa pura quando é criança e as coisas que faz têm uma originalidade que é difícil de encontrar quando adulto”, disse ele em uma entrevista no escritório do seu estúdio em Roma. “Sempre tenho o desenho na minha frente como modelo”. Abaixo, trechos da entrevista.

Há muitas versões para o cinema de Pinóquio. Por que fazer mais uma?

Quando reli o livro, já adulto, observei que havia muitas coisas que já não me lembrava e sobretudo muitas coisas que não vi em muitas versões para o cinema. Então, pensei, se estou surpreso ao reler a história, talvez consiga produzir um filme sobre um livro que as pessoas acham que conhecem, mas na verdade não. Essa foi a grande aposta, surpreender as pessoas, mas permanecendo fiel o máximo possível ao livro.

Isto significou também ser fiel à atmosfera do livro original, com sua ênfase na pobreza da Itália rural no século 19?

Na história de Collodi você sente a fome, a pobreza. Foi feita muita pesquisa durante a preparação do filme. E demos uma grande atenção ao realismo, mas ao mesmo tempo existe uma abstração como ocorre numa fábula, que é uma das coisas que mais me fascinou quando li o livro. (Garrone exibiu um enorme storyboard do filme, repleto de anotações feitas à mão, fotos daquela era, imagens de animais fantasmagóricos e cópias dos desenhos originais do Pinóquio feitas por Enrico Mazzanti). Para cada cena examinamos as referências e ilustrações pictóricas, o objetivo era recriar a atmosfera daquele mundo. Parte da história foi filmada na Toscana e depois fomos para a Apúlia porque a Toscana mudou muito no século passado e eu desejava retratar fielmente o ambiente camponês do final do século 19.

No filme Roberto Benigni interpreta Geppetto, o carpinteiro, que aliás produziu seu próprio filme sobre Pinóquio em 2002, no qual faz o papel do boneco. Por que você o escalou?

Roberto é Geppeto no sentido de que é testemunha de uma Itália que está desaparecendo. Roberto vem de uma família de camponeses que viveu numa grande pobreza, ele soube o que era fome. Portanto não existia alguém melhor do que ele para dar autenticidade e humanidade a este personagem. Foi uma grande sorte contar com ele.

No livro, Pinóquio é com frequência alguém insuportável. O seu Pinóquio, interpretado por Federico Ielapi, é muito mais agradável. Por quê?

Tentei suavizar sua personalidade. No início, ele claramente comete muitos erros e isso é irritante. Mas tentei mitigar esse aspecto me baseando na ingenuidade do garoto que o interpreta, que é exatamente o oposto de Pinóquio. Sabemos que Pinóquio sempre quer fugir das responsabilidades, das dificuldades e está sempre em busca do prazer. Mas Federico mostrou uma boa vontade e disciplina para ficar sentado quatro horas todos os dias enquanto Mark Coulier fazia sua maquiagem. Federico foi extraordinário e tornou o personagem mais simpático.

No filme há uma mensagem contemporânea?

Collodi queria que o livro fosse pedagógico, seu objetivo era alertar as crianças para os perigos do mundo à sua volta e a sua violência. O que é uma verdade hoje, mais do que nunca. Pensei constantemente em Collodi quando realizava o filme. Sabemos que a história se passa no século 19, mas a sensação era de estar filmando uma história ligada ao presente. Lembro-me quando comecei a fazer pesquisas para o filme e me encontrei com o neto do editor original do Pinóquio. Almoçamos juntos e ele me disse: “Pinóquio é um livro difícil porque ele está sempre correndo”. Eu respondi: “Sim, é verdade, mas não quero pegá-lo, quero apenas correr atrás dele e ver até onde ele me leva”. Este foi o enfoque que adotei. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

Tudo o que sabemos sobre:
Matteo GarroneTom Hanks

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.