Tom Nicholson/REUTERS
Tom Nicholson/REUTERS

Matt Reeves explica o final de ‘The Batman’

Diretor fala sobre a diversas intenções do personagem; texto tem spoilers

Dave Itzkoff, The New York Times

09 de março de 2022 | 09h23

Você pode ver o final de The Batman como uma vitória: nosso herói (Robert Pattinson) pôs fim à fúria assassina do Charada (Paul Dano), colocando-o atrás das grades e encontrando um novo senso de propósito enquanto ajuda a reconstruir Gotham City.

Ou você pode ver a conclusão como um desastre, com Gotham inundada e arruinada, o Pinguim (Colin Farrell) reivindicando uma posição de poder no submundo do crime e Selina Kyle (Zoë Kravitz) deixando Batman para trás fugindo de moto da cidade.

Matt Reeves, diretor e corroterista de The Batman, explicou que certas ambiguidades no filme foram intencionais, especialmente quando o personagem-título reconsidera sua abordagem implacável no combate ao crime.

“Como fã, sinto a mesma coisa”, disse Reeves numa entrevista recente. “Tem uma parte da gente que quer ver vingança – e existe a realização desse desejo. O importante era envolver o público e fazer as pessoas se questionarem, ficarem tipo, espere aí, será que é isso mesmo? Será que é isso mesmo que a gente deveria fazer?”

Mas há também aspectos do final do filme que Reeves disse que não foram totalmente intencionais, como as maneiras assustadoras em que se parece com o motim no Capitólio dos Estados Unidos e outros eventos.

Nestes trechos editados da entrevista com Reeves, ele fala sobre o que quis dizer com The Batman, o que foi inesperado e se ele está pensando no que vem a seguir para o homem-morcego.

Você disse que queria que ‘The Batman’ contasse uma história em que o personagem teria de reexaminar as motivações do que ele faz. Como você viu isso acontecendo neste filme?

Eu queria que ele tivesse que enfrentar a si mesmo. Li muito sobre a ideia da máscara e os diferentes caminhos que você pode seguir. Quando você é anônimo, há uma sensação de poder, uma espécie de irresponsabilidade, mas esse anonimato pode levar a uma generosidade de espírito – um lado mais luminoso. Eu queria que o Batman tivesse que evitar essas reflexões várias vezes até que finalmente se tornassem inegáveis.

Isso também explica por que o Charada – outra figura mascarada e anônima – acredita que está na mesma missão que Batman e por que fica tão ferido quando o Batman o rejeita?

Vemos o momento em que ele [Batman] está encurralado porque perdeu seu anonimato, então como ele vai sair dessa? Parece que já foi feito e eu queria brincar com isso porque é a coisa óbvia a se fazer – oh, ele [o Charada] sabe quem ele é, só que não. Ele não sabe quem é. É uma história de amor. É isso. Ele o ama.

Foi sobre isso que falamos naquela cena [onde Batman interroga o Charada]. Eu disse, isto é uma separação. Você vai lá em busca de amor. Ele inspirou você, então, quando a coisa não acontece, você fica arrasado. Aí, quando você percebe que ele não é tão inteligente quanto você pensava, você finalmente retoma o poder.

O mais importante para o esquema do Charada é um plano violento, focado numa eleição, cujos passos finais ele não precisa executar: se ele disseminar algumas ideias pelo mundo, seus seguidores mais fanáticos, que coletam e compartilham informações na sua própria comunidade online, vão fazer tudo por ele. Esse plano soa diferente para você num mundo pós-Seis de Janeiro?

O roteiro foi escrito muito antes. Eu não queria ser tão direto porque isso, para mim, seria uma exploração. Eu queria fazer algo que ressoasse com a maneira como vivemos. Mas, quando as coisas começaram a se alinhar de certa forma, foi chocante para mim. O dia 6 de janeiro aconteceu, e já estávamos bem avançados nas filmagens. Ficamos todos muito perplexos, mas, além disso, era inquietante a forma como certas coisas estavam ressoando. Obviamente não é a mesma coisa, mas há ressonâncias.

Quando escrevi, estava pensando muito nas redes sociais. Sabemos que os algoritmos nos influenciam de certas maneiras e nos levam para a coisa que mais nos provoca, e isso mudou drasticamente a maneira como as pessoas percebem o mundo ao redor. E tudo mudou na pandemia, quando as pessoas literalmente passaram a viver através do computador – essa comunidade virtual onde as coisas se espalham e deixam as pessoas inflamadas e fanatizadas. Meias verdades e mentiras absolutas e até coisas que são absolutamente verdadeiras, mas que estão inflamadas.

Depois do motim do Capitólio, houve alguma discussão sobre a remoção dessa parte do enredo?

Bom, o problema é que era uma coisa muito central para a história. A gente conversou e concluiu que, em última análise, era diferente o bastante. E, francamente, era fundamental para a história.

A fala do Batman, “Eu sou a vingança”, foi usada na promoção deste filme, quase como um bordão, mas aí ele ouve essas palavras da boca de um dos seguidores do Charada. A lição é que ele tem que transcender isso? Que para o povo de Gotham ele tem que ser um verdadeiro herói?

Quando eu estava dando uma olhada nos quadrinhos e em ‘Batman: The Animated Series’, o discurso de Kevin Conroy sobre “Eu sou a vingança. Eu sou a noite”, alguma coisa realmente me tocou. Ele está fazendo tudo para se vingar do que aconteceu com ele. É uma forma de vingança, mas essa vingança não é suficiente. Ele tem que se tornar mais, e essa é a mensagem de todo o filme. Eu quero que ele deixe de ser alguém que projeta vingança para ser alguém que mostre para as pessoas que, em algum lugar de toda essa escuridão, há esperança. Este era o arco do personagem.

Você parece ter um caminho bem claro para uma possível sequência. Você já está pensando sobre os rumos da história?

Com certeza. Deixamos esse mundo num lugar muito particular no final da história. A corrupção por muito tempo dominou muito a cidade de Gotham. Os eventos do filme podem criar o primeiro vislumbre de esperança na cidade em pelo menos vinte anos, mas também destruir o vácuo de poder. Isso significaria que também é um dos momentos mais assustadores que a cidade viveu em mais de vinte anos. Agora, para onde a história vai, estou pensando muito sobre isso. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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