Matt Damon volta em "A Supremacia Bourne"

No momento em que há expectativas em torno de quem será o sucessor de Pierce Brosnan na série com 007, a indagação torna-se irrelevante. James Bond ficou superado. O agente quente agora é Jason Bourne. Interpretado por Matt Damon, apareceu em A Identidade Bourne, de Paul Liman. Volta em A Supremacia Bourne, de Paul Greengrass, que estréia hoje em 210 salas de todo o País. Greengrass é o diretor do docudrama Domingo Sangrento, sobre o massacre de manifestantes católicos na guerra religiosa da Irlanda do Norte. O que fascina em Jason Bourne é a natureza do personagem e os interesses com os quais se defronta. Para início de conversa, Bourne, tal como foi criado nos romances policiais de Robert Ludlum, é o agente sem identidade. Amnésico, ele atende por esse codinome, mas passa pelos dois filmes sem saber quem é. No primeiro, o condicionamento físico e psíquico o leva a reagir de maneira certeira às provocações. Ele pode não saber quem é, mas descobre que é bom de briga, de tiro, que pensa rapidamente e age com destreza nas situações-limite. No fim do primeiro filme, Bourne arranjava uma companheira e fugia com ela para um paraíso no fim do mundo. Na abertura do segundo filme, o casal é caçado e a mulher morta. Não tira a graça dizer o que ocorre porque a história do filme está centrada na vingança de Bourne - contra o assassino da mulher e os que estão matando em seu nome, para mascarar o que não deixa de ser uma conspiração ou a existência de um poder paralelo dentro do poder. O que faz de A Supremacia Bourne uma (re)construção inteligente do thriller de espionagem são justamente a questão da identidade e o jogo de interesses econômicos que substitui as ideologias no mundo globalizado. Há uma dirigente da CIA que investiga os crimes atribuídos a Jason Bourne. Ela está constantemente na mira do herói - que não é bem um herói, pelo menos no sentido tradicional -, mas ele a poupa para que ela faça suas descobertas. Elas passam por espúrias alianças entre funcionários do governo americano e da emergente máfia russa, unidos para consolidar uma nova ordem baseada no controle do ouro negro (o petróleo). Matt Damon pode ser um ator limitado - e ele provou isso acachapando as nuances de O Talentoso Ripley, que Anthony Minghella adaptou de Patricia Higsmith -, mas presta-se muito bem à construção física de Jason Bourne, que, afinal de contas, não é nenhum super-homem. É um personagem sólido e a única acusação que se pode fazer ao diretor Greengrass é a de não preencher as lacunas que, inevitavelmente, deixarão boiando o espectador que não viu A Identidade Bourne. Boa parte da densidade do filme passa pela diretora da CIA, interpretada de forma consistente por Joan Allen. Se Bourne é conduzido pelo instinto, ela o é pela razão. Não por acaso, é quem restitui ao herói sua identidade. A curiosidade é saber como será o terceiro da série, se houver.

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