Murray Close/Warner Bros. Pictures
Murray Close/Warner Bros. Pictures

'Matrix Resurrections' é enigmático e romântico; Estadão já viu o filme

No quarto filme da série, Neo volta a questionar a realidade

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

22 de dezembro de 2021 | 07h41

“Nada conforta a ansiedade como a nostalgia.” A frase de Matrix Resurrections, que estreia nesta quinta, 23, no Brasil, não poderia ser mais adequada para o momento atual do mundo – e do entretenimento, que apela para as memórias afetivas do público em filmes como Homem-Aranha: Sem Volta para Casa

Mas, enquanto o quarto filme da série criada por Lana e Lilly Wachowski é sem dúvida para iniciados, ou seja, para pessoas que viram Matrix (1999), Matrix Reloaded e Matrix Revolutions (ambos de 2003), também é uma declaração de quem afinal é dono da criatura, que rendeu tantas tentativas de cópias ao longo das últimas décadas. 

Durante anos, as Wachowskis foram pressionadas a fazer outro filme da série e sempre se recusaram. Em 2017, saiu a notícia de que projetos com a grife Matrix estavam sendo desenvolvidos, mesmo sem o envolvimento das irmãs, que tinham se afastado do cinema desde O Destino de Júpiter (2015). Em entrevista em 2020, Lilly disse à revista The Hollywood Reporter que a interferência do estúdio em seus filmes tinha causado esse abandono do cinema – as duas fizeram depois a série Sense8, cancelada pela Netflix depois de duas temporadas. 

Mas Lana resolveu revisitar seus velhos conhecidos ao perder o pai e a mãe em um intervalo de cinco semanas, além de um amigo. “Eu não sabia como processar esse luto”, disse em painel em Berlim, em setembro. “Uma noite, eu estava chorando, não conseguia dormir, e meu cérebro explodiu essa história nova.” 

Ela podia não ter mais seu pai e sua mãe, mas podia fazer algo que só o cinema pode fazer: trazer de volta Neo (Keanu Reeves) e Trinity (Carrie-Anne Moss), que, atenção para o spoiler após 18 anos, morrem no final de Matrix Revolutions. “Foi imediatamente reconfortante ter esses dois personagens vivos novamente, além de super simples de fazer. É para isso que servem a arte e as histórias, para nos confortar.”

Lilly, porém, preferiu ficar de fora. Em agosto, durante painel da série Work in Progress, da qual é produtora, em evento de imprensa da Associação de Críticos de Televisão, ela explicou sua decisão. “Eu tinha acabado de passar pela transição de gênero e estava exausta de fazer A Viagem, O Destino de Júpiter e Sense8 sem descanso”, disse ela. Lilly declarou-se uma mulher transgênero em 2016, enquanto sua irmã revelou sua transição de gênero em 2012. “Meu mundo estava desmoronando de certa forma, mesmo que eu estivesse saindo do meu casulo. Eu precisava de tempo distante da indústria, precisava me reconectar comigo mesma enquanto artista. Então eu voltei a estudar e a pintar.” 

Quando sua irmã contou sua ideia, Lilly também estava processando o luto da perda dos pais. “Achei a ideia de voltar a algo que já tinha feito pouco atraente. Não queria ter passado pela minha transição e por todas as mudanças em minha vida e pela perda dos meus pais para voltar para trás”, disse Lilly.

Assim, Lana assumiu sozinha o comando de Matrix Resurrections. E retomou o comando das narrativas, brincando com a ameaça da Warner Bros. de fazer o filme sem as Wachowskis e de ver sua criação transformada em produtos, copiada, exaltada apenas pelos seus efeitos especiais. Para as criadoras deste universo, que mistura anime e filosofia, discute se realmente existe escolha em um mundo como o nosso e subverte a noção do Escolhido, Matrix nunca se tratou apenas dos efeitos especiais. A ideia era divertir, claro, e provocar também. “A arte é um espelho”, disse Lana à revista Entertainment Weekly. “A maioria prefere apenas olhar para a superfície, mas há pessoas como eu que gostam de ver o que está por trás do espelho. Eu fiz este filme para essas pessoas”, completou a diretora. 

As duas dão poucas entrevistas, mas é só ver os seus filmes para saber que são humanistas, otimistas e críticas do capitalismo como está posto hoje. Naquela mesma entrevista de 2020, Lilly disse que Matrix nasceu da raiva contra o capitalismo e estruturas corporativizadas e formas de opressão, incluindo a sua própria, de não poder viver sua realidade plena. 

Com Matrix Resurrections, Lana tem a chance de retomar a narrativa das mãos dos grupos antifeministas e de extrema-direita, que se apropriaram da metáfora da pílula vermelha, promovendo “fake news” sob o pretexto de estarem revelando a verdade sobre o sistema. Para quem não se lembra, Neo precisa escolher entre conhecer a realidade sombria ingerindo a pílula vermelha ou permanecer em seu mundo de fantasia criado pela Matrix ingerindo a pílula azul. E, claro, ele escolhe a pílula vermelha, descobrindo que o que acreditava ser realidade é, na verdade, uma ilusão criada por máquinas que escravizaram os seres humanos para usá-los como fonte de energia. “Se não sabemos o que é real, não podemos resistir”, diz Bugs (Jessica Henwick), uma personagem não-binária fundamental em Matrix Resurrections

No novo filme, Neo novamente é levado a questionar sua realidade: os flashes que aparecem em sua cabeça são lembranças de uma vida passada ou cenas do videogame que se chama exatamente Matrix? Seu sócio, Smith (Jonathan Groff), é uma versão Matrix do Agente Smith, vivido nos filmes anteriores por Hugo Weaving? 

O filme é, como os originais, um quebra-cabeças por vezes difícil de acompanhar, cheio de pecinhas que nem sempre se encaixam perfeitamente, e desavergonhadamente romântico e sexy. Por isso, talvez seja quase uma aberração nos dias de hoje, dominado por produções que explicam tudo, que dizem tudo, que são tão idênticas quanto uma coleção de Agentes Smiths e que são desprovidas de paixão – ou seja, produções que poderiam ter sido criadas pela Matrix.

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