Massacre da Pedra do Reino inspira documentário

Muito antes de Canudos, o Brasil viveu massacres tão dramáticos quanto o provocado pelo fanatismo de Antônio Conselheiro. Em 1838, João Ferreira, líder de uma comunidade messiânica na fronteira do Pernambuco com a Paraíba, levou à morte cerca de 90 pessoas. Ele prometera que só assim o rei português d. Sebastião, desaparecido durante a batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, ressuscitaria trazendo prosperidade a todos.Conhecido como o massacre da Pedra do Reino, o episódio inspirou um documentário sob direção dos cineastas e jornalistas Anna Azevedo e Eduardo Souza Lima.Se Canudos foi objeto de extensa cobertura jornalística em sua época, deu origem a clássicos da literatura e permanece como referência histórica, o massacre da Pedra do Reino manteve-se vivo durante 164 anos exclusivamente por meio de iniciativas populares. Não há textos oficiais ou livros de história que mencionem essa passagem com destaque. Foi esse caráter consuetudinário que atraiu a atenção de Anna e Eduardo. "Há cordéis, xilogravuras, romances, peças populares, espetáculos de dança e outras manifestações sobre o assunto", avisa a co-diretora. "Mas nada que ultrapasse o caráter estritamente popular."O conceito do documentário passa um pouco por aí. A idéia é contar a história por meio das diversas manifestações populares que a mantiveram viva ao longo do tempo. Ou seja, usando o cordel, a xilogravura, a literatura, a música, o teatro, a dança e o que mais aparecer. "Pretendemos usar o máximo de elementos nordestinos", explica Anna. Bons exemplos não faltam. Há desde o ancestral cordel de Antônio Attico, escrito 40 anos depois dos eventos, até a Cavalgada à Pedra do Reino, que se realiza há dez anos em São José do Belmonte.Os trabalhos começaram no início do ano, durante o carnaval do Rio. O casal registrou o desfile da escola de samba Império Serrano, que adotou o episódio como tema do samba-enredo. O homenageado foi o autor pernambucano Ariano Suassuna, que escreveu um livro sobre o assunto, A Pedra do Reino.Redigido entre 1958 e 1970, está fora de catálogo há cerca de 20 anos e deverá ser reeditado até o fim do ano. Tanto o autor como sua obra são referências na realização do documentário. "Eu considero o romance um Dom Quixote brasileiro", aponta Anna.A dupla acaba de voltar de Pernambuco, onde foi acompanhar a Cavalgada à Pedra do Reino. Organizada e promovida pela Associação Cultural Pedra do Reino, a manifestação se realiza no último domingo de maio. Uma comitiva com cerca de 800 cavaleiros vestidos com fantasias que representam o figurino da época percorre 30 quilômetros sob o sol até a Serra do Catolé, ao sopé dos rochedos onde se produziu a carnificina. O evento prossegue com a realização de uma missa e shows com bandas e artistas da região.Durante a estada, os diretores registraram também o espetáculo de dança As Visagens de Quaderna ao Sol do Reino Encoberto, do grupo de dança Grial, parte do Movimento Armorial fundado nos anos 70 por Suassuna. Descendente do líder João Ferreira, o personagem principal, Quaderna, dá ao público sua visão do massacre.A Pedra do Reino tem produção de Anna Azevedo e Eduardo Souza Lima, em associação com a Luni Produções, do Recife. A dupla está registrando tudo com uma câmera digital mini-DV, mas pretende ampliar o filme para o formato 35 mm, com o objetivo de lançá-lo nos cinemas. Para isso, está procurando patrocínios e apoios (Anna ou Eduardo, tel. (21) 2205-5731, ou Luni Produções, tel. (81) 3441-1241). "Essa primeira fase está sendo bancada por nós", diz Anna. "Mas estamos inscrevendo o projeto nas leis de incentivo, temos algumas intenções e estamos otimistas com relação ao interesse das empresas."

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