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'Mary Poppins' e Bumblebee estão entre as estreias da semana

Como projeto, não se pode negar que o retorno da clássica babá é arriscado

Luiz Carlos Merten e Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2018 | 03h00

Mary Poppins de volta, para encantar 

Sequência do clássico tem Emily Blunt e belas cenas de canto e dança

Como projeto, não se pode negar que O Retorno de Mary Poppins é arriscado. Às do musical – vencedor do Oscar por Chicago –, o diretor Rob Marshall ousa retomar a história do cultuado Mary Poppins, de Robert Stevenson, que valeu a Julie Andrews o Oscar de melhor atriz de 1964.

A nova versão começa num período de crise econômica. As crianças do filme anterior cresceram, Ben Whishaw perdeu a mulher e agora cuida dos três filhos com a ajuda da irmã e da cozinheira. De cara, entram em cena os advogados do banco paras informar que, por falta de pagamento, ele vai perder a casa. O clima é de desolação, Whishaw e a irmã (Emily Mortimer) vão falar com o gerente do banco, que finge ser bonzinho, mas é o vilão da história – interpretado por Colin Firth. Quando tudo parece perdido, o céu encoberto de nuvens abre-se para... Mas veja se não é ela, Mary Poppins a bordo de seu guarda-chuva voador, que chega para salvar a família.

Mary é agora Emily Blunt, que assume o desafio maior que o da direção. Afinal, a babá criada pela escritora P.L. Travers já era um fenômeno editorial de língua inglesa, mas depois de Julie Andrews, e seu Oscar, todo o mundo se acostumou a vê-la como a estrela. Emily cria uma Mary diferente, e sai-se bem.

Como o original, o filme mistura animação e live action. Tem cenas de canto e dança muito bem coreografadas e filmadas – qual é a surpresa, tratando-se de Marshall? Tem também muitas surpresas, como Meryl Streep como Topsy, prima de Mary especialista em ‘desentortar’ coisas. Tem Dick Van Dyke, que estava no original, como um velho engraçado (e decisivo ao desfazer o nó das artimanhas sinistras de Colin Firth). Finalmente, tem a veterana Angela Lansbury, ícone do teatro e do cinema dos EUA, como a vendedora de balões. Com o balão certo, o mundo é o limite. Mary Poppins pode ser melhor, mas seu retorno tem um encanto especial.

O Retorno de Mary Poppins. (EUA/2017, 124 min.) Dir. Rob Marshall. Com Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw, Emily Mortimer

 

Asako I & II’, o amor, o tempo e dois filmes em um 

Hirokazu Kore-eda é um cineasta que impõe respeito, até aí, tudo bem, mas ele ganhou o Festival de Cannes, em maio, por um filme que não merecia a Palma de Ouro, Assunto de Família. Se o júri presidido por Cate Blanchett tivesse feito a coisa certa, a Palma teria ido para o outro japonês da competição, Ruysuke Hamaguchi.

Ao contrário de Kore-eda, veterano nas competições de Cannes, Hamaguchi fez sua estreia com Asako 1 e 2. São dois filmes com a duração standard de um. Acompanha essa garota que se apaixona e o amado um dia lhe diz que vai ali e já volta. Some, vira ídolo. Ela sofre, mas – surpresa! – surge outro cara igualzinho, praticamente um clone, com quem ela passa a viver, feliz da vida. Só que o primeiro reaparece, e a crise está formada.
 
Embora jovem, na idade e até no estilo, Hamaguchi já é considerado um grande, e um estudioso da alma humana. Seus filmes muitas vezes contam a mesma história por diferentes pontos de vista. Aqui é o tempo que ele esculpe. O tempo da juventude, e o da maturidade. Gestos, olhares, elipses. Os atores são excepcionais. E tem o gato, como você vai ver.

Asako I & II. (Japão/2018, 119 min.) Dir. Ryusuke Hamaguchi. Com Masahiro Higashide, Erika Karata

Amor, morte e desejo de viver  na era da aids 

O título é quase um manifesto: Conquistar, Amar e Viver Intensamente. Neste seu 11.º longa, Christophe Honoré faz talvez seu trabalho mais maduro. Talento, ele sempre teve. Neste novo filme acrescenta a leveza com que transita do cômico ao dramático, do circunstancial ao plano mais geral de uma época. Pela história de um improvável amor entre um escritor e dramaturgo maduro, Jacques (Pierre Deladonchamps), e um jovem estudante, Arthur (Vincent Lacoste), desvela uma época em que a liberação sexual se vê ameaçada pela aids. 

Sem qualquer maniqueísmo, Honoré dirige esse drama de muitas facetas no qual a ternura e a vontade de viver disputam espaço com a perspectiva iminente da morte. Como bom filme francês, Conquistar, Amar e Viver Intensamente é pontuado por referências e citações cultas, além da tradicional oposição entre Paris e a província. Nada disso tira a sua espontaneidade, frescor e emoção. Foi muito bem recebido na França e ganhou o prêmio do público no festival Mix Brasil

Conquistar, Amar e Viver Intensamente. (França/2018, 132 min.) Dir. Christophe Honoré. Com Vincent Lacoste

Garota poderosa une-se a Autobot em ‘Bumblebee’

Sucesso na recente CCXP, o produtor Lorenzo di Bonaventura veio mostrar cenas de Bumblebee, que estreia em pleno Dia de Natal. O filme filia-se à série dos Transformers, mas a história se passa em 1987, 20 anos antes do primeiro filme, constituindo-se, portanto, tecnicamente, numa ‘prequel’. Garota que perdeu o pai e tem dificuldade para aceitar a nova vida da mãe, que se casou de novo, conserta esse fusca caindo aos pedaços. Ele vira seu xodó. Mas não é um carro qualquer. Bumblebee é um Autobot que lutou contra os

Decepticons em seu planeta de origem. Refugiado na pequena cidade litorânea em que vive a protagonista, ele é rastreado no universo pelos Decepticons, que enviam uma unidade atrás dele. O objetivo é chegar a Optimus Prime, o líder da resistência (e dos Autobots).

O fusca é uma graça, mas Di Bonaventura não quer nem ouvir falar em comparações com a cultuada série Se o Meu Fusca Falasse. Veio do produtor Steven Spielberg a ideia de que já estava na hora de o mundo masculino dos Transformers abrigar uma heroína empoderada. A garota (Hailee Steinfeld, do remake de Bravura Indômita) é do barulho.

Bumblebee. (EUA/2018, 113 min.) Dir. Travis Knight. Com Hailee Steinfeld, Jorge Lendeborg Jr., John Cena

‘Diamantino’, o futebol e o mundo contemporâneo

Diamantino (Carloto Cotta) se parece com Cristiano Ronaldo quase à perfeição. Ele é “o” gajo. Mas é também signo de muitas outras coisas depositadas na figura do mais popular jogador de futebol português de todos os tempos. A história, dirigida por Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, começa por um lance crucial para Diamantino. Será ele encarregado de bater um pênalti numa final de Copa do Mundo que poderá render a Portugal seu primeiro título mundial. 

A partir desse ponto, a dupla de diretores passa a abordar, através de Diamantino, um elenco impressionante de temas. Numa primeira camada, fala, claro, da vida suntuosa e vazia de atletas transformados em astros pop pela globalização do futebol. Mas pela via tumultuada – e um tanto ridícula – do superastro, são também encarados assuntos densos como Portugal e sua posição diante da União Europeia, a corrupção política, o mundo voraz da publicidade, a ascensão da extrema-direita. É muita coisa e nem sempre Diamantino mantém a pegada. Mas é jogo bom de ver.

Diamantino. (França, Portugal, Brasil/2018, 92 min.) Dir. Gabriel Abrantes, Daniel Schmidt. Com Carloto Cotta, Cleo Tavares, Anabela Moreira

 

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