Martin Scorsese vence a guerra

Gangues de Nova York, o mais recente filme do célebre diretor Martin Scorsese, que estréia nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros, trata das guerras entre gangues de Manhattan em meados de 1860. Mas as atenções do público não estavam voltadas exatamente para essa história antes da estréia da produção nos Estados Unidos, em dezembro último. A grande expectativa era por conta das dificuldades enfrentadas por Scorscese para rodar o filme. A maior delas foi certamente o orçamento: ultrapassando o valor inicial de US$ 83 milhões, o filme tornou-se uma das produções mais caras dos 22 anos de atividade da Miramax. Custou cerca de US$ 103 milhões. Esses US$ 20 milhões extras, especula-se, levaram Scorsese e Leonardo DiCaprio, o protagonista da trama, a abrirem mão de uma parte de seu cachê para suavizar o orçamento. Juntos, eles "cederam" US$ 7 milhões para a produção do filme. Além disso, o longa passou por uma mudança de estúdio - executivos da Disney, empresa que o produziria inicialmente, acharam o tema "briga de gangues" inapropriado para o público em que apostam - e astros como Robert De Niro e Willem Dafoe, que faziam parte da escalação inicial, deixaram o elenco. Scorcese e Harvey Weinstein (co-presidente da Miramax) entraram em discórdia diversas vezes durante as filmagens. Weinstein queria uma versão modernizada e mais comercial do filme. Scorsese, por sua vez, não concordava em deixar de fazer o que havia planejado, ou seja, um filme mais artístico, não tão voltado para o compromisso de bater recordes de bilheteria. A Miramax discordava também da duração proposta pelo diretor para a fita: 3 horas e 40 minutos. E criticava a grande seqüência de cenas fortes, que poderiam não agradar a uma platéia ainda fragilizada pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Apesar de todas as concessões que teve de fazer para ver o filme ser finalizado - o roteiro foi reduzido em uma hora do que estava previsto, por exemplo -, Scorsese ainda considera Gangues sua produção mais querida. "Posso dizer que realizei minha ambição. Eu atingi o maior objetivo da minha vida. Já posso morrer feliz", brinca ao falar sobre o trabalho. Planejado desde 1970, quando Scorsese leu na casa de amigos o livro homônimo escrito por Herbert Asbury (publicado em 1928), Gangues de Nova York é um dos filmes mais pessoais do diretor. "Desde criança me sentia atraído pelas histórias da Antiga Nova York. Os anos de 1860 trazem incríveis histórias sobre a classe operária, as ondas de imigrantes que superlotavam as ruas e becos, a corrupção dos políticos e há ainda as lendas do submundo, que lutava para assumir o controle de tudo. São histórias das nossas raízes", disse Scorsese. Com quase três horas de duração,Gangues de Nova York apresenta o bairro nova-iorquino ´Five Points´, definido por Asbury como ´o berço das gangues´ e cenário de constantes guerras entre imigrantes e americanos "nativistas" - assim eram chamados os que viam os forasteiros como uma ameaça à sua terra. Leonardo DiCaprio vive Amsterdam Vallon, um jovem irlandês que vai para Nova York vingar a morte do pai, o pastor Vallon (interpretado por Liam Neeson), que havia sido chefe da gangue Coelhos Mortos e lutara em favor dos imigrantes irlandeses. O assassino é o açougueiro Bill, vivido por Daniel Day-Lewis - que não atuava no cinema desde 1997, quando fez ´O Lutador -, líder da região e nativista ferrenho que celebra todos os anos com festa a morte do pastor Vallon. Enquanto faz de tudo para destruir o assassino do seu pai, Amsterdam torna-se líder dos imigrantes e conhece Jenny Everdeane (Cameron Diaz) uma enigmática e encantadora batedora de carteiras. O filme foi rodado quase inteiro em Roma, único cenário visualizado por Scorsese para a produção, onde foram recriados nos estúdios da Cinecittá - palco de muitos clássicos italianos - quilômetros de ruas de paralelepípedos com casas, bordéis e salões da época.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.