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Martin Scorsese fala de seu filme 'A Invenção de Hugo Cabret'

Em entrevista ao 'Estado', diretor admite que longa tem muito de sua infância

Pedro Caiado - ESPECIAL PARA O ESTADO,

13 de fevereiro de 2012 | 21h21

LONDRES - Conhecido por filmes de estilo próprio, carimbados em clássicos ao longo de 43 anos de carreira, o diretor de Taxi Driver (1976), Cassino (1995) e Os Infiltrados (2006) continua em busca de novos horizontes no cinema. Em seu novo filme, A Invenção de Hugo Cabret (baseado no livro homônimo de Brian Selznick, de 2007), que estreia na sexta, Martin Scorsese deixa para trás os personagens violentos e o típico cenário nova-iorquino, marcas registradas de seus filmes, para realizar seu primeiro longa família - e sua primeira investida em 3D. Um risco, mesmo para um cineasta de 69 anos, mas que teve motivos pessoais, como ele mesmo confessou ao Caderno 2 em entrevista bem-humorada em um quarto de hotel, durante sua passagem por Londres.

Por que você fez Hugo? Seria autobiográfico?

É possível. Hugo conta a historia do isolamento de um menino, que vivia escondido em uma estação de trem, observando o mundo ao seu redor. Tudo termina então em um projetor de cinema. Essa história é parte da minha vida, especialmente quando eu tinha 3 anos. Eu era muito solitário. O único lugar em que eu conseguia encontrar algum entretenimento era na sala de cinema. Lembro que foi na minha infância que um amigo da família me apresentou um projetor. A partir desse acontecimento tudo mudou. Fiquei fascinado com o raio de luz que ele emitia e a imagem que ia se movendo. Esse se tornou o meu mundo. Na época, eu era muito isolado por causa da asma. Por esse aspecto, diria que Hugo Cabret pode ser um filme autobiográfico, sim.

Nada a ver com sua filha de 12 anos...?

Quatro anos atrás, eu disse que faria um filme que minha filha pudesse ver. Ela sempre me pedia. Um dia ela me disse: "Você deveria descobrir o que as pessoas gostam, fazer um filme sobre isso e então todo mundo iria vê-lo!". E respondi: "Claro! Eu nunca tinha pensado dessa forma. Você está certa!".

Você deixa sua filha assistir a seus antigos filmes?

Não, por enquanto (afirma em tom sério seguido de risos).

Quando você pretende deixá-la assisti-los?

Eu não sei, é uma boa pergunta. Eu converso bastante sobre isso com minha mulher. Eu gostaria de mostrar Kundun (1997), primeiramente (sobre o dalai-lama). Ou ainda Alice Não Mora Mais Aqui (1974), ou mesmo A Cor do Dinheiro (1986), que ela poderia ver sem problemas. Porém, ela teria de ver antes Desafio à Corrupção (de 1961, dirigido por Robert Rossen), que é um filme melhor. Entretanto, é fundamental ter uma visão mais sofisticada para entender um filme como este, algo que uma criança de 12 anos ainda não tem.

Você ficou ansioso em usar o 3D pela primeira vez?

Não. Eu adoro o 3D. Fiquei muito animado, porque gosto de trabalhar com profundidade. A minha maior preocupação neste caso foi como usar o 3D na narrativa do filme. Como você utiliza a profundidade? Conheço algumas pessoas que não conseguem ver profundidade, mas eu consigo, e sempre gostei. Enquanto converso com você agora, vejo outro prédio, algumas árvores e consigo perceber tudo isso em profundidade. Também gosto de movimento em profundidade. É a minha energia - e o que eu sinto.

Se você pudesse filmar algum de seus antigos filmes em 3D, qual dele vocês escolheria?

Todos. Você tem que ser meio maluco para fazer filmes. E tem que estar aberto a tudo. Eu gosto de explorar as imagens. Acredito que o 3D em preto e branco seria algo bem interessante.

Você está constantemente tentando novas técnicas. Ficar ultrapassado é algo que o preocupa?

Não, não. Neste caso, a oportunidade apareceu por acaso e, honestamente, eu sempre amei o 3D, desde criança. Quando o 3D foi usado pela primeira vez no meu tempo, em 1953, eu fiquei superanimado com aquilo.

Então você esperou um longo tempo para trabalhar com o 3D?

Com certeza. Embora eu nunca tenha parado para planejar um trabalho a ser feito com esta técnica, de repente surgiu a oportunidade de utilizá-la nessa nova produção. Eu lembro de ter conversado com Elia Suleiman (cineasta palestino, diretor de 'O Que Resta do Tempo', de 2009, entre outros) sobre o meu entusiasmo com o 3D. E lembro que ele me alertou que para usar o 3D devidamente, eu teria que vê-lo presente já no roteiro. E no caso de A Invenção de Hugo Cabret eu senti que o 3D estava lá, desde o começo.

Você diria que segue regras à risca, não importa o filme que esteja realizando?

Sim, sim. É importante selecionar os personagens, o que eles fazem e, em muitos dos meus filmes, como eles se expõem na história. Há muito a ver com autoestima exagerada, orgulho, traição e confiança. Histórias com esses temas sempre me chamam mais a atenção. Você pode colocar esses temas em mundos diferentes, como Los Angeles dos anos 70 ou Jerusalém do primeiro século, e eles sempre vão funcionar por serem de apelo universal.

Você não é fã de sequência, gosta de fazer algo e seguir adiante?

Acho que sim. Estou muito mais velho agora, e por isso, resta pouco tempo, se é que há algum. Então, tenho de ser cuidadoso com qual filme farei em seguida. Sempre me pergunto: "Será esta a melhor forma de investir meu tempo?"

Você é consciente do legado que já realizou para o cinema?

Acho que sim, mas não sei se há algum. Talvez parte de mim queira que haja um legado, mas a realidade é que o cinema é uma experiência diferente agora. Jovens percebem o mundo, e as informações, de maneira totalmente diferente da minha época. Então, não sei como eles verão no futuro o que fiz no passado, e se meus filmes significarão algo para eles.

Você realmente acha isso?

Bem, espero que os roteiros de Taxi Driver, Caminhos Perigosos ou Touro Indomável, ou qualquer um dos meus outros, tenham alguma importância para as pessoas no futuro, se por acaso os verem. As coisas caem em desuso, saem de moda. Eu não tenho ideia. Mas espero sempre poder fazer meu próximo filme.

Você acha que um dia vai se aposentar?

Acredito que não.

Você voltará a dirigir episódios da série de TV Boardwalk Empire?

Gostaria muito. Eu não continuei após dirigir o piloto porque estive ocupado com outros projetos. Agora, os personagens se desenvolveram, assim como todos no set.

Você se vê trabalhando com Robert De Niro novamente?

Sim. Bob e eu temos um projeto que esperamos realizar em um ano ou dois. É sobre meu gênero favorito, o submundo, mas com a vantagem de ser do ponto de vista de um homem mais velho. E uma história boa. Eu digo, boa, dura.

Como você mudou com a idade? Você acha mais difícil filmar violência?

Sim, sem dúvida nenhuma. Não diria que estou mais sentimental, mas você sabe, você fica mais velho e vê pessoas nascerem e morrerem. É inevitável pensarmos no fim. A última declaração que eu quis fazer sobre o gênero foi no fim de Cassino, nos campos de milho (onde os irmãos Santoro são enterrados vivos). Eu sinto que aquela é a prova final do que aquele mundo significa, e de que a violência é parte do mundo, parte do que nós somos como seres humanos.

Quais filmes você relembra com mais afeição?

Eu naturalmente tenho uma proximidade maior com Caminhos Perigosos, de1973. Aquele filme foi um projeto muito excitante. E o documentário que eu fiz com minha mãe e meu pai, Italian-american. Mas, enquanto se realiza um filme, há uma mistura de emoções. Se meu estilo de vida naquela época não me traz boas memórias, eu tendo a não relembrar aquele filme particularmente.

Você sempre se dá por satisfeito com o resultado de seus filmes?

Penso que não. Certamente tenho a sensação de ter finalizado um filme e de não querer modificar mais nada naquele projeto especificamente.

Você acha que ainda poderia fazer um filme de 1 milhão de dólares? (Hugo custou cerca de US$ 170 milhões)

Sim. Não vai ser um Gangues de Nova York. Depende da proporção do filme. Se eu puder visualizá-lo, se o roteiro for forte o suficiente e se eu puder contar com a cooperação da equipe e dos atores, eu poderia filmar com 1 milhão de dólares, sim. Vinte dias. Por que não tentar?

Qual dica você deixa para cineastas que estão começando carreira?

É uma época muito excitante, porque tudo é novo e o que foi feito ficou para trás. Depende do cineasta trazer, e fazer, algo novo. Não será mais o cinema do século 20. Nós chamamos de cinema, mas eu acho que será algo diferente. Filmes serão feitos para telas pequenas também, o que não significa que seja ruim. Mas acredito que é sempre importante expor os filmes do passado para a nova geração. Caso contrário, tudo será esquecido. Onde estará a beleza de ver um filme aos 10 anos de idade, aos 25 e então aos 60, e perceber que o significado daquela história mudou complemente? Quando uma criança terá essa experiência no futuro? Por que apagar imagens de filmes que significavam alguma coisa na sociedade? Eu venho de um tempo em que os filmes tinham algum significado para a sociedade. Não acredito que seja mais assim.

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