Marlon Brando encarnou o sacrifício do herói

Há muito tempo ele deixara de ser o sedutor que arrebatava as platéias nos anos 1950. Marlon Brando engordou, mas mesmo num filme como Don Juan DeMarco, dançando com Faye Dunaway, o homem que parecia uma bola era capaz de projetar uma imagem romântica que ainda mexia com as pessoas. Brando foi um dos maiores mitos do cinema.Antes de Brando houve John Garfield. Vieram depois James Dean, Elvis Presley, Paul Newman e Steve McQueen. Um preparou e os outros consolidaram a revolução que Marlon Brando representou no cinema americano, por volta de 1950. Brando foi o arquétipo de todos os transviados da tela, ao surgir de t-shirt e casaco de couro no lombo da motociocleta de O Selvagem. Nem importa muito o diretor, um certo Laslo Benedek que as enciclopédias de cinema praticamente ignoram. O Selvagem era Brando, confirmando, dois anos de Uma Rua Chamada Pecado, o magnetismo animal que fez dele uma das figuras masculinas mais arrebatadoras da tela.Fala-se muito, e com razão, nas mulheres que encarnaram, encarnam ainda, graças a esse mistério que permite ao cinema eternizar a imagem, uma certa idéia de sex-appeal. Jean Harlow, a jovem Brigitte Bardot, a jovem Elizabeth Taylor e, claro, Marilyn Monroe, Marilyn Monroe, Marilyn Monroe. Há, também, um sex-appeal masculino. Foi encarnado por Brando desde que vestiu aquela t-shirt que deixava os músculos à mostra em Uma Rua Chamada Pecada. O cinema americano da época era regido pelo Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência nas telas. E vinha aquele garanhão para expressar na tela a crueza de Kowalski, o personagem criado pelo dramaturgo Tennessee Williams em sua peça Um Bonde Chamada Desejo, que Elia Kazan transpôs para o cinema.O próprio Kazan havia dirigido o Bonde no teatro, com Brando. Kowalski era o mundo real, em oposição ao universo de fantasia em que vivia a Blanche Dubois de Vivien Leigh. A partir daí, logo no segundo filme - havia feito só Espíritos Indômitos, de Fred Zinnemann, em 1950 -, Brando entrou para o imaginário do público de todo o mundo. Foi um ator de gênio e uma personalidade excêntrica que desenvolveu uma relação destrutiva com as convenções do cinema e da própria existência. Num belo texto publicado no Estado, quando Caçada Humana, de Arthur Penn, foi lançado em vídeo, José Onofre valeu-se do personagem de Brando naquele filme, o xerife Calder, para perfilar o tipo de endemoniado que celebrizou o ator.Brando foi a corporificação do herói sacrificável, o marginal arrogante que sempre encarou todos ao seu redor com um desprezo quase olímpico, passando de fúrias animalescas para a indiferença com a simplicidade ou o à-vontade de quem troca de camisa. Brando representou muitas vezes o emblema do herói que só pode ser entendido ou interpretado com as chaves de Freud. O único filme que dirigiu, o western A Face Oculta, é um compêndio de neuroses que fariam a delícia do pai da psicanálise. Tudo isso começou em casa, com certeza. Brando nasceu - curiosidade - no mesmo dia em que Doris Day. Um virou a representação da América rebelde, a outra, da América conformista. Talvez as coisas não fossem assim simples.No livro autobiográfico que escreveu com o jornalista Robert Lindsey, Canções Que Minha Mãe Me Ensinou, Brando relembra a infância. Foi uma época triste de sua vida. Ajudou a moldar o adulto em que ele se transformou. A mãe era uma bêbada cujo hálito adocicado perseguiu o filho para sempre, complicando suas relações com as mulheres. O pai era um mulherengo que vivia correndo atrás de prostitutas. Violento, batia no filho. Os golpes doíam menos do que a frase que o garoto ouvia sempre: nunca seria nada na vida.Esse pai-patrão cruel enganou-se redondamente: Brando virou o emblema não só dos rebeldes citados mas também de atores como o jovem Jean-Paul Belmondo na França, o jovem Marcello Mastroianni na Itália e Zbigniew Cybulski na Polônia. Esse último morreu jovem e nunca deixou outra imagem que não aquela que projetou na obra-prima Cinzas e Diamantes, de Andzej Wajda, no qual criou o personagem Maciek. Estreou no teatro, depois de cursar o Actor?s Studio, onde ele e Montgfomery Clift viraram os garotos-propaganda do "método", o estilo de representação desenvolvido por Lee Strasberg com base nas teorias de Stanislawski. Brando e Clift trabalhariam juntos, mais tarde, num filme que não está entre os melhores de ambos: Os Deuses Vencidos, de Edward Dmytryk.Chegaram a Hollywood com pouca diferença, Clift primeiro. Mas foi Brando quem desafiou a rigidez do star-system e estabeleceu um padrão de comportamento e idiossincasia artística muitas vezes imitado, dificilmente igualado. Filmes como Espíritos Indômitos, os três com Kazan (Uma Rua Chamada Pecada, Viva Zapata! e Sindicato de Ladrões), O Selvagem e Júlio César, incursão shakespeariana de Joseph L. Mankiewicz, bastaram para estabelecer sua reputação e consagrá-lo como ícone de rebeldia. Brando não era só um corpo. Era um temperamento, uma voz.Cinéfilos de carteirinha até se arrepiam quando se lembram como inicia o discurso de Marco Antônio, diante do cadáver de Júlio César. "Cidadãos de Roma", ele começa. E logo em seguida está falando de Brutus como "um homem honrado". Outro discurso célebre nem é um discurso. É o monólogo que Brando murmura, meio chorando, em Sindicato de Ladrões, quando o ex-pugilista Terry diz ao irmão mafioso, interpretado por Rod Steiger, que poderia ter sido grande. Brando foi grande. Ganhou o primeiro Oscar por Sindicato de Ladrões. O filme é polêmico. Muitos críticos acham que Kazan o fez para justificar a delação, depois de haver colaborado com o macarthismo. O sentimento de culpa dilacera Sindicato de Ladrões. Brando o torna real para o espectador.Nos anos 1960, ele viveu seu primeiro inferno astral, enfilerando fracassos que o transformaram em veneno de bilheteria. No começo da década, seus caprichos no set de A Face Oculta enfureceram o diretor Stanley Kubrick, que cometeu o erro de dizer: "Ou ele ou ele." Brando ficou. Conta a lenda que passava horas diante do mar, à espera da onda certa para um insólito western desenrolado à beira do mar. O cenário podia ser insólito: o tipo de conflito entre os personagens não poderia ser mais "brandiano". Nos 70, estava tão por baixo que precisou de um teste para conseguir o papel de Vito Corleone em O Poderoso Chefão. O épico de Francis Ford Coppola o relançou. Brando ganhou o segundo Oscar. E veio a polêmica de Último Tango em Paris, de Bernando Bertolucci, que é muito mais do que o filme "da manteiga", como ficou conhecido na época.Os últimos filmes voltaram a ser medíocres, com exceção de Apocalypse Now, de novo com Coppola, como se Brando não estivesse mais interessado com a carreira. Talvez não estivesse mesmo. Nos anos 1990 ele viveu seu apocalipse pessoal. Um filho foi preso por assassinato, a filha se matou. Brando foi responsabilizado por tudo isso, por seu estilo extravagante de vida. As relações com as mulheres incluíram um romance com Marilyn, sua recusa a ir para a cama com Vivien Leigh e um casamento desastrado com Anna Kashfi, que simulou ser oriental para fisgar o astro, nos anos 1950.Brando leva uma surra homérica em Sindicato de Ladrões, apanha de novo, até ficar com a cara deformada, em Caçada Humana. Foi, realmente, o herói sacrificável, corporificando no cinema o individualista sem causa que é o personagem por excelência do cinema americano. Brando deu-lhe um pathos inigualável. Podia ser atormentado pela culpa, mas na tela, o sacrifício cristão é muitas vezes substituído pelas agonias e fúrias da tragédia grega. Brando fez muita coisa ruim, mas o que fez de bom basta para consagrá-lo como o maior atror do século passado. Exagero? E Laurence Olivier, perguntará o leitor? Olivier era um gênio do teatro que brilhou no cinema. Brando foi um gênio do cinema que começou brilhando no teatro. Foi incomparável, único e maravilhoso.

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