Marlon Brando completaria 90 anos hoje

Ator, que morreu em 2004, imortalizou-se em papeis como Vito Corleone

Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo,

03 de abril de 2014 | 11h05

 Com seu magnetismo visceral e um estilo moderno de interpretar, o ator e diretor Marlon Brando impôs um padrão de comportamento que influenciou uma geração de atores. Também fora da tela, o ator teve uma série de atitudes polêmicas, indiferente dos riscos que isso poderia causar à sua carreira. Brandon completaria 90 anos neste 3 de abril – ele morreu em julho de 2004, de causas desconhecidas, aos 80 anos. 

Foi assim, por exemplo, em 1972, quando sua interpretação como Vito Corleone, o patriarca de um clã mafioso em O Poderoso Chefão, rendeu-lhe uma indicação para o Oscar. Brando já ganhara uma estatueta, em 1954, por Sindicato de Ladrões, e sua vitória era dada como certa. Genioso, compusera um tipo especial para o personagem, utilizando enchimento de algodão entre as bochechas para, além de ressaltá-las, modificar a pronúncia de sua voz. 

Como era esperado, Brando foi aclamado vencedor na noite da entrega, mas o ator não estava lá para receber o prêmio. Em seu lugar, subiu ao palco uma índia dizendo-se sua representante, que fez um discurso contra a maneira como o cinema americano retratava os índios. Suspeitou-se depois que era uma desconhecida atriz, chamada Sacheen Littlefeather – era o auge de mais uma investida de Brando em polêmicas campanhas políticas. 

As discussões sempre o atraíram, fazendo o possível para realizar seus planos. Antes de encenar Vito Corleone, por exemplo, Marlon Brando autoconvidou-se para trabalhar com o diretor Gillo Pontecorvo ao afirmar que só filmaria na Europa se você sob sua direção. O ator maravilhava-se com as questões sociais e políticas tratadas por Pontecorvo em A Batalha de Argel. 

Foi o suficiente para o cineasta convidá-lo para Queimada!, rodado em 1970. Brando deixou de filmar com Elia Kazan para dar participar no que se transformou em um clássico do cinema político, no momento em que o mundo sofria profundas turbulências – guerra fria no auge, Estados Unidos atolados no Vietnã, rebeldia generalizada no meio universitário, ainda como ressaca do maio de 68 francês, tudo isso tornava vital o tipo de discussão sobre o colonialismo inglês na América Latina trazido pelo filme. 

O roteiro não estava pronto, mas Pontecorvo não precisou mais do que meia hora para garantir a participação do astro. Brando, aliás, entregou-se de corpo e alma ao filme, não se importando em até dividir a cena com um ator amador, Evaristo Márquez, um não profissional que o diretor encontrou no próprio local da filmagem (Cartagena, na Colômbia). Pontecorvo lembra que Brando foi generoso com Márquez, chegando a pedir que fosse enquadrado de costas para a câmera, o que lhe permitisse fazer as expressões que o outro deveria reproduzir, olhando para o aparelho. 

Como era de se esperar, Queimada! causou polêmica praticamente em todo o mundo – no Brasil, o filme foi proibido pela censura, sendo liberado somente anos depois, em 1980. A mesma censura que, em 1973, vetou a exibição de outro filme de Brando, O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, considerado pornográfico – a liberação só veio em 1979. 

Pode-se resumir a trama em poucas palavras: americano que vive em Paris (Brando) tenta se recuperar do choque causado pelo suicídio da mulher ligando-se sexualmente a garota parisiense (Maria Schneider) que conhece em apartamento vazio. A violência do filme não está nas imagens, mas nos diálogos, em que um homem de meia-idade, atribulado por dúvidas éticas, morais e religiosas, tenta arrasar todos os valores atribuídos à “civilização”. Trata-se da tragédia da vida, as dificuldades de uma existência fragmentada. 

A sociedade da época, porém, preferia se escandalizar com as cenas de sexo, especialmente a que se tornou mais famosa e polêmica: o uso de manteiga no auxílio do ato sexual. Com o filme considerado pornográfico, Brando, ao lado de Bertolucci, Schneider e o produtor Alberto Grimaldi, teve de enfrentar o Tribunal de Justiça de Bolonha, na Itália, que queria queimar todas as cópias do filme e condená-los por ofensa moral. A pendenga teve um ponto final com uma absolvição coletiva. A partir da década de 70, Brando decidiu reduzir suas participações no cinema, aceitando apenas aquelas que lhe rendessem um cachê milionário. Conseguiu faturar até com os fracassos, cristalizando a crença de ser um ator invariavelmente superior aos seus papéis. 

Em 1976, começou a filmar Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, recebendo fabulosos US$ 2,5 milhões. Sua primeira aparição logo se tornou clássica: ele surge deitado numa cama na penumbra, depois se senta, seu rosto misterioso quase que totalmente na escuridão, de quando em quando iluminado por um facho de luz. 

Na verdade, o ator engordara acima do esperado, deixando Coppola e a equipe técnica com um grande problema a resolver, corrigindo trabalhos de câmera e luz. Mas sua figura rotunda e misteriosa domina o filme. 

Até o fim da vida, Brando não admitia fugir de seu padrão. Em A Cartada Final, seu último filme, brigou com o diretor Frank Oz e se recusava a gravar qualquer cena se o cineasta estivesse presente. O ator Robert De Niro teve de dirigir uma delas, com instruções dadas a ele por um assistente do diretor, que via tudo por um monitor em outra sala.

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