GUILLAUME SCHIFFMAN
GUILLAUME SCHIFFMAN

Marion Cotillard fala de sua complexa personagem e do desafio de vivê-la no filme 'Meu Anjo'

A atriz faz Marlène, uma mulher que vive inebriada, num estado de exaltação

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2018 | 06h00

Há dois anos, entrevistada pelo Estado, em Cannes, Marion Cotillard dava conta de suas escolhas como atriz. “Nunca imaginei fazer parte do universo de um diretor como Jacques Audiard, e ele me deu um papel pelo qual tenho imenso carinho, em Ferrugem e Osso. Sempre admirei os Irmãos Dardenne, e eles formataram a personagem de Dois Dias, Uma Noite para mim. Foram encontros marcantes, mas em geral não escolho os diretores, mas os papéis. Gosto de personagens com áreas sombrias, que me desestabilizem. Para um ator, uma atriz, é sempre interessante fazer esses papéis intensos. Agora mesmo, devo fazer um filme com Vanessa Filho sobre uma dessas mulheres que não se enquadram nas normas. Uma personagem que tem o que dizer. Gosto desses desafios. E gosto, depois disso, de voltar para a minha vida familiar, meu marido (Guillaume Canet), meus filhos (Louise e Marcel).”

Marion falava isso a propósito de Um Instante de Amor, de Nicole Garcia, seu filme da ocasião, em Cannes. O próximo, de Vanessa Filho, seria esse, Meu Anjo, que agora estreia neta quinta, 25, no Brasil. Marion faz Marlène, uma mulher que vive inebriada, num estado de exaltação. É mãe, mas negligencia a filha, a quem, um dia, manda de volta para casa – e desaparece. Como se cria uma personagem dessas? Em Cannes, Marion esclareceu – “Sem exercer juízos de valores nem mortais, tentando entendê-la e expressá-la. Ninguém é só uma coisa. Como atriz, considero um privilégio iluminar essas áreas sombrias da natureza humana”.

E a diretora – “Trabalhar com Marion é um privilégio. Como diretora, quero mergulhar na interioridade de personagens em choque com a realidade e Marion fez esse mergulho comigo sem medo. Poucas atrizes conseguem ir tão fundo na investigação dos sentimentos, expor a fragilidade e sair incólumes do processo. Marion termina a cena e já está pensando nos filhos, no dia seguinte. Não faz um drama fora da tela.” É verdade que nem sempre foi assim e a própria Marion conta que justamente seu papel mais famoso – o de Edith Piaf, na cinebiografia da artista, por Olivier Dahan – a ensinou a tomar cuidado. “Fiquei meses focada na personagem, raspei a cabeleira e as sobrancelhas, passava temporadas sem ver meus filhos, entregues ao pai. Foi brutal demais. Apesar de todas as recompensas que tive com Piaf – Hino ao Amor, jurei nunca mais repetir a dose.”

Um aspecto interessante de Meu Anjo é a inversão da relação familiar. Mãe irresponsável, filha – menina – responsável. Em alguns momentos do filme de Vanessa Filho fica até difícil discernir quem é mãe, quem é filha. E, depois, a garota começa a mimetizar a mãe e a competir por afeto com um amante que seria seu pai em potencial. 

O filme começa interessante. Qualquer cinéfilo reconhece a altura da câmera num filme de Howard Hawks (a altura do olho humano) ou num filme de Yasujiro Ozu (na altura de um observador sentado no chão). Vanessa Filho constrói seu filme na altura do olhar de adoração da menina pela mãe, mas logo ela começa se esfumar em reflexos, até desaparecer.

Marlène é fadada a desmoronar, dramaturgicamente, e o risco é levar Elli, a filha, com ela, na medida em que a garota adota comportamento inapropriado para sua idade. Meu Anjo passou em Cannes na seleção oficial, mas integrando a mostra Un Certain Regard. Palavras de Marion no festival – “Quando a gente se torna mãe, aprende a relativizar tudo. Mas existem essas mães que não se sentem confortáveis nos saltos. Creio que vai ser preciso muito tempo para Elli perdoar sua mãe.” 

Embora se diga mais atraída pelos papéis do que pelos autores, Marion raramente trabalha com diretores estreantes. Meu Anjo é um caso raro, e ela o explica pelo papel. “Para uma mãe, como eu, é fascinante e também assustador tentar entender por que certas mulheres resistem a abraçar esse sentimento. O importante é não condenar. Conversávamos muito. Vanessa (a diretora) e eu sobre maternidade e empoderamento. As coisas não são excludentes, mas você precisa querer, ter força interior.”

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