Marieta Severo, atriz veterana do cinema

A atriz Marieta Severo surpreende-se ao ser lembrada de que A Dona da História, adaptação da peça de João Falcão que ela e Andréa Beltrão estrelaram há seis anos, é seu 30.º filme. Ela nunca planejou a carreira, que completa 40 anos em 2005 e é diversificada como poucas: da suburbana dona Nenê, de A Grande Família (que volta em 2004), na TV, à rainha Carlota Joaquina, que reconciliou o cinema brasileiro com o público. Com as três filhas criadas, três netos e aparência de uma mulher bem mais jovem, ela tem sempre a agenda cheia. E em 2004, além de ser a dona Nenê, estará em dose tripla no cinema. Será Lucinha Araújo, em Cazuza, de Sandra Werneck; a mãe de um guerrilheiro, aos 50 e aos 70 anos, em Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat; e a mulher que reavalia sua vida em A Dona da História, de Daniel Filho. E pensa em teatro, mas faz segredo sobre projeto. Poucas atrizes da sua geração podem dizer que têm 30 filmes no currículo. Como conseguiu?Marieta Severo - Minha trajetória no cinema é atípica, porque não fiz parte do cinema nas décadas de 60 e 70. Fiz poucos filmes, mas não fui da turma do Cinema Novo. Fiz Chuvas de Verão, com o Cacá (Diegues), mas comecei mesmo nos anos 80 e 90 e peguei uma safra boa de Sonho sem Fim, O Homem da Capa Preta, Com Licença, Eu Vou à Luta, que me deu um prêmio em Gramado. Peguei essa leva e esse renascer do cinema. Por causa de Carlota Joaquina, você é considerada responsável pela retomada. Não me sinto responsável, mas sortuda (risos). Claro que meu trabalho está lá, o do (Marco) Nanini e outros atores, com roteiro, um trabalho conjunto. Tive sorte de ser escolhida pela Carla (Camurati). A responsável maior por esse momento é ela, a diretora do filme, que bolou o projeto e o levou a adiante. Como é no teatro, em que você é atriz e produtora há 20 anos? Varia muito, cada trabalho teve uma característica. Há encomenda, como A Dona da História, que partiu de uma vontade da Andréa e minha de fazer algo juntas. Virginia Woolf eu queria fazer havia muito tempo. Já Os Solitários, foi um acaso. Nanini e eu tínhamos encomendado outra peça, que não aconteceu, e o Felipe Hirsch sugeriu esse texto, da dramaturgia moderna. Tem acasos que eu adoro, parece a vida que vai te empurrando. Como é filmar A Dona da História depois do sucesso no teatro? Só paramos porque a Andréa estava grávida, um motivo maravilhoso. Mas a gente ainda se deve em relação à peça, tínhamos muitos plano. Para mim, se completa com o filme, projeto do Daniel Filho. Ele encomendou a adaptação ao João Falcão e trabalhou o roteiro final com o João Emanuel Carneiro. Basicamente, a trama muda pouco. No cinema talvez a história de amor centralize o filme. No teatro, era o destino. Mas a crise da mulher madura, aos 50 anos, que resulta no fim do casamento e a menina decidindo se quer o tipo de vida que resulta daquele amor, é o cerne do filme e da peça. Como é viver a Lucinha Araújo que está viva e próxima? Não conheço a Lucinha intimamente, mas tenho profunda admiração pela maneira como encarou a maior tragédia que pode acontecer a uma pessoa e foi difícil fazer o personagem. A ficção fica muito pequena diante da tragédia real recente. Quando fiz Canudos, senti essa responsabilidade, porque a realidade está muito além da ficção, é mais louca e implausível. Em Canudos eu pensava: "Meu Deus, como vou retratar o sofrimento dessa mulher, que perdeu o filho nessa luta, que vivia nessa miséria, como vou fazer isso?" Passa perto, porque é impossível retratar a tragédia humana. Com a Lucinha foi complicado, não por medo da comparação porque não tentei retratá-la, nem pegar seu jeito. Minha bíblia era o livro que ela escreveu com a máxima honestidade. Era mais confortável estar com o livro de que falar com ela. Ia fazer uma ficção e tinha de servir a isso. A Lucinha que eu tinha era a do roteiro, não a real. A que existe é irreproduzível.

Agencia Estado,

09 de fevereiro de 2004 | 18h49

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