Marianne Slot, jurada da Mostra, ressalta o papel da mulher

Membro do júri da 38ª Mostra, exibe na Mostra as versões sem cortes de 'Ninfomaníaca'; ela é produtora de filme de Lars Von Trier

Flavia Guerra , O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 03h00

Uma das mais prestigiadas produtoras de cinema europeias, a dinamarquesa Marianne Slot tem em seu currículo, além dos longas de seu grande parceiro Lars VonTrier, diversos cineastas latino-americanos, como, por exemplo, Lisandro Alonso (Los Muertos, 2004) e Paz Encina (Hamaca Paraguaya, 2006), que levou o Prêmio da Crítica da 30ª Mostra. 

Membro do júri oficial desta 38ª Mostra, Marianne chegou na quinta a São Paulo disposta a aprender um pouco mais sobre o mercado de produção brasileiro, as cineastas do País e também sobre os filmes que o público escolhe para que, então, o júri possa votar e eleger o melhor filme da Mostra 2014. “É um formato interessante. Não me lembro de ver outro assim no mundo, em que é o público que diz o que o júri terá de escolher como vencedor. É um jeito interessante de unir público, realizadores e até a crítica em uma escolha”, comentou ela em conversa com o Estado. 

“Quando fui convidada para ser júri, pensei: ‘Que tipo de filme vai ser escolhido pelo público? Em muitos festivais são filmes menos cult, não? Mas aí pensei que o Hamaca, que é um filme que exige bastante do espectador, foi muito bem de público na Mostra. E fiquei mais curiosa ainda”, completou a produtora, que começou ontem a maratona de assistir aos 11 finalistas ao troféu Bandeira Paulista deste ano.

Ao mesmo tempo em que se surpreendeu com o nível dos filmes mais votados, Marianne também se decepcionou com o fato de não haver nenhuma diretora entre os finalistas. “É uma pena. Eu sempre presto atenção a este detalhe, sabia? Não acho que exista uma obrigação de se incluir filmes feitos por mulheres só por uma questão de cota, mas é preciso sempre estar atento ao fato de que deve haver produção feminina no cinema em geral”, explicou ela, que preside o Fundo de Apoio ao Cinema Mundial pelo Centro Nacional do Cinema e da Imagem em Movimento (CNC) da França. “É uma grande responsabilidade. Além de poder saber sobre tudo que os cineastas estão produzindo e propondo no mundo, também há a responsabilidade de incentivar os talentos, que têm revelado uma visão politizada e pessimista do mundo. E sempre procuro valorizar o papel da mulher neste cenário”, diz Marianne. “Quando viajo, e mulheres me dizem que se inspiram em mim para buscar seu espaço, sinto uma grande felicidade.”

Para a produtora, o fato de ser mulher influencia não só seu olhar sobre o cinema e o mercado como também seu olhar sobre o trabalho de Lars Von Trier. 

Frequentemente apontado por críticos como misógino, o cineasta dinamarquês, cujas duas versões integrais de Ninfomaníaca serão exibidas na Mostra, tem em Marianne uma defensora importante. “Não sei como acham isso dos filmes dele. De forma alguma, Lars é misógino. Ele é um dos poucos que ousam questionar assuntos muito difíceis sobre a condição feminina, sobre como as mulheres são tratadas e seu lugar no mundo”, argumenta a produtora, que trabalhou com o cineasta em longas como Os Idiotas (1998), Dançando no Escuro (2000), que levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes; Dogville (2003), Melancolia (2011) e Ninfomaníaca. Este, aliás, tem sessão hoje, às 20h, no Cine Livraria Cultura, amanhã, às 21H30, no Reserva Cultural; e na terça, às 21h30, no Espaço Itaú de Cinema Augusta. 

“Se fosse um homem, no lugar de Joe, ele seria apenas um Don Juan. Aconselho as pessoas a verem as versões completas, pois nelas Lars vai muito mais fundo nas questões. É mais completa, apesar de mais pesada, mas chega aonde ele queria chegar”, analisa a produtora, que também exibe na 38ª Mostra Ninfomaníaca 2, hoje, às 22h45, no Cine Livraria Cultura; segunda, às 20h30, no Reserva Cultural, e quarta, às 20h30, no Espaço Itaú de Cinema Augusta.

Marianne, que também é fundadora da casa de produção Slot Machine, conta que, desde o primeiro longa de Lars, seus roteiros sempre mudaram muito pouco, mas que o resultado sempre foi surpreendente. “Leio tudo, desde o argumento inicial. Mas nunca sei como o filme vai ser. É incrível sua capacidade de nos surpreender”, revela a produtora. 

“Os diálogos de Ninfomaníaca, as cenas e o simbolismo que há no filme são muito ricos. É possível fazer uma leitura da forma como o feminino vem sendo tratado, e retratado, ao longo da história, das artes, da literatura”, analisa. “Quando li o roteiro pela primeira vez, completo, disse a ele que era muito forte. Infelizmente, sabia que teria de ser cortado para ser lançado comercialmente. De forma alguma, é um filme erótico. Aliás, em nenhum país teve este efeito. Pelo contrário”, acrescenta ela, que, para 2016, prepara uma nova série de TV dirigida pelo cineasta. “Vai se chamar The House That Jack Built (que também é uma famosa canção folclórica inglesa) e mais não posso dizer. Só digo que será incrível!” 

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