Maria Moura, dócil e guerreira, vira filme

Depois de render uma boa minissérie na Rede Globo, o livro Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz, chegará aos cinemas no ano que vem. A responsabilidade está nas mãos da diretora estreante Leilany Fernandes e o filme irá chamar-se apenas Maria Moura. A diretora acha que o fato de o romance já ter sido exibido como minissérie pela Globo não deverá atrapalhar. "Minha visão é completamente diferente da minissérie. Além disso, o livro de Rachel é muito rico e seria possível fazer uma dezena de adaptações diferentes."O romance é uma das narrativas mais marcantes da escritora Rachel de Queiroz e a trama situa-se em meados de 1850 no sertão. Maria Moura é uma menina que passa a ter problemas com o padrasto quando a mãe morre e acaba envolvida numa disputa de terras. "A história da Rachel de Queiroz me impressiona por retratar três mulheres bem diferentes: uma doce, uma solidária e uma guerreira", explica ela.As locações, em pleno sertão pernambucano, já estão a todo vapor. Vapor, aliás, é mera figura de linguagem, já que a região é extremamente seca, o que vem obrigando a equipe a um esforço digno dos retirantes. "Depois de uma semana de filmagens, entendi o que Euclides da Cunha quis dizer com ´O sertanejo é antes de tudo um forte´, em seu livro Os Sertões" afirma Leilany. "A gente percebe que ou vence o sol ou é derrotado por ele."Mas nem todos pensam assim. Inicialmente, a personagem principal, Maria Moura, seria vivida por Ana Beatriz Nogueira. Mas poucos dias depois de iniciadas as filmagens, ela não resistiu à seca e ao calor e abandonou o set. Para seu lugar, foi chamada a atriz Dira Paes (Cronicamente Inviável). "No fim das contas, creio que acabou sendo melhor, pois Dira encarnou muito bem o personagem, tanto na fase de menina doce como na transição para a guerreira que lidera um bando pelo sertão", conta Leilany.Precisão - Escalada às pressas para substituir Ana Beatriz, Dira Paes não teve problemas em compor o personagem. Ela conta que, no início, chegou a ficar preocupada, mas acalmou-se assim que começou a leitura do livro. "Rachel de Queiroz descreve os personagens com muita precisão e o livro é dividido em capítulos que levam o nome dos personagens. Isso facilita muito o trabalho do ator." Para ela, a personalidade de Maria Moura é muito atual. "Ela é uma mulher moderna, à frente de seu tempo." O mais difícil, segundo Dira, é a transição entre a moça dócil e a guerreira que vai chefiar assaltos e mandar matar pessoas.Um dia inteiro em pleno sertão, acompanhando a filmagem, foi suficiente para a reportagem entender, em parte, as razões de Ana Beatriz. Mesmo à sombra, ao meio-dia, o calor é insuportável. Nesse cenário da caatinga, a beleza de Maitê Proença chega a lembrar uma flor de cacto. Ela conta que suporta o calor com muita determinação. "De certa forma, ele até ajuda, pois nos faz sentir como os personagens da época."Caminhões-pipa - Para vencer a seca, foi montada uma verdadeira operação de guerra. Três caminhões-pipa, com 10 mil litros de água cada, chegam às locações diariamente. Ao mesmo tempo, são enviados, todos os dias, 2.400 copos de água mineral e 400 cocos. Dentro das limitações, a produção faz o que pode. "Mas o ator tem de ter fibra. Não dá para dizer que quer ar-condicionado, que não quer poeira", conta Maitê. Esses cuidados só foram possíveis graças ao bom orçamento do filme (cerca de R$ 3 milhões).A produção de Maria Moura só se decidiu pelas locações em Pernambuco graças ao apoio do governo desse Estado. Segundo o produtor Vitor Lustosa, a idéia inicial era usar uma locação mais próxima do Rio de Janeiro. "A minissérie da Globo foi gravada em Xerém, no interior do Rio", conta. "Chegamos a cogitar essa hipótese, mas quando sondamos o governo de Pernambuco, eles foram muito receptivos e se comprometeram a fornecer a infra-estrutura. Isso foi decisivo."A favor de Pernambuco também pesou a diversidade das locações. "Aqui temos desde o litoral até o sertão mais seco", afirma Leilany. Como locação principal, foi escolhido um vilarejo fundado há mais de dois séculos chamado Caboclo, a 140 quilômetros de Petrolina. Por ser um lugar muito pobre e ter passado décadas abandonado pelos governantes, acabou mantendo as mesmas características do século passado. A população vive da agricultura, quando chove, e da criação de bodes. É um cenário tipicamente glauberiano. Para o visitante, a sensação é de que a qualquer momento pode-se topar com Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos, personagens imortalizados por Graciliano Ramos em Vidas Secas.Virada - O descaso acabou virando a favor do vilarejo, que, de tão pequeno, é chamado pelos moradores da região de arruado. Sua fama de bom cenário está alastrando-se pelo meio cinematográfico. Walter Salles (Central do Brasil) rodou em Caboclo algumas cenas de seu novo filme Abril Despedaçado e consta que Sérgio Bianchi (Cronicamente Inviável) já pediu um vídeo com cenas do local, para um novo projeto.Caboclo estava, por assim dizer, em tão bom estado, que não foi preciso fazer grandes mudanças. "Tiramos apenas uns postes de luz elétrica da praça na frente da igreja e trocamos algumas portas, que tinham maçanetas, por outras feitas de tábuas, mas a maioria delas estava tal e qual há cem anos. Algumas casas tiveram de ser repintadas, com cores comuns na época", explica o cenógrafo Gilmar Crisóstomo. Ele conta que importou apenas três assistentes de fora. "Arregimentamos os operários entre os próprios moradores."Apesar de estreante em longas-metragens, a diretora Leilany tem em seu currículo vários curtas, além de ter sido atriz por muitos anos. Mas ela convive com direção de cinema há muito tempo, pois foi casada com o diretor Bráz Chediak (Bonitinha mas Ordinária) e conta com seus conselhos, já que ele integra a equipe técnica, como assistente de direção. Mais recentemente, esteve casada com outro diretor, Osvaldo Caldeira (Tiradentes). O resultado poderá ser conferido em meados do ano que vem, quando o Maria Moura deverá estar pronto. Também integram o elenco, todos conhecidos da TV, Osvaldo Loureiro, Ângela Leal, Maurício Gonçalves e Jorge Dória.Elenco - Ao contrário do que se pode imaginar, o elenco de Maria Moura não fica alojado em hotéis cinco estrelas, mas em casas adaptadas para oferecer algum conforto. Luxo, nem pensar. As condições são espartanas. Da cidade grande, a produção trouxe uma cozinheira do Recife que procura fazer refeições leves e um trailer foi improvisado como camarim."O ator, que gosta de fazer cinema, já está acostumado com esse tipo de situação e, nas locações, a gente acaba ficando mais tolerante", afirma Maitê Proença. Da mesma forma, Chico Diaz não se incomoda. "Sou rato de cinema. Adoro locações."As maiores dificuldades para os atores e a equipe técnica, além do calor, são a distância de casa e a falta de infra-estrutura do local. Eles trabalham enquanto é dia claro. Depois jantam e têm as noites livres. "Não há muito o que fazer à noite, mas a gente procura se integrar aos costumes locais", conta Chico Dias, que faz o padre por quem Maria Moura se apaixona.Sanfona - Por costumes locais, entenda-se forró à base de sanfona até o sol raiar. Um dos atores, João Rodrigo Chediak (filho da diretora), que assina a trilha do filme, é um exímio violeiro e costuma dar uma força na música. "O forró é a grande tradição da região", afirma.Para Maitê, a população local reage à presença de atores de uma forma diferente das pessoas da cidade. "Certa vez, quando passei vestida em trajes da época, ouvi uma moradora comentar: ´Que linda, parece uma Santa.´ No começo eles nos olhavam com a maior reverência, mas nunca nos abordavam." Segundo ela, depois de algum tempo, as pessoas já nem olhavam mais. "Agora já estão até acostumados."Conversas ao telefone - Para ela, a saudade da família é remediada com muita conversa ao telefone. "Por outro lado, a solidão e o fato de estar longe dos problemas permite muita reflexão e um mergulho profundo na personagem." Para Chico Diaz, no meio do sertão o tempo parece não passar. "O dia rende como nunca."Uma coisa é certa. Depois da passagem da equipe de filmagem, o pequeno arruado de Caboclo nunca mais será o mesmo. "As pessoas daqui conheceram novos costumes, muita gente aprendeu coisas, ganhou mais dinheiro e é capaz que, depois de tudo, alguns resolvam ir para grandes centros", afirma Leilany.

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