Maria Callas vai à tela do cinema com Zeffirelli

Callas Forever e O Júri são duas outras estréias deste fim de semana, além do humor debochado do Casseta e Planeta e de Geração Roubada. O fime sobre Maria Callas tem todos os defeitos do cinema de Franco Zeffirelli - é superficial, melodramático, edulcorado. Mas mesmo com todas as restrições, o filme é o menos ruim que o cineasta italiano assina em muitos anos. O motivo é simples. Zeffirelli privou da intimidade de Maria Callas. Talvez seja o que, no fundo, comove Zeffirelli e o faz ser aqui mais sincero do que conseguiu ser em qualquer outro de seus filmes recentes. Ex-assistente de Luchino Visconti (em A Terra Treme e Belíssima), Zeffirelli era um daqueles garotos bonitos - gay, naturalmente - que o grande Visconti integrou ao seu entourage. Visconti ensinou-lhe tudo - arte, ópera, vida -, o próprio Zeffirelli reconhece na autobiografia. Em Callas Forever, Zeffirelli projeta-se na figura do gay que é quem nos introduz na intimidade do mito. Nascida Cecilia Sophia Anna Maria Kalogeropoulos numa família de emigrantes gregos (e pobres) em Nova York, Maria Callas tornou-se o maior mito da ópera no século 20. Mas até os adoradores do seu culto são forçados a admitir que ela talvez fosse, mesmo, melhor atriz do que cantora. Visconti foi decisivo no processo. Edulcorado que seja (e é), Callas Forever passa essa lição de integridade de uma artista que não aceita transigir. A Callas de Zeffirelli é também Greta Garbo. É todo artista que tem de escolher entre grande Arte, com maiúscula, ou concessões em nome da aceitação fácil. Zeffirelli há muito entrou para o segundo time, mas agora deu-se conta e, pelo visto, está pensando sobre o assunto. A questão é - terá esperança, algum tipo de esperança? O mistério da presença de Fanny Ardant e o da voz de Maria Callas tornam Callas Forever assistível e isso, na atual fase do diretor, já é alguma coisa. O Júri - Há uma grife John Grisham. Já seduziu até diretores como Francis Ford Coppola (em O Homem Que Fazia Chover) e Sydney Pollack (A Firma). Nenhum dos dois fez da franquia algo espetacular. O melhor John Grisham do cinema talvez seja Tempo de Matar, com direção de Joel Schumacher, em que um negro é levado a julgamento por matar os homens (brancos) que violentaram sua filha. A cidadezinha racista explode. O criminoso não tenta fugir à sua responsabilidade. É réu confesso de um crime que todo mundo viu. O caso parece fácil mas toma rumos inesperados. Esse elemento de surpresa também percorre O Júri, que Gary Fleder adaptou de outro livro de Grisham. O filme dois ícones de Hollywood - Gene Hackman faz o cínico e bem-sucedido advogado que defende a indústria de armamentos, levada ao tribunal justamente por Dustin Hoffman, como o promotor público bem-intencionado, mas também demagógico, que faz a parte do acusador, em nome de mulher cujo marido foi morto com uma arma cuja circulação deveria ser restrita. O que está em jogo é o direito ao porte de armas. Na briga dos advogados, surgem os personagens de John Cusack e Rachel Weisz. Ele controla o júri, tenta tirar dinheiro de uma parte, depois, de outra. O desfecho é surpreendente, embora não seja tão surpreendente assim se o espectador prestar atenção em alguns detalhes que permeiam a narrativa.

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