Maria Antonieta, a rainha que ridicularizou Versailles

Já virou maldição - os filmes queCahiers du Cinéma escolhe para colocar na capa de sua ediçãoespecial sobre Cannes não têm feito muito boa figura naCroisette. Em 2005, foi The Last Days, de Gus Van Sant. No anopassado, Marie Antoinette, de Sofia Coppola. A filha deFrancis Ford Coppola chegou a Cannes com pinta de campeã, mas,no fim, foi-se embora sem nem mesmo um prêmio de consolação parasua Maria Antonieta. O filme estréia nesta sexta,16. É bom. E éaté mais político do que a própria Sofia talvez quisesse quefosse. Em Cannes, na coletiva após a exibição do filme para aimprensa, a diretora divertiu-se com as analogias feitas peloscríticos. Ela teria se projetado na personagem da rainha daFrança por ser, ela própria, membro da realeza de Hollywood. Seunovo filme, como o anterior (Encontros e Desencontros), tambémconta a história de uma mulher - jovem - lost in translation.Scarlett Johansson manifestava o estranhamento da americanaperdida não apenas no fuso horário de Tóquio, mas nacomplexidade da cultura japonesa, tão diferente da dela (e doastro que grava um comercial sobre uísque, interpretado por BillMurray). Marie Antoinette, a austríaca, é uma estranha na cortede Versalhes. Sofia disse que, antes de fazer o filme, MarieAntoinette representava, para ela, a imagem da decadência.Quando leu o livro de Antonia Fraser, ela percebeu que apersonagem era muito mais complexa e fascinante. Estimulada,pesquisou para ver se conseguia captar o verdadeiro sentido daexperiência humana da rainha. Foi o que tentou expressar na tela.Múltiplas facetas "É uma personagem muito interessante, com múltiplas facetas.Quis me concentrar no foco mais pessoal dessa figura históricacujo enigma até hoje nos persegue. E queria que o filmetransmitisse uma energia adolescente, porque a rainha, o rei sãopouco mais que crianças." Marie Antoinette tinha 14 anos quando chegou à corte,para se casar com o futuro rei Luís XVI. Como uma garota, mesmouma princesa, criada numa corte menos protocolar, ele acharidícula toda aquela encenação, o que provoca uma ríspidaobservação da árbitra da elegância, interpretada por Judy Davis- "Ça, Madame, c?est Versailles." Sofia admite que o que a atraiu foi a possibilidade demostrar que a rainha foi uma mulher moderna, avant la lettre. Aseu lado, na mesa, Kirsten Dunst, trabalhando com a diretorapela segunda vez, após As Virgens Suicidas, acrescentou -"Achei interessante fazer o papel porque Sofia deixou claro quenão queria que eu simplesmente criasse uma personagem histórica.Ela me deu liberdade para ser quem sou. Para mim, foi umaexperiência visceral, sensual. Em vez de me debruçar sobre opassado, busquei coisas pessoais, minhas, que pudessem servirpara a compreensão de Marie Antoinette." Revelar a dimensão humana de uma figura tãocontrovertida implicou em certos riscos. Marie Antoinette émimada, é fútil, mas surpreende duplamente o espectador que vaiver o filme baseado nos preconceitos que os livros de história(e o próprio cinema) veiculam sobre ela. Frase históricaA Marie Antoinette deSofia Coppola acha ridícula a frase que lhe atribuem - "Se opovo não tem pão, que coma brioche" - e se revela uma mãededicada. Curva-se diante do povo, numa cena que precede aderrocada, com a morte do delfim, simbolicamente a morte de todoaquele estilo de vida. Nada disso a absolve, mas contextualiza ahistória de uma mulher que, como as heroínas anteriores dadiretora, não tem controle sobre sua vida. A alienação dá o tom,bem de acordo com aquela gente que considerava seu poder divino.Uma cena curiosa mostra a discussão do conselho, na qual o reiconcorda em fornecer ajuda aos revolucionários americanos,enquanto o povo francês está morrendo de fome nas ruas de Paris. Nada é simples em Marie Antoinette. Sofia, acostumadaàs críticas - foi demolida, como atriz, em O Poderoso Chefão 3-, deixou claro, em Cannes, que seu filme não nasceu com opropósito de se transformar num documento histórico (embora nãodeixe de sê-lo). Sofia, conscientemente, procurou asressonâncias contemporâneas dessa história. O que essa mulhertão polêmica ainda tem a nos dizer, mais de 200 anos depois desua execução? Seria interessante o que a diretora teria a dizersobre A Rainha, de Stephen Frears, mas o filme que deu a HelenMirren o Oscar de melhor atriz surgiu bem depois. São diversos,mas expõem a face humana (e os erros históricos) da nobreza,mesmo que Elizabeth II, com sua intransigência, não tenha nada aver com essa adolescente despreparada para a inutilidade de suarepresentação do poder.Trilha sonora moderna A música, desde logo, foi uma preocupação da diretora,que já havia integrado o pop à trilha de Encontros eDesencontros. Sofia recorre agora a The Strokes, New Order, TheCure e Bow Wow Wow. "Desde o início achei que devia misturarmúsica contemporânea à música do século 18. Acho que essamistura provoca uma qualidade emocional que me interessava criar uma espécie de tensão que permanece ao longo de todo o filme.Quando Marie Antoinette chega ao baile de máscaras, a músicaexpressa todas as emoções que a consomem. Acho que a música mepermite dar uma real modernidade à história." A preocupação com o figurino também foi muito grande eMarie Antoinette terminou dando a Milena Canonero, veteranacolaboradora de papai Francis Ford, o Oscar da categoria. Milenatambém participou da coletiva em Cannes. "Segui as indicações deSofia. Ela tinha muito claro o que não queria. Sofia não queriaum quadro vivo (tableau vivant) da época. Queria alguma coisa decontemporâneo, um frescor. Fugimos à representação tradicionalde Marie Antoinette. Meu trabalho consistiu em buscar umequilíbrio, nos figurinos, entre a reconstituição histórica e oque melhor servia à visão de Sofia como diretora." Maria Antonieta ("Marie Antoinette", EUA-Fr-Jap/2006, 123 min) - Drama. Dir. Sofia Coppola. 14 anos. Cotação: Bom

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