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'Marguerite' conta a pungente história de uma cantora sem talento

Filme fala de baronesa desafinada, que é poupada de críticas por todos à sua volta, e da sua devoção à música

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2016 | 03h00

Há dois, talvez três anos, o repórter encontrou-se com Catherine Frot em Paris, num evento promovido pela Unifrance. A entrevista era para falar de Os Sabores do Palácio, em que ela faz a chef do ex-presidente François Mitterrand. Simpática, Catherine convidou o repórter a vê-la no teatro, e a peça era de Samuel Beckett, Oh! Les Beaux Jours. Catherine está agora nos cinemas brasileiros com Marguerite. Interpreta a personagem título do longa de Xavier Giannoli. Pelo papel, ganhou o César, o Oscar francês do ano passado. Ganhou também o prêmio nacional de melhor atriz de teatro, por Flor de Cacto, que foi filmado nos anos 1970 com Ingrid Bergman. Não é frequente que, em país nenhum, a mesma atriz vença grandes prêmios de teatro e cinema.

Poderosa Catherine. No Café de la Paix, próximo à Ópera, ela já falava que ia fazer esse filme, e que seria uma personagem difícil, que exigiria um tom muito especial. E ela usou a expressão “très particulier”, muito particular, para definir o que seria esse tom. O filme de Giannoli é sobre uma baronesa que sonha com uma grande carreira lírica. Por maior que seja sua ambição, ela não tem uma grande voz, e desafina, ainda por cima. Ninguém tem coragem de destruir suas ilusões porque, além do poder e do dinheiro, a baronesa é boa pessoa. O marido contrata um professor de canto que não serve de muita ajuda. O marido envergonha-se, mas termina cooptado pelo sonho da mulher – como o mordomo, que será, em toda essa história, um devotado aliado de Marguerite. E a verdade é que a heroína desafina, mas tem um verdadeiro temperamento artístico. É o que basta para que Giannoli se interrogue sobre o que, afinal, é arte?

Antes de prosseguir, vale lembrar que Xavier Giannoli ganhou, no fim dos anos 1990, a Palma de Ouro do curta-metragem, em Cannes, com L’Interview, A Entrevista. Fez depois longas como Quando Estou Amando e No Princípio, oferecendo belos papéis a Gérard Depardieu, Cecile de France, François Cluzet e Emmanuelle Devos. Marguerite baseia-se na história real de Florence Foster Jenkins, socialite norte-americana que, por décadas, entreteve os convidados de seus saraus cantando mal, mas servindo-lhes finas iguarias. Um dia ela extrapolou. Foi cantar no Carnegie Hall e a crítica foi dura. Ela não resistiu e morreu. Que mulher é essa?

Perdão, mas chama-se justamente Florence, Que Mulher É Essa? a versão hollywoodiana que logo estará chegando aos cinemas brasileiros. O trailer já está rodando por aí. Meryl Streep é quem faz o papel, dirigida por Stephen Frears. É bem possível, muito provável, que a grande Meryl some mais uma indicação para o Oscar, mas nem ela conseguirá ser melhor que Catherine Frot.

Há algo de doloroso, pungente na história de Marguerite. Ela toma como elogio uma crítica que lhe é feita, a de que sua voz tem o desespero de alguém que tenta domar um demônio interno. O marido e o mordomo tentam protegê-la de seu sonho, evitando que acorde para a terrível realidade. OK. Marguerite pode não ser a grande cantora que gostaria, mas sua devoção à música é sincera e, mais que isso, comovente. Giannoli e seu diretor musical selecionaram trechos de óperas que deveriam encher os ouvidos do espectador, mas terminam provocando aflição. Marguerite ‘arranha’ a ária A Rainha da Noite, da ópera A Flauta Mágica, de Mozart, insiste com a Casta Diva da Norma, de Bellini. O desafio é que Catherine tem de cantar no limite. O diretor usa sua voz, agregada à coloratura de uma soprano distorcida por meio de aparelhos de som. O esforço da atriz é evidente. Torna-se patético, e por que não?, quase ridículo. Marguerite é bom, mas poderia ser melhor. Alguém já disse que Giannoli não sabe quando terminar seu filme, e ele se estende demais. Há uma subtrama sobre outra cantora (de verdade), mas que não vai adiante. Nem poderia – nós, o público, só temos olhos para Catherine Frot em seu esforço para humanizar essa artista que – é a questão do filme – não é, mas talvez seja.

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