Margarethe von Trotta recupera a trajetória de Ingmar Bergman

Margarethe von Trotta recupera a trajetória de Ingmar Bergman

'Procurando por Ingmar Bergman' é, da safra dos filmes dedicados recentemente ao mestre sueco, o mais estimulante; filme é exibido na Mostra de Cinema de São Paulo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

23 Outubro 2018 | 06h00
Atualizado 23 Outubro 2018 | 10h26

Procurando por Ingmar Bergman, de Margarethe von Trotta, é, da safra dos filmes dedicados recentemente ao mestre sueco, o mais estimulante (não que os outros não sejam). Mas, enfim, aqui é uma conversa de cineasta para cineasta e Margarethe, autora de Anos de Chumbo (1981), vencedor do Festival de Cannes, fala de sua descoberta de Bergman, incentivada por seus colegas da nouvelle vague francesa, através do clássico Sétimo Selo. Margarethe conversa também com Liv Ullmann (que foi atriz e mulher de Ingmar), Daniel Bergman, filho do diretor, e com cineastas como Olivier Assayas e Carlos Saura, além do roteirista Jean-Claude Carrière.

De longe, a melhor entrevista é com Assayas (diretor de Carlos e Depois de Maio) que, além de cineasta, foi crítico de cinema da revista Cahiers du Cinéma e é um estudioso do assunto. Suas palavras jogam luz sobre uma obra e um autor já tão analisados como Bergman. Lembra da influência exercida por Bergman sobre a então nascente nouvelle vague a partir de filmes como o hoje clássico Monika e o Desejo. Em certo sentido, com esse filme, Bergman reinventou a mulher (no cinema) e a imagem sensual.

É nessa perspectiva, a de um clássico sempre nosso contemporâneo e com algo de fundamental a dizer, que Margarethe coloca e reverencia o mestre sueco. Além do mais, a obra teatral de Bergman, à frente do Royal Dramatic Theatre, de Estocolmo, é lembrada. Bergman definia-se mais como homem do palco que das telas. Mas essa parte de sua obra – para ele a maior e mais importante – fica apenas para quem viu suas montagens. E as guardou na memória.

A Terceira Esposa

Muito bonito e triste este vietnamita A Terceira Esposa, de Ash Mayfair. Conta a história de uma adolescente de catorze anos, May, que se torna a terceira esposa de um rico proprietário rural. O homem a trata bem, e ela é bem recebida pelas outras mulheres do latifundiário. Mas, aos poucos, a realidade opressiva da sociedade patriarcal vai mostrando sua cara e atormentando a garota, que fica grávida e vai ter seu primeiro filho – torcendo para que seja um homem.

Apesar de ambientado no mundo rural do Vietnã no final do século 19, parece óbvio que A Terceira Esposa fala também (e acima de tudo) da contemporaneidade. O real objeto da cineasta é a condição feminina, da opressão que se arrasta por séculos através da tradição e, mesmo assumindo novas formas, atinge incólume o presente.

A Terceira Esposa sugere que o patriarcalismo e a rigidez da tradição atingem a todos. Mas cabe à mulher o fardo mais pesado.

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