Marcos do cinema italiano saem em DVD

Ora viva a Versátil. Com a aquisição de clássicos do cinema europeu, a distribuidora soma-se à Continental na ocupação de um nicho do mercado de DVD que não interessa muito às divisões de home entertainment das grandes empresas de Hollywood. O mercado de cinema de arte para colecionadores talvez seja modesto para essas distribuidoras, que preferem apostar no lançamento de ontem nas salas. Elas têm faturado bastante com isso. Mas se você é cinéfilo e quer colecionar os filmes-faróis da história do cinema, agradeça à Continental e à Versátil. Esta última oferece agora DVDs recheados de extras de clássicos de Roberto Rossellini e Federico Fellini. É pouco?Há algumas semanas o Caderno 2 destacou o lançamento de Oito e Meio pela Continental. A Versátil, por meio do selo Seleções DVD, já lançou As Noites de Cabíria. O Fellini da vez é Mulheres e Luzes (leia mais), que assinalou a estréia do grande diretor. O pacote da Versátil tem mais: o filme de Rossellini é simplesmente Roma, Cidade Aberta, um dos marcos - com Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica, também lançado pela Continental - do neo-realismo. Você nem imagina o que a distribuidora promete para os próximos meses. Ajuda dizer que a Versátil adquiriu 50 títulos de empresas européias.Em agosto, Paisà virá enriquecer a Coleção Roberto Rossellini e, na seqüência, serão lançados Alemanha Ano Zero, Romance na Itália e Stromboli. A Coleção Federico Fellini ganhará três lançamentos de DVD a partir de setembro, começando com A Estrada da Vida, o sublime La Strada. Em outubro, será Ginger e Fred e, em novembro, A Trapaça. Também em agosto, a Coleção Luchino Visconti começa com o lançamento do DVD duplo do maior filme de todos os tempos (quem disse que é O Encouraçado Potemkin ou Cidadão Kane?), Rocco e Seus Irmãos. A coleção do genial Visconti será complementada com Obsessão e La Terra Trema, que pertencem à fase neo-realista do artista, e Belíssima, que ele fez já sob o impacto das mudanças que transformavam o movimento que irrompeu no cinema italiano, após a 2.ª Guerra.O neo-realismo foi a expressão cinematográfica do país derrotado que lambia as feridas da guerra e olhava para dentro de si mesmo, à espera de um renascimento. Roma, Cidade Aberta foi um dos filmes que anunciaram a tendência, que logo se alastrou pelo mundo e influenciou cinematografias tão diversas quanto a brasileira, por meio dos primeiros filmes de Nelson Pereira dos Santos, e a indiana, com os primeiros filmes de Satiajit Ray.Países periféricos, com dificuldades materiais e sem uma tecnologia cinematográfica de ponta, perceberam, a partir do neo-realismo, que podiam fazer filmes incorporando a dificuldade. Mais importante que a técnica era (é?) a janela que o cinema abre para o mundo.Diante de Roma, Cidade Aberta, no Festival de Cannes de 1946, o crítico francês André Bazin disse, maravilhado, que estava assistindo ao nascimento de um novo realismo. Rossellini inspirou-se na própria realidade. Contou a história de um chefe da resistência italiana. Usou diferentes tipos de filme virgem (restos, quase sempre), filmou - entre 1943 e 1945, durante a ocupação de Roma pelos nazistas e, depois, pelos aliados - muitas cenas de forma clandestina e isso se reflete na iluminação, por exemplo. Esse caráter de urgência é que faz a beleza de Roma, Cidade Aberta, mas outro crítico francês, Jean Tulard, em seu Dicionário de Cinema, não é o único a achar que o filme envelheceu. Sérgio Augusto também acha que, com duas ou três exceções, todo o cinema de Rossellini virou peça de museu. Tulard vai além: diz que Roma, Cidade Aberta ficou quase insuportável.Emoção - Quase insuportável talvez seja mesmo, mas pela intensidade da emoção que emana de cenas, como a da corrida de Anna Magnani atrás do caminhão que leva preso, pelos nazistas, o homem da personagem que interpreta com tanta veracidade. Ela grita e tomba, atingida por uma rajada de metralhadora. É uma morte tão seca, sem nenhuma chantagem sentimental, que você é capaz de não resistir e chorar. Grande Rossellini: Roma, Cidade Aberta tem crédito de roteiro para Sérgio Amidei e ele. Mas Rossellini nunca trabalhou com roteiros convencionais. Quando se diz que ele é um dos fundadores do cinema moderno é justamente por seu trabalho de desdramatização do roteiro em Romance na Itália.Naquele outro clássico, dos anos 1950 e interpretado por Ingrid Bergman e George Sanders, Rossellini praticamente prescindiu do roteiro, filmando cenas improvisadas, num método que faria, mais tarde, a cabeça de Jean-Luc Godard, o mais revolucionário dos grandes diretores revelados nos anos 1960. O próprio Glauber Rocha, ao decretar que cinema se fazia com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, não deixou de seguir uma lição de Rossellini. O mestre, além de minimizar o valor do roteiro, também se referia à câmera como o seu microscópio, que usava para observar as pessoas e o mundo.Glauber, Godard e muitos outros. Paulo César Sarraceni, no Brasil, foi (e ainda é) outro oficiante do culto a Rossellini e, na França, ele influenciou muito, como artista e como homem, François Truffaut, que o colocava no mesmo pedestal de Jean Renoir e Alfred Hitchcock, sendo os três os maiores diretores do mundo, para ele. Com competência, a Versátil enriquece seu lançamento tão importante com um documentário de Carlo Lizzani sobre o cineasta e mais filmografia ilustrada, biografia, seleção de críticas, relação de prêmios e uma valiosa pesquisa que coloca para o espectador a importância histórica (e estética) do neo-realismo. A pérola é o documentário: Roberto Rossellini, Frammenti e Battute, produção de 2001, tem depoimentos de Fellini, Truffaut, Martin Scorsese, Ingrid Bergman, com quem ele foi casado, e Isabella Rossellini, a filha que teve com Ingrid.Roma, Cidade Aberta (Roma Città Aperta). Itália, 1945. Dir. de Roberto Rossellini, com Aldo Fabrizzi e Anna Magnani. DVD da Versátil, R$ 40 nas lojas.Mulheres e Luzes (Luci del Varietà). Itália, 1950. Dir. de Federico Fellini e Alberto Lattuada. DVD da Versátil, nas lojas por R$ 40.

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