Pandora Filmes
A amizade entre o enfermeiro Pedro (Marcos Nanini) e a mulher trans vivida por Daniela (Denise Weinberg), é um dos destaques do filme Pandora Filmes

Marco Nanini conta como encarou o enfermeiro gay de ‘Greta’

No filme de Armando Praça, o ator interpreta Pedro, personagem que tem como fetiche ser chamado de Greta Garbo por seus amantes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2019 | 06h00

Para o espectador que guarda Lineu no imaginário – e que podia, até há pouco, matar a saudade da Grande Família nas tardes da Globo –, pode vir a ser um choque essa nova imagem que Marco Nanini propõe de si mesmo. Estreia na quinta, 10, o longa que Armando Praça adaptou da peça Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá, de Fernando Mello. No filme, Greta Garbo acaba em Fortaleza e o título foi reduzido. Ficou só Greta. Na ficção, Nanini faz um velho enfermeiro gay – Pedro – cujo fetiche, na hora do sexo, é ser chamado de Greta Garbo, como a lendária estrela da Metro nos anos 1930 e 40. Greta quem? O amante da vez, que ele cata no próprio hospital em que trabalha e leva para casa – Jean (Démick Lopes) se envolveu num assassinato e é sua chance de fugir –, não faz ideia de quem seja essa Greta Garbo, mas cumpre sua parte no pacto.

Greta Garbo! Para encurtar assunto e ir diretamente ao ponto, o filme tem beijo gay e essa talvez seja a parte mais light da história. Tem sexo, palavrão, mas calma – não deu a louca em Nanini, nem ele está jogando no ralo a credibilidade que alcançou como artista e cidadão, ao longo de uma extraordinária carreira no teatro, cinema e televisão. Acontece, e é o xis da questão, que Nanini tem plena consciência de ter 71 anos, de ser gay e viver numa união estável com outro homem. Vive discretamente, aliás, mas nem é esse o ponto. Há tempos, Nanini buscava um texto que lhe permitisse assumir a idade e mostrar seu corpo. “A vida como ela é, tudo caído”, ele brinca. A proposta de Praça para fazer o filme chegou na hora certa. Ele leu o roteiro e não vacilou. “Faço!”

A cena mais ‘difícil’ é a final, que evoca o desfecho do clássico Rainha Cristina, que Rouben Mamoulián realizou em 1933 com a atriz que era chamada de ‘divina’ e de ‘esfinge’. Sueca, Greta Garbo sempre quis fazer um filme sobre a mítica rainha Cristina, que renuncia por amor ao trono da Suécia, mas a História lhe prega uma peça. O homem amado morre e Cristina, sem amor e sem trono, a bordo do navio que a leva – para lugar nenhum –, olha o infinito, sem nada ver. A cena é uma longa tomada desse rosto que não significa nada. Ou tudo. Conta a lenda que Mamoulián pedia a Garbo que não pensasse em nada, não tentasse expressar nada. O vazio. Nanini também olha para a câmera. Um plano longo, lento. “Disse para o Armando: Vamos logo com isso. E vamos fazer de uma vez, porque, se não der certo de primeira, não vai ser na centésima vez que vou acertar. Ensaiamos. Merda! Na hora de filmar eu pisquei.” Uma história de gente solitária, sofrida, marginalizada.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

‘Problema do Brasil não é beijo gay, é a desigualdade social’, diz Marco Nanini

Aos 71 anos, ator vive personagem homossexual no filme ‘Greta’, onde aposta tanto na exposição física quanto na emocional, que é característica forte do papel

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2019 | 06h00

Na ficção Greta, que estreia amanhã, a melhor amiga do personagem de Marco Nanini é uma mulher trans, uma performer interpretada por Denise Weinberg. Ao amigo, ela diz: “Aprende logo a viver sozinho, porque estou morrendo”. Nanini sabe o que arrisca fazendo o papel. Não é só a questão de o personagem ser gay. É a exposição tanto física quanto emocional. Aparecer de nu frontal, aos 71 anos – “E gordo, né?”, ele assume –, não é para qualquer um. 

Apesar da exposição da decadência física – “Pronto, ‘tá’ feito. É pegar ou largar” –, ele recebe com prudência as afirmações de que foi “ousado”, “corajoso”. No Cine Ceará, em que Greta terminou como grande vencedor, foi o que mais ouviu. “Mas não sei se é o caso. Se eu pensasse assim, que seria corajoso, acho que travava. Seria sinal de que tinha medo. Os pobres, os velhos, os negros, os gays, as trans estão sendo massacrados todo dia. O problema do Brasil não é o beijo gay, é a desigualdade social”, reflete.

E acrescenta. “Esse avanço do conservadorismo não é coisa nossa, tem ocorrido em todo o mundo. O que é nosso é piorar o que já é ruim.” Fazer esse velho transgressor seria uma bênção para qualquer ator. Nada mais diferente dele que o pai de família careta de A Grande Família, que foi reprisado nas tardes da Globo recentemente. “Será tão diferente assim?”, pergunta-se Nanini. “É a mesma matéria humana. Fiz um com a mesma entrega do outro. Respeito meus personagens para que eles gostem de mim.” Trata-se de dois personagens numa extensa galeria. O caso de Lineu tornou-se especial. “O texto era muito bem escrito e a equipe muito entrosada. Trabalhando tanto tempo junto, a gente criou laços, como uma família de verdade.” 

Nanini também foi um divertidíssimo dom João VI em Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, uma chanchada histórica, de Carla Camurati, que virou o filme emblemático da chamada “retomada” do cinema brasileiro. Foi o avô – genial – de A Suprema Felicidade. “Esse eu não podia errar de jeito nenhum. Arnaldo Jabor amava aquele avô e me disse isso ao me chamar para o papel. Não poderia decepcioná-lo.”

Nanini conversa com o repórter no meio da tarde, em São Paulo. Considerando-se que ele está numa novela no ar, A Dona do Pedaço, não foi complicado conseguir que a Globo o liberasse para promover o lançamento do filme? “Ah, não, eles estão sendo muito bonzinhos comigo. O núcleo que integro não aconteceu na trama. Havia a expectativa de que estourasse, que o público curtisse todos aqueles velhinhos e velhinhas, mas não funcionou. Ficamos fora da trama, então ninguém está muito preocupado com a gente. ‘Deixa ele ir!’ Para não prender a gente no estúdio, eles têm reunido nossas cenas e gravado em bloco. Facilita para todo mundo.” Nanini não encerra a entrevista sem fazer alguns comentários. Agora que se assumiu como “velho”, não é o ator de 71 anos que fala. Parece ter 100 anos, mais até que os 90 que Fernanda Montenegro está comemorando, em alto estilo. O diretor Armando Praça, de 41 anos, “é um moço talentoso, confiei plenamente nele”.

Diz que Praça atualizou a peça com sensibilidade. “O texto foi montado durante a ditadura, é de um tempo em que gay era visto com preconceito e motivo de piada, para as pessoas rirem. Armando resgatou a humanidade do Pedro.” Sobre Denise Weinberg, de 63, com extensa carreira no teatro, cinema e televisão, não deixa por menos. “Essa moça é maravilhosa.” Se Greta Garbo é a inspiração para Pedro, o diretor não deixa por menos. “A Daniela, personagem dela, canta. Queria que a diva da Denise fosse nordestina, como eu. Denise é uma arraso recriando Bate Coração, de Elba Ramalho, numa versão para ela.”

 

Tudo o que sabemos sobre:
Marco NaniniArmando Praçacinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

‘Há um público que quer essas histórias’, diz o diretor Armando Praça

Em entrevista, ele fala das dificuldades de realizar 'Greta', filme que narra a solidão e o preconceito enfrentados por Pedro, um homem velho e gay

Entrevista com

Armando Praça

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2019 | 06h00

Cearense (de Aracati), com extenso currículo como diretor de curtas e assistente, Armando Praça demorou dez anos para concretizar sua estreia no longa. Em fevereiro, ele mostrou Greta no Panorama, em Berlim. Em setembro, venceu o Cine Ceará – melhor filme, direção e ator, para Marco Nanini.

L.C.M.: Por que a peça de Fernando Mello?

Armando Praça: Procurei durante muito tempo o que seria meu primeiro longa. Além de cinema, estudei dramaturgia e conhecia a peça, que é considerada precursora do besteirol e de autores como Mauro Rasi. Mas isso foi há mais de dez anos. Assisti a uma montagem, que foi um sucesso de público, mas abordava a solidão desse universo gay e marginal com preconceito, como motivo de chacota e para rir do ‘viado’. Quando encarei seriamente a adaptação, dei-me conta de que seria necessário todo um trabalho de resgate da essência desses personagens. Sem forçar o humor, o que ressalta é o drama e eu pautei minha adaptação pela chave do melodrama à maneira do alemão Rainer Werner Fassbinder, que é um grande diretor, a quem admiro muito.

Nanini?

Confesso que eu precisava de um plano B, caso ele não aceitasse, mas desde o início ele era a minha opção número um. Para mim, era absolutamente necessário evitar a caricatura e eu tinha certeza de que com Nanini conseguiria. Tive a sorte de conseguir montar esse grande elenco. Além do Nanini, que queria esse personagem e foi de uma entrega, de uma verdade muito grande, a Denise (Weinberg), o Démick (Lopes), a Gretta Starr, que foi maravilhosa.

Se você começou a trabalhar no projeto há dez anos, era outro mundo, outro Brasil. Como foi chegar até aqui?

Foi sofrido. Há dez anos o Brasil era um, quando filmei era outro e agora, na estreia, um muito pior. Apesar do ranço moralista e do conservadorismo, o que sinto é que há um público que quer essas histórias, e nós vamos contá-las.

Tudo o que sabemos sobre:
Marco NaniniArmando Praçacinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Análise: Texto de origem teatral se converte em filme tocante

'Greta', de Armando Praça, consegue fugir do cômico e entregar ponto de vista sensível sobre o universo gay no século 21

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2019 | 06h00

Dirigido por Armando Praça, Greta recicla antiga peça teatral de sucesso, Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá. Escrita por Pedro Melo, teve diversas encenações, entre as quais uma com Raul Cortez e Eduardo Moscovis, de 1993. 

Se o texto é uma história de sucesso, sua reelaboração cinematográfica ganha outra roupagem, adequada aos novos tempos. A peça original, de 1974, falava da solidão gay durante um período repressivo, a ditadura militar. A nova Greta ambienta-se num tempo em que direitos já foram ganhos, porém se encontram em xeque diante do retrocesso moralista em curso. 

Greta é um filme de elenco e de ambientações. Cresce muito pelo registro fotográfico bastante sugestivo da claustrofobia sentida pelos personagens. É quase todo em ambiente fechado, seja no hospital em que o protagonista trabalha, seja no apartamento onde mora. Há poucas aberturas para a rua, vista da varanda, ou às vezes em reflexos e, mesmo assim, de forma distante. Este é um drama que se desenvolve entre paredes. 

Paredes são elementos que separam as pessoas, tanto do mundo quanto delas próprias. A aspiração a estarmos juntos é contraditada por tudo aquilo que nos separa, inclusive a necessidade da privacidade. São paredes, de tijolo e argamassa, ou simbólicas, construídas pela nossa linguagem, nossos preconceitos e pela insegurança, que nos condenam à solidão. O filme fala de tudo isso e, por esse motivo, não cabe em gavetas ou armários. 

Há a encenação e também o elenco. Marco Nanini interpreta Pedro, enfermeiro de hospital público que, para abrir vaga a uma amiga (Denise Weinberg), ajuda na fuga de um jovem criminoso, Jean (Démick Lopes). Jean estava algemado em seu leito, ferido na briga em que um homem foi assassinado. Pedro o leva para casa e a cumplicidade inicial vira afeto e ganha outros desdobramentos. Entre os dois, e às vezes com os dois, há a figura um tanto ambígua de Daniela (Denise Weinberg), artista transexual que sofre graves problemas de saúde. 

O elenco é de ponta, afinado e refinado. Nanini atinge o sublime com sua interpretação corajosa. Não teme a exposição do corpo e não foge às situações de sexo. Seu desempenho é uma exaltação à profissão de ator ou atriz, seres que, em benefício do público, doam corpo e alma ao personagem, sem se poupar. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.