Marco do cinema político da Itália, 'A Batalha de Argel' chega em DVD

Filme virou obra de referência dos militares norte-americanos por trazer a visão dos terroristas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2014 | 11h46

Nada como o tempo para recolocar as coisas em perspectiva. Nos anos 1960, Pier-Paolo Pasolini provocou escândalo em Veneza com seus filmes O Evangelho segundo Mateus e Teorema, e pelo segundo quase foi excomungado pelo Vaticano, por sua abordagem 'profana' da família e do sagrado. Esta semana, o crítico do Jornal do Vaticano anunciou que a versão restaurada do Evangelho foi integrada à biblioteca vaticana, e que Pasolini fez o melhor de todos os filmes sobre Cristo. Em 1966, outro italiano ganhou o Leão de Ouro em Veneza - Gillo Pontecorvo, por A Batalha de Argel. O filme sobre a luta do povo argelino pela libertação foi proibido como subversivo pelos militares no Brasil e como antifrancês na França. Passaram-se os anos e, após o 11 de Setembro, A Batalha de Argel virou obra de referência dos militares norte-americanos, dissecado na CIA e no Pentágono por trazer a visão dos terroristas.

A Batalha de Argel teve lançamento especial - do DVD - no Instituto Moreira Salles, no Rio. Além do filme escrito (com Franco Solinas), dirigido e até musicado (em parceria com Ennio Morricone) por Pontecorvo, o DVD vem acompanhado de um depoimento de Yacef Saadi, que interpreta o próprio papel e foi um dos produtores, justamente pelo lado argelino, e também de um livreto de autoria do crítico José Carlos Avellar. A Batalha é o que se pode definir de filme nas bordas. Imita um documentário - e a admirável fotografia de Marcello Gatti deliberadamente adota (mas de maneira muito elaborada) a urgência do preto e branco das atualidades e dos cinejornais -, mas não tem uma só cena de arquivo. Tudo foi reconstituído para ser filmado por Pontecorvo e Giuliano Montaldo, que fazia a segunda unidade. O próprio Montaldo fez depois Sacco e Vanzetti, sobre os imigrantes italianos condenados à morte nos EUA. O filme, com a canção de Joan Baez, foi um marco do cinema político da Itália, por volta de 1970.

Revisto hoje, A Batalha de Argel impressiona pelo rigor da mise-en-scène. Anos antes, Pontecorvo foi execrado em Cahiers de Cinéma pelo travelling avante sobre Emmanuelle Riva como a judia eletrocutada no campo nazista em Kapò. Se o travelling, diziam Jean-Luc Godard e seus amigos neovaguistas, era uma questão de moral, Pontecorvo foi acusado de imoralidade. Ele deve ter refletido muito para ressurgir com uma obra com a potência da Batalha. Basicamente, o filme reconstitui o combate de 7 de outubro de 1957, que marcou o grande confronto após quatro anos de lutas entre os argelinos e os paraquedistas franceses. E tudo se passa na Casbah, onde Saadi organiza a resistência e vê tombarem os companheiros.

O coronel Mathieu, que comanda os paraquedistas, penetra com seus homens na Casbah e desmonta o aparelho de Saadi, que vai preso. Mas justamente nesse dia, 7 de outubro, três mulheres armadas de bombas explosivas, detonam pontos de encontros de civis em Argel, inclusive no Milk Bar, onde os mortos são numerosos. Saadi vai preso. Cinco depois, a Argélia celebra sua independência e o filme termina com a multidão que festeja a libertação de seu comandante. Disse o diretor - "Quis estimular a adesão sentimental do público não engajado na luta do povo argelino pela liberdade. Mas não quis fazer um filme militante nem antifrancês." Pontecorvo filma os excessos, de um lado como de outro. "É como um rio subterrâneo que sai para a luz ou como um gatilho armado durante 130 anos e que finalmente dispara."

A chave desse grande filme está numa frase de Nicholas Ray, o poeta maldito de Hollywood, que pouco antes, com 55 Dias de Pequim, propusera soluções individuais para o problema do colonialismo. Ray dizia que o cinema 'é a melodia do olhar'. Mathieu, a imagem da repressão - ele foi inspirado num personagem que existiu, Massu -, passa pelo filme portando óculos escuros que secretam sua alma. Não era coincidência - do General Costa e Silva a Videla e Pinochet, todos os ditadores se escondiam por trás de óculos escuros. Ao mesmo tempo, ao reconstituir as prisões, as execuções, Pontecorvo busca, como um testemunho, os olhos do povo. Todo o filme é uma construção do olhar, para que o espectador testemunhe aquilo que o próprio Pontecorvo definiu como 'o nascimento de uma nação'.

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