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Marcelo Gomes vê retrato do Brasil atual em 'Joaquim'

'Filme fala de traição, de ganância e de um amor impossível', diz diretor

EFE

17 de fevereiro de 2017 | 18h10

BERLIM - O cineasta brasileiro Marcelo Gomes, que concorre no Festival de Berlim com Joaquim, filme que conta a história de Tiradentes, afirmou nesta sexta-feira em entrevista à Agência Efe que seu trabalho parece falar do Brasil de hoje.

"Você caminha pelas ruas no Brasil e vê uma diferença social imensa entre a classe mais rica e os pobres, porque nós copiamos o pensamento dos colonizadores", comentou.

Segundo Gomes, os colonizadores chegavam ao Brasil, "tiravam toda a riqueza e iam para Portugal com a prata, o ouro e os diamantes".

"Agora temos uma elite local que fica com tudo, toda a riqueza do país, e a põe nas mãos de poucos. Nada mudou", lamenta. Seu filme é "quase um documentário sobre a vida, o dia a dia do Brasil colonial", "mais uma crônica do que um romance histórico" e "muito mais uma poesia do cotidiano que um relato oficial", ressalta.

Embora o filme tenha foco em um herói nacional, sua história "é universal", como se viu pela reação do público da Festival de Berlim.

O filme fala "de traição, de ganância e de um amor impossível" e também de "como foi cruel a formação do país e como foi cruel o processo de colonização".

Segundo Gomes, "é importante entender este processo para entender o presente". "Parece que fiz este filme para falar do Brasil de hoje, porque tem uma relação profunda com a corrupção da colônia, com o racismo da colônia, com a miséria da colônia", afirmou.

Para o diretor, quem faz um filme como este, "que trata política de uma forma tão forte", também tem que se posicionar politicamente.

"Seria um erro se depois deste filme eu não protestasse, com as coisas que estão acontecendo no Brasil", diz Gomes, que assinou com os diretores e produtores dos outros dez filmes brasileiros no Festival de Berlim um manifesto alertando sobre "a grave crise democrática" num "governo ilegítimo" que faz cortes em educação, saúde e nos direitos trabalhistas.

Segundo Gomes, "todo artista tem que ter uma posição política e lutar por um mundo melhor.

"O governo Lula fez um processo de inclusão social muito grande, mas agora, com este novo governo que está no poder, (liderado por Michel Temer), está mudando tudo de novo", lamentou.

Seu filme aborda um episódio concreto e determinante na vida de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que protagonizou a primeira tentativa tornar o Brasil independente de Portugal.

"Comecei a ler sobre ele e me encantei com o período da história colonial do Brasil, porque para mim ali estava o nascimento da nação", lembrou.

O cineasta disse que não queria fazer um filme biográfico sobre o herói nacional, mas "fazer um recorte" do momento que para ele é o mais "curioso" na biografia de Tiradentes.

"A coisa que não compreendo é: como esse cara, que vivia no Brasil colonial, cruel, terrível, desumano, que matava os índios, que escravizava os africanos, como ele, que trabalhava para a coroa portuguesa como um soldado, decidiu mudar seu paradigma e se tornar um revolucionário", explicou.

Não há documentos históricos que apontem o que aconteceu com Tiradentes. O que se sabe é sobre o processo que a coroa abriu contra ele e outros rebeldes e no qual foi decidido que apenas Tiradentes seria decapitado, enquanto os demais seriam deportados.

Segundo Gomes, Tiradentes era um homem "de muita ação", de um nível social muito baixo, o que fez o cineasta pensar que ele "mudou seu paradigma porque conviveu com gente que estava sofrendo muito com os portugueses", e essas pessoas eram os africanos e os índios, conta.

Mas Tiradentes também sofreu muitas injustiças, tristezas e frustrações em sua vida profissional, porque queria ser tenente, mas o Brasil era um país onde só cinco ou seis famílias podiam ascender socialmente, "não ele, que era um brasileiro de segunda classe e que queria ser português", frisou.

"Adoro filmes históricos, mas quero ter liberdade de falar do meu herói como quiser", disse Gomes.

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