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Marcelo Gomes relembra e desmistifica figura de Tiradentes em 'Joaquim'

Esta será a primeira vez que o cineasta pernambucano disputará o prestigiado prêmio alemão

EFE

13 Janeiro 2017 | 15h43

SÃO PAULO - O diretor Marcelo Gomes não consegue esconder a "alegria imensa" por concorrer na 67ª edição do Festival internacional de Cinema de Berlim com Joaquim, no qual desmistifica a figura de Tiradentes e recupera a "cruel" colonização portuguesa que deixou marcas "terríveis" no país.

"Estar presente nesta competição, com diretores que admiro tanto, já é uma vitória. Era algo inesperado para o nosso filme, de tão poucos recursos. Se vier o Urso de Ouro, que seja bem-vindo", disse em entrevista à Agência Efe.

Esta será a primeira vez que o cineasta pernambucano, de 53 anos, disputará o prestigiado prêmio alemão. Joaquim, seu filme mais recente, é uma "poesia ficcional" que aborda uma passagem determinante na vida do brasileiro Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, que protagonizou a primeiro tentativa de independência de Portugal com a Inconfidência Mineira, pela qual foi enforcado.

"O que mais me impressionou no personagem de Tiradentes é como ocorreu essa mudança de paradigma, de como um soldado da coroa se tornou um rebelde da coroa. O que aconteceu em sua vida privada para que mudasse de paradigma? Não existe um documento oficial que aborde isso", explicou o diretor.

A sua versão de Tiradentes, que tantas vezes foi representado no cinema brasileiro, nada tem a ver com a que Marcelo Gomes estudava na escola nos tempos da ditadura militar, cuja presença nos livros didáticos "às vezes se confundia com a de Jesus Cristo" porque existia "esse desejo de mistificação".

Pelo contrário, é um homem "comum, cheio de contradições, aflições e desejos" cuja consciência política despertou, segundo Gomes, quando observou no século XVIII a "sociedade corrupta" na qual o personagem vivia, inflamada pelo ouro e afligida por "sérios problemas de desigualdade social e de violência terríveis", temas que hoje em dia ocupam capas de jornal.

"Joaquim" também é um filme "política", já que aborda a presença portuguesa no Brasil, "uma colonização cruel, que promoveu o extermínio de populações indígenas, a escravidão e deixou terríveis fissuras em nossa sociedade aplicáveis ainda hoje", comentou o diretor.

Na opinião do cineasta, "se as pessoas quiserem entender a sociedade atual do Brasil, precisam voltar ao passado", principalmente em uma época na qual "nunca se falou tanto de política, mas nunca de uma forma tão superficial".

"Na América Latina existe pouca consciência do que foi o processo de colonização. Acredito que nós temos que debater mais sobre que processo foi esse para não cometer os erros do passado. Na Europa a falta de informação é ainda maior e espero que filmes como este esclareçam momento da história", afirmou.

O novo filme fecha a saga Libertadores, iniciativa das produtoras espanholas Wanda Films e Lusa Films, que reviveu em outros seis longas-metragens a história de personagens ligados aos processos de independência da América Latina como José Martí, Miguel Hidalgo, Simón Bolívar, José Artigas, Bernardo O'Higgins e José de San Martín.

Marcelo Gomes foi criado em uma família humilde e apesar iniciar seus estudos em engenharia, sempre foi "fascinado" pela sétima arte, paixão que cultivou em um cineclube que ele mesmo criou em sua cidade natal, Recife.

As ciências exatas foram trocadas pelo curso de comunicação, e Gomes completou os estudos de cinema na Universidade de Bristol, no Reino Unido. O primeiro longa, Cinema, Aspirinas e Urubus, estreou na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2005.

A relação também é "muito próxima" com o Festival de Cinema de Berlim, do qual já participou como corroteirista de dois filmes (Deserto Feliz e Casa de Alice) em 2007 e como codiretor em 2014 de O Homem das Multidões.

Desta vez, o cineasta competirá pelo Urso de Ouro com esta coprodução entre REC Produtores Associados (Brasil) e Ukbar Filmes (Portugal), na qual também participa como associada a Wanda Films e com a qual espera que "o espectador faça essa conexão entre passado e presente".

Mas a viagem ao passado não termina com Joaquim. Gomes escreve atualmente o roteiro de um filme sobre "os imigrantes árabes que chegaram à Amazônia nos anos 50", longa que espera começar a gravar em 2018.

"Na história do Brasil existem personagens cinematográficos maravilhosos. Nosso cinema carece de filmes históricos e serão muito bem-vindos neste período", concluiu.

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