Maratona marca 30.º Festival de Gramado

Não é um festival de cinema, é ummassacre. A sessão inaugural do 30.º Festival de Gramado -Cinema Brasileiro e Latino começou com ligeiro atraso, às 19h40da segunda-feira. Estendeu-se até quase 2 horas da madrugada. Foramdois longas em competição, um brasileiro e outro chileno, ummédia-metragem e três curtas. Seis horas de sessão ´matam´qualquer um, ainda mais se os filmes não são muito bons. E aindahouve as homenagens. Diariamente e até sexta-feira, aorganização do festival homenageia os vencedores destes 30 anos,como o diretor Carlos Alberto Prates Correia, de Cabaret Mineiroe Noites do Sertão, os atores Lima Duarte e José Lewgoy e aatriz Darlene Glória, vencedora do prêmio de interpretação no1.º Festival, em 1973. Por sua memorável criação como Geni na adaptação queArnaldo Jabor fez da peça de Nélson Rodrigues, Toda Nudez SeráCastigada, Darlene é parte das emoções inesquecíveis dahistória do cinema do País. Ela virou evangélica, afastou-se porum bom tempo do cinema, sobrou alguma coisa daquele furacão demulher que varria a tela ao som da música de Astor Piazzolla. Amúsica, muito justamente. A noite de abertura teve também uma homenagem musical. Oregente e compositor gaúcho Celau Moreira regeu a recém-criadaOrquestra do Cinema Brasileiro, que começou tocando o HinoNacional. Logo, a orquestra tocou músicas que integram a trilhasonora de cinco filmes. Na tela, eram projetadas as imagens e aorquestra produzia seus sons ao vivo, no palco. Nem todos osfilmes eram da mesma qualidade, mas foi lindo (re)ver aspoderosas imagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol, deGlauber Rocha, ao som da Bachianas Brasileiras n.º 5, deHeitor de Villa-Lobos, ou, então, Sonia Braga em Eu Te Amo,de Arnaldo Jabor, e Dona Flor e Seus Dois Maridos, de BrunoBarreto, ao som, respectivamente, de Antonio Carlos Jobim eChico Buarque (O Que Será). O próprio Celau Moreira compôs atrilha de Netto Perde Sua Alma e as imagens do épico deTabajara Ruas e Beto Souza puderam ser testadas mais uma vez, emtoda sua força, na tela. Até o mais fraco de todos esses filmes,O Quatrilho, de Fábio Barreto, ficou bonito na seleção decenas embaladas pela música de Caetano Veloso e JacquesMorelembaum. Nosso imaginário - Todo mundo captou a mensagem: um povo sem cinema é umpovo sem identidade cultural e esse é um risco mais do que sério perigoso de correr nestes tempos de globalização. As imagens esons do Brasil que o cinema mostra estão indelevelmente gravadasno nosso imaginário, fazem parte da nossa cultura, da nossahistória, da nossa identidade. E começou o Festival de Gramadode 2002, o de n.º 30, com suas três competições de longas -brasileiros, latinos e documentários --, mais as de curtas e asvárias mostras paralelas e itinerantes que percorrem a região. Não há muito o que dizer sobre o primeiro filme exibido,o média Ismael e Adalgisa, sobre a ligação do pintor IsmaelNery e da jornalista Adalgisa Nery. O filme de Malu de Martino ébem produzido e só. Seguiram-se dois curtas, Onde AndaráPetrucio Felker?, de Allan Sieber, divertido mas um tantobatido para quem percorre o circuito brasileiro de festivais, eAçaí com Jabá, também divertido, de Marcos Daibes, WalerianoDuarte e Alan Rodrigues. O primeiro longa da competição integrava a mostra decinema latino. Táxi para Três, de Orlando Lubbert, fezgrande sucesso em seu país de origem, o Chile. É pena que odiretor não esteja aqui para os debates que se realizam no diaseguinte à exibição dos filmes. Há críticos que reclamam de umacerta ´sujeira´ de Táxi para Três, do que, para eles, é afalta de capricho visual e até cênico do filme. Talvez seja oque Táxi para Três tem de melhor. A história do taxista forçado a trabalhar com dupla deassaltantes - mas depois a situação se inverte e é ele quem osforça ao crime, até o desfecho sangrento - põe na tela a cara dopaís e ela não é lisonjeira. A repressão política da eraPinochet e o experimentalismo neoliberal andaram fazendo doChile, segundo analistas, um país modelar, com indicadoresseguros de estabilidade econômica. Lubbert mostra o preço pagopor isso. O Chile que ele filma é dilacerado pela chaga daexclusão social, pelo fantasma da repressão herdada da ditadurae pelo desejo de ascensão social de um lúmpen que sonha serclasse média. No segundo bloco, surgiu o melhor programa da noite: odelicado curta de Gustavo Spolidoro, Domingo. Quem acompanhao trabalho do jovem diretor gaúcho sabe que ele adora testarlinguagens inovadoras. No palco do Palácio dos Festivais,Spolidoro definiu Domingo como seu filme mais simples. Épreciso colocar essa simplicidade entre aspas. Domingo não possui o experimentalismo cênico deOutros, mas a história da mulher de 30 anos que escava namemória e no tempo para (re)descobrir a garota que foi aos 10 epara entender a ruptura do universo familiar, fato que a marcouprofundamente, revela um olhar maduro, um verdadeiro olhar decineasta para a complexidade dos sentimentos e dos personagensno mundo. Nacional digital - Um segundo longa da competição - e o primeiro da mostranacional - terminou de madrugada. Com Querido Estranho, oFestival de Gramado entrou na era do digital. O filme queRicardo Pinto e Silva adaptou da peça de Maria Adelaide Amaral,Intensa Magia, também trata de família e, em certa medida,de tempo. Foi feito digitalmente e projetado também digitalmente com tecnologia da TeleImage. Pode-se discutir a opção dodiretor pelo digital, já que não é uma exigência da dramaturgiado filme, mas não a qualidade das imagens. Ela é tão boa quemuita gente se perguntava, ao final, qual era a diferença daprojeção em película e em digital. Discussões técnicas à parte, Querido Estranho ficana categoria do ´teatro filmado´. Suas qualidades são as dotexto de Maria Adelaide - capacidade de observação, diálogosmordazes --, somadas ao elenco e aí entra a contribuição dePinto e Silva, a sua habilidade como diretor de atores. Ahistória do patriarca que faz aniversário no mesmo dia em que seanuncia o noivado da filha tem algo de A Partilha, comaquela lavagem de roupa suja em família. Tem o diretor de APartilha, Daniel Filho, numa participação como ator. O filmepode não ser muito bom, mas tem gente que jura, já na primeiranoite, que Daniel Filho não sai daqui sem o prêmio Kikito demelhor ator. O repórter viajou a convite da organização do festival

Agencia Estado,

13 de agosto de 2002 | 18h42

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