Cena de 'O Poderoso Chefão 3'
Cena de 'O Poderoso Chefão 3'

Maratona em São Paulo celebra trilogia de ‘O Poderoso Chefão’

Os três filmes que compõem a saga adaptada de Mario Puzo poderão ser vistos neste domingo, 26, em sequência no Cinesesc

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2015 | 16h00

Texto corrigido às 6h30 de 26/07.

Na entrevista que deu em São Paulo, durante sua visita à Faap, Francis Ford Coppola se surpreendeu com a interpretação do repórter - Rocco, da obra-prima de Luchino Visconti, é a matriz de seu personagem Michael Corleone, no primeiro filme da saga O Poderoso Chefão, e a linha melódica justamente do tema de Michael evoca a música da cena em que Rocco reencontra Nádia e lhe conta a história dos trabalhadores de Potenza, também composta por Nino Rota. Coppola sentiu-se até lisonjeado - Rocco e Seus Irmãos é um clássico, admitiu-, mas todas aquelas conexões eram novidades para ele. O repórter poderia ter repetido André Bazin, que a propósito de um clássico de William Wyler, disse ao mestre do cinema psicológico que a versão dele - a que construíra em seu imaginário - de Pérfida/The Little Foxes, era melhor, mas seria presunção.

Esse é um domingo muito especial para os cinéfilos. No Cinesesc, vai chegando ao fim a retrospectiva de Coppola, O Cronista da América. E justamente hoje, o evento promove uma maratona Chefão, exibindo os três filmes que compõem a saga adaptada do best seller de Mario Puzo. Depois, a partir de segunda, 27, e até quarta-feira, 29, repõe, individualmente, cada um dos filmes. Na quinta, 30, começa outra retrospectiva, a de Nagisa Oshima, mas essa é outra história. Coppola é agora soberano. No começo dos anos 1970, ele já podia ser considerado um dos autores mais interessantes de sua geração, mas seguia uma trajetória ziguezagueante. Um terror de baixo orçamento (Demência 13), uma crônica da juventude contemporânea de e assemelhada a A Primeira Noite de Um Homem (Agora Você É Um Homem), um musical mainstream (O Caminho do Arco-Íris) e um road-movie indie (Caminhos Mal Traçados). Todos bons, mas tão díspares que levantavam a pergunta. Aonde vai esse Coppola? Seus caminhos levavam ao Chefão.

De volta aos 70. Assim como estava surgindo uma nova geração que iria balançar os standars de Hollywood, e Coppola a integrava, havia também um geração de produtores-autores que estava querendo deixar sua marca, como os magnatas do passado. E começaram a surgir filmes executados como operações de marketing - na mesma empresa, a Paramount. Robert Evans pegou o best seller de Erich Segal e transformou Love Story num megassucesso protagonizado por sua então mulher, Ali MacGraw. Al Ruddy.fez o mesmo com o best seller de Mario Puzo, O Chefão. Escolheu um diretor de ascendência italiana, e jovem - Francis Ford -, permitiu que ele próprio fizesse a adaptação com o escritor, planejou todas as etapas até o lançamento, e o resultado foi outro megassucesso. Num par de anos, Hollywood bateu os próprios recordes, estabeleceu novos standards.

No começo dos anos 1960, Ben-Hur já batera a bilheteria histórica (mas não o número de espectadores) de ...E o Vento Levou e, depois, A Noviça Rebelde, Love Story e O Poderoso Chefão foram superando os recordes. Nos 70, Coppola virou o novo Midas de Hollywood, mas foi por pouco tempo, porque logo surgiu um certo Steven Spielberg, que pulverizou novíssimos recordes com Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e ET - O Extraterrestre (já nos 80). ET, por sinal, é a atração do fim de semana nos Clássicos Cinemark, mas, essa, de novo, é outra história. Convém não se distanciar do tema - Coppola, e o Chefão. O cinema já contara outras histórias de Máfia, mas nenhuma como a de Puzo. Os mafiosos identificavam-se como uma família. Puzo e Coppola criaram a família Corleone para falar sobre a Máfia.

O filme começa com a representação do poder de Don Vito Corleone, com o beija-mão do Chefão. Ele vai terminar com o beija-mão de outro chefão, mas isso é antecipar a dramaturgia. O tema é a luta pelo poder numa democracia étnica - irlandeses (políticos, policiais) contra italianos. Quer dizer, esse é o quadro. O tema é fornecido por Michael/Al Pacino. O jovem puro e idealista do começo do filme - puro e idealista como o Rocco viscontiano - é corrompido pela violência do mundo e vira o chefão. De todas as influências que Visconti exerceu, mesmo subliminarmente, sobre Coppola, a maior talvez tenha sido a montagem paralela do desfecho. Em Rocco, a luta que consagra o personagem de Alain Delon é mostrada em paralelo com o assassinatro da mulher que ele ama, a Nadia de Annie Girardot, por seu irmão Simone/Renato Salvatori. No Chefão, o banho de sangue que sela o poder de Michael é mostrado paralelamente à cerimônia religiosa do batizado de seu sobrinho. Ele se torna duplamente 'padrinho' (godfather).

Michael é o protagonista. Vito, seu pai, aparece, digamos, durante um terço do filme, mas esse terço bastou para que Marlon Brando ganhasse o Oscar de melhor ator de 1972 - O Poderoso Chefão venceu também melhor filme e roteiro, mas não melhor diretor (o troféu foi para Bob Fosse, por Cabaret). Brando é extraordinário, mas os produtores não o queriam. Coppola propôs um teste, que ele próprio dirigiu. Brando arrasou. E o ator, que andava por baixo, renasceu. Contribuiu para isso Último Tango em Paris, que ele fez naquele mesmo ano, com direção de Bernardo Bertolucci. Dois anos mais tarde, surgiu o Chefão 2. A montagem paralela estrutura o filme todo. No presente, Michael tem de promover novas matanças para consolidar seu poder ameaçado. No passado, Robert De Niro, como o jovem Vito, sobe na Máfia até virar o chefão. Existem críticos que consideram o 2 melhor, mas não é. Espaço e tempo confrontam-se com alguma arbitrariedade - mas todo o episódio cubano é uma obra-prima. O 3 é o mais desequilibrado, mas é o melhor. O mais pungente. Michael enfrenta mais inimigos para dar fachada legal a suas atividades criminosas. Puzo e Coppola basearam-se no escândalo do Banco Ambrosiano, envolvendo o Vaticano. O banho de sangue termina em nova montagem paralela, mas, ao invés do batizado, temos agora a montagem da ópera Cavalleria Rustichana. Coppola ia fazer o filme com Winona Ryder, mas precisou substitui-la. Sem opções, lançou sua filha na fogueira. Os críticos foram duros com Sofia Coppola, mas, para um pai, deve ter sido doloroso filmar o desenlace da personagem. E Sofia sobreviveu aos ataques para virar (grande) diretora.

Veja os trailers

O Poderoso Chefão

O Poderoso Chefão 2

O Poderoso Chefão 3


Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.