Maratona de espetáculos do FID é encerrada em BH

Desde 1996, Belo Horizonte é a sede do Festival Internacional de Dança (FID), um evento que propõe o debate, a reflexão e a compreensão da dança contemporânea como fonte de pesquisa e de idéias. Para isso, desde o dia 10, foram ministradas na capital mineira palestras e aulas e criado o Café FID, um espaço reservado ao bate-papo entre artistas e público. Sem contar a maratona de espetáculos que 13 companhias mostraram do dia 2 até hoje, data do encerramento.Como a intenção dos organizadores do FID é a disseminação de idéias e informações sobre a dança, foram convidadas companhias estrangeiras que trouxeram novas referências estéticas e muita polêmica para o Brasil, como Lynda Gaudreu, Giles Jobin, La Ribot e Benoît Lachambre.Entre os grupos nacionais marcaram presença a Cia. Nova Dança 4, Cristian Duarte e a Cia. de Dança de Caxias do Sul, além da turma do Território Minas, seis companhias mineiras que mostraram toda a diversidade presente em BH. As apresentações foram feitas em oito espaços distintos, incluindo aí um casarão e praças públicas, o que propciou um contato maior entre público e bailarinos.Essa edição do FID foi aberta com Metamorfoses em Deambulatório, da Jambazaart, uma das companhias do Território Minas, num casarão do século 19 transformado no Centro de Cultura de Belo Horizonte. Todas as apresentações lotaram os espaços cênicos, o que obrigou os organizadores a distribuir senhas e, mesmo assim, muitas pessoas ficaram de fora.A reação positiva do público é resultado da seqüência de apresentações. "O Território Minas começou em 1998 e tem como característica a continuidade dentro do FID e toda a sua carga informativa deixa resíduos no público e nos trabalhos inseridos no festival", explica Adriana Banana, diretora artística.Além de tornar a dança acessível, o Território Minas nasceu em 1998 com o propósito de estimular a pesquisa e o desenvolvimento da dança contemporânea mineira. "Há uma preocupação com a produção artística, relacionando-a com o lugar", explica Adriana. "De 1998 para cá, pudemos observar um salto de qualidade nos trabalhos apresentados, como o Vis, por exemplo.""O Território tornou-se um caldeirão de idéias, uma vitrine dos espetáculos de dança contemporânea que mostra a diversidade de produção e pesquisas", afirma Joaquim Elias, diretor do Jambazaart. As diferenças caracterizaram o Território Minas que levou aos palcos Zambazaart, Marcenaria, Cia. Será Quê?, Vis, Luciana Gontijo e Margô Assis e Thembi Rosa e o Grivo.O Jambazaart partiu do texto A Metomorfose, de Kafka, para criar o seu espetáculo. "O trabalho foi apresentado em uma casa antiga, sem palco, as pessoas caminhavam pelos ambientes e podiam optar pelo melhor ângulo", explica Elias. A interação das disciplinas ficou registrada no cenário e no figurino, feitos por Aryane Perrottet. "Fizemos esculturas com sucatas e manequins que representavam personagens, as roupas eram chiques e transparentes como uma casca, como se fosse um outro corpo."O Marcenaria também partiu de um texto para compor o jogo cênico. O conto escolhido foi Réquiem por um Fugitivo, de Caio Fernando Abreu. "O Rua das Flores é um trabalho de fronteira entre o teatro e a dança e busca a emoção, sem, contudo, cair no piegas", afirma o diretor Tarcísio Ramos Homem. Segundo o criador, há uma busca por cenas fortes e impactantes, sem exageros e sem frieza.A emoção também está presente em Quilombos Urbanos, mas de maneira peculiar. "O ponto de partida dessa coreografia foi o projeto Muriki, um trabalho desenvolvido com adolescentes carentes da periferia", conta Rui Moreira, o diretor da Cia. Será Quê?. O grupo integra elementos de manifestações populares como o repente, a capoeira, o congado e o hip hop. "Nossa intenção é unir a linguagem acadêmica, formal, com a popular e diminuir o abismo que existe entre platéia e bailarino", diz.Já Luciana Gontijo e Margô Assis não estão preocupadas com a reação do público. A intenção é mostrar o resultado da pesquisa que estão desenvolvendo. Seu trabalho, eXperimento 1, é uma pequena parte do projeto que estuda os sistemas do corpo humano. As pesquisadoras cruzam referências científicas, filosóficas e da história da dança"Queremos mostrar a nossa pesquisa, o diálogo que fazemos com o nosso corpo, a liberdade de buscar outras formas de movimento e não pretendemos convencer", explica Luciana. "A obra está aberta e as pessoas têm livre arbítrio para interpretar", completa Margô. As meninas apresentaram-se com Corpo Emprestado, do Vis.Essa coreografia explora o relação corpo/doença e a questão da identidade. "Há uma valorização da vivência e das diferenças de cada um", explica Márcia Neves. "A sociedade atual enaltece o corpo e a doença é uma maneira de diferenciá-lo", afirma Sebastião Miguel. Outra característica do grupo é a presença de artistas plásticos que participaram da criação em conjunto com os bailarinos. Existe uma troca entre as artes visuais e a dança. Para fechar, Thembi Rosa e o grupo O Grivo levaram ao palco o conceito da ´propriocepção´. Após o conhecimento de um caso clínico de uma mulher que perdeu a consciência e domínio dos movimentos do corpo, a ´propriocepção´ Thembi elaborou uma coreografia que destaca a velocidade e a fragmentação. A música experimental feita a partir de objetos encontrados num ferro velho, por Marcos M. Marcos e Nelson Soares, dão o tom à apresentação.O FID foi realizado pela Atômica Artes, com o patrocínio da Telemig Celular e Elmo Calçados. Teve apoio do Fundo Nacional de Cultura/Ministério da Cultura, Lei Estadual de Incentivo à Cultura e Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.

Agencia Estado,

10 de julho de 2000 | 00h06

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