Maradona rouba a cena em Cannes e alfineta Pelé

'Se eu nunca tivesse me viciado, Pelé não chegaria nem a ser o segundo jogador do mundo', diz argentino

Flávia Guerra, enviada especial ,

08 de maio de 2020 | 18h30

Maradona bem que prometeu "as suas duas filhas (Dalma e Gianina) que não falaria mais sobre Pelé". Mas, como ele bem disse nesta terça-feira, 20, em conversa com a imprensa após a exibição de Maradona por Kusturica (documentário dirigido pelo cineasta sérvio Emir Kusturica que fez sua pré-estréia mundial no Festival de Cinema de Cannes), "a vontade "e mais forte que ele". "Se eu nunca tivesse me viciado em cocaína, Pelé não chegaria nem a ser o segundo jogador do mundo", declarou o argentino. Veja também:Maradona vira estrela de cinema no festival de CannesAcompanhe a cobertura no blog do Merten   Teste seus conhecimentos sobre o Festival de Cannes   "Não digo por soberba. Digo porque simplesmente o Pele dormia à noite. E eu passava todas as noites acordado em uma vida sem me cuidar", acrescentou o ex-jogador quando perguntado sobre o que ele achava da declaração que Pelé fez ha alguns dias, de que "todos os prêmios que já foram dados a Maradona deveria ser tomados de volta", para uma platéia de jornalistas de todo o mundo.  Pergunta clássica, resposta clara. "Lamento por Pelé. Ele já era. Não é um jogador de futebol de coração. Ele sempre fala negociando e não sinceramente. Carinho, principalmente dos fãs, não se negocia. E fora que, pessoalmente, a vida dele é deplorável", completou o jogador, que já foi tema de vários documentários, mas garante que o único que conseguiu contar de fato quem ele é foi Kusturica.  Maradona pode não ter sido o primeiro do mundo nos campos, mas, mesmo aposentado, jamais vai ficar no banco de reservas quando o assunto for dar opinião. "Tudo que não queria neste filme era ficar comentando o que e quem disse o que sobre Maradona, Pelé e afins. Queria que fosse o Diego pelo Diego", rebateu o diretor sérvio diante do interesse da platéia querer saber tanto sobre a vida particular de Don Diego quanto sobre quem ele acha que vai ganhar a próxima Eurocopa, o campeonato Ingles, o campeonato italiano, o espanhol.  "Se eu soubesse tudo isso, ia apostar hoje mesmo. Mas eu acho que a Espanha vai levar a Eurocopa, que o Manchester vai levar o campeonato inglês e que o Barcelona devia tratar melhor o Ronaldinho. Nada mudou. Estão fazendo com o Ronaldinho o que fizeram comigo, com o Rivaldo, com o Ronaldo, com o Figo. E ele, assim como eu, deu tudo ao time. Peco ao Barcelona: Não mandem o Ronaldinho para a Itália. Porque ele vai entrar no Milan e meter um belo gol na rede de vocês ", respondeu o mais polêmico dos craques argentinos.  Para os fanáticos por Don Diego e por futebol, o documentário é diversão, e reflexão, garantida. Para quem não sabe a diferença entre linha de passe (não, não é só o nome do novo filme de Walter Salles que concorre à Palma de Ouro também nesta edição do Festival de Cannes) e um tiro de meta, Maradona por Kusturica é melhor ainda.  Muito porque este pode ser tudo, menos um filme sobre futebol. Assim como seu "objeto de estudo", é um filme político. Kustirica usa, por exemplo, animação para transformar o histórico jogo contra a Inglaterra na Copa do Mexico de 1986 (o jogo do gol feito com a "Mão de Deus") em uma alegoria sobre a vingança da Argentina sobre o rival na Guerra das Malvinas.  Não há como não gargalhar ao ver o cartoon do El Pibe de Oro driblar Margaret Thatcher, o príncipe Charles , Tony Blair, Bush e outros. Apaixonado e apaixonante. "Falo muito de política sim. Quando eu não era ninguém, falava com minha família. Depois que fiquei famoso, não podia mais falar. Por que? É quando eu tenho responsabilidade sobre o que as pessoas pensam que tenho mesmo que dar minha opinião. E, sim, eu acho que se Fidel Castro não existisse, toda a America Latina já estaria nas maos dos Estados Unidos", completou Maradona, que garante que é muito bom, mas não é perfeito. E nem é Deus.  Isso porque (aqui vai uma bola dentro do diretor) o documentário revela os bastidores da seita que cultua Don Diego como "único salvador". Até um casamento no alta da igreja de "Santo" Diego é realizado diante das câmeras atentas de Kusturica. Gol de placa. Afinal, que outro jogador do mundo tem um pai nosso dedicado só para si? Um trecho? Pense em recitar "Diego querido" com o ritmo de Ave Maria. E um pai nosso com pérolas como " Perdoai aos jornalistas assim como nos perdoamos a máfia. Amém!"

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