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Maradona, como todo grande artista, foi incomparável 

Há muitos filmes sobre Diego Armando Maradona: o mais completo e revelador talvez seja 'Diego Maradona', de Asif Kapadia; o mais impactante, o 'Maradona' de Emir Kusturica

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 16h21

Há muitos filmes sobre Diego Armando Maradona e outros tantos devem surgir agora, depois de sua morte prematura. O mais completo e revelador talvez seja Diego Maradona, de Asif Kapadia. O mais impactante, o Maradona de Emir Kusturica, por ser o encontro de duas personalidades febris, bastante semelhantes, a do cineasta sérvio e a do gênio argentino. 



Pode-se dizer que Kusturica e Maradona nasceram um para o outro. Barrocos, radicais, revoltados como dois garotos pobres da periferia, cheios de talento e fome. 

Quando o filme estava sendo feito temia-se algum choque entre os dois egos monumentais. Mas eles se arranjaram muito bem e, da convivência, nasceu um belo filme. Mesmo porque os dois coincidem muito em suas ideias a respeito dos poderosos do mundo (à época, dez anos atrás) como Margaret Thatcher, Ronald Reagan, Georges W. Bush

Ou seja, ícones do capitalismo, que Maradona, com o braço tatuado com a efígie de Che Guevara, detestava. E, com ele, Kusturica, sendo que os dois coincidiam também na simpatia pelos desvalidos do mundo, fossem os pibes pobres das villas argentinas ou os meninos órfãos da guerra nos Balcãs. 

Aliás, em muitas passagens desse documentário sobre Diego, veem-se citações de filmes do próprio Kusturica. Dos pobres da região dos Balcãs, dos ciganos, com sua agitação, sua musicalidade, sua prodigiosa capacidade de beber e gozar a vida. São seres irmãos daqueles que encontramos no bairro pobre de Fiorito, onde cresceu Diego em uma família de oito irmãos.

 


Temos também um retrato apaixonado da  trajetória de Maradona. Da pobreza da infância aos dias de glória no Boca Juniors, no Nápoli e na seleção argentina. Esse percurso é visto como aquilo que de fato foi - um ato de afirmação futebolística e artística (os gols de Maradona fazem parte do melhor repertório do futebol de arte já visto) e também de rebeldia e de revanche, expressos pelo futebol.

Tomemos um caso em particular - o célebre jogo entre Argentina e Inglaterra da Copa de 1986. No filme, os dois gols de Maradona contra os ingleses são relembrados à exaustão. Um, o gol da "mano de Diós". O outro, aquele que é considerado como o mais bonito das Copas, quando "el Diez", saindo da sua defesa, dribla meio time adversário até marcar, na saída do goleiro. Era a revanche - simbólica - do massacre dos jovens argentinos na guerra das ilhas Malvinas. Um gol ilegal mas de pura malícia, e outro, dentro da lei e estupendo. Apenas um gênio poderia construir essa dupla obra e numa mesma partida.

Tudo isso está também no filme de Kapadia, britânico e autor de um documentário devastador sobre Amy Winehouse e outro sobre Ayrton Senna. As glórias de Diego surgem e são comentadas num trabalho que contava com mais de 500 horas de material inédito antes de ser editado.

 


Mas o filme busca seu eixo na apocalíptica passagem de Diego pelo Nápoli nos anos 1980. Espetacular em dois sentidos, pois, como jogador, estava no auge e ganhou para a equipe o campeonato italiano de 1987. Tornou-se um deus na cidade e tinha o mundo a seus pés. Mas a Camorra, a máfia napolitana, também se interessou por ele. De tal forma que o longo capítulo italiano da biografia de Maradona não pode ser escrito apenas por atuações épicas e gols espectaculares. Inclui também movimentadíssima vida noturna, o vício em drogas pesadas e o envolvimento com gente pouco recomendável. Tudo isso está lá. Não de maneira a culpabilizar o craque ou desconstruir o ídolo, mas para revelar sua faceta mais frágil e portanto mais humana. 

Não se sabe qual dos retratos prevalecerá agora que Diego deixa a vida e entra para a história. Muito se falará sobre ele, mais do que nunca se tentará compará-lo a outros jogadores. Claro, podem-se colocar números ao lado de números, discutir questões técnicas, número de títulos, rever gols, etc. Mas o segredo de Diego Maradona, desconfio, está em outra parte, não mensurável, na maneira como incorporou sua vocação trágica à lapidação de um estilo de jogo único. Como todo grande artista, foi incomparável. 

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