Manoel de Oliveira vem abrir Mostra de São Paulo

Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira, abre oficialmente a 24.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa no dia 18 para convidados. Oliveira, sobrevivente do cinema mudo, que completa 92 anos no dia 11 de dezembro e honra o título de o mais velho cineasta do mundo em atividade, chega a São Paulo na terça-feira. No dia seguinte, faz a primeira exibição do filme no Brasil, abrindo a mostra. Na quinta, participa de um debate após outra apresentação do longa. E, no dia 20, voa para Boston, onde será homenageado na Universidade de Harvard.Exibido no Festival de Veneza, Palavra e Utopia recebeu o seguinte comentário de um crítico italiano: o filme de Manoel de Oliveira seria uma espécie de chamado à ordem. Traduzindo: em meio àquilo que se via no festival - um experimentalismo tantas vezes vazio, uma ousadia que parecia apenas apelação -, esta cinebiografia livre do Padre Antônio Vieira seria um sóbrio retorno aos fundamentos do cinema. Quais fundamentos? Aqueles que valorizam a beleza de um plano bem construído, que privelegiam a sonoridade da palavra e a força da interpretação dos atores.Acontece com o cinema de Manoel de Oliveira uma coisa rara. Esse retorno à origem, não apenas sóbrio, como se disse, mas também solene, parece clássico, sem que seja acadêmico. Quer dizer, seria uma espécie de tradicionalismo isento de ranço. De que outra maneira entender uma vida religiosa - e política - contada por meio de cartas e sermões de alta qualidade literária?Bem, há a constatação óbvia: trata-se da confiança do artista no poder da palavra, algo como o ancestral "no princípio era o verbo", etc. O velho Manoel de Oliveira é um artista ainda gutemberguiano, e isso o torna figura à parte num tempo em que a sobrecarga de imagens parece tornar a palavra supérflua. Trata-se de um engano, claro, a não ser que se pense na distopia que seria um universo ágrafo. Oliveira, com a disposição de um cruzado, parece relembrar, com seus filmes, e com este em particular, que a experiência humana precisa ser estruturada pela linguagem para fazer sentido.Por isso, seu apelo a um grande texto. Trata-se de uma utopia, um programa para o futuro, o que, em parte, explica o título. Em parte, porque se há uma utopia da palavra, é verdade também que ela encontra expressão no tratamento apurado da imagem. Oliveira é mestre na construção dos planos e também na imposição de um ritmo. Um ritmo próprio, lento, majestoso como o de um grande rio em seu curso. Assim fluem seus filmes. Há quem goste deles, há quem não os tolere.O fato é que Oliveira é um típico artista na contracorrente. Valoriza a palavra quando ela é mais desprezada. Impõe a diminuição da velocidade quando a agilidade torna-se virtude número um do mundo moderno. Faz um cinema profundo quando a preferência é pela superficialidade. Recua ao passado quando apenas o presente parece existir. É, de fato, um chamado à ordem.E que não acontece por acaso. Palavra e Utopia não é uma exceção nessa obra cuja ênfase está em seus momento reflexivos. Certa vez, Oliveira comentava sobre a famosa nostalgia portuguesa, aquela que parecia condenar seu país a viver no passado. Pelo contrário, argumentava ele, a nostalgia, a saudade, pode ser uma mola propulsora em direção ao futuro. Ela evoca um tempo melhor, e essa evocação funciona como estímulo e modelo para um futuro a ser construído.É compreensível, e desejável, que esse futuro utópico, saído da cabeça de um diretor veterano e consagrado, tenha a solidez intelectual de um sermão jesuítico. Por isso o rigor dos planos. Por isso a intensidade sóbria das interpretações dos atores. Vieira é vivido por três atores em fases diferentes da sua vida: Ricardo Trepa, na juventude, Luís Miguel Cintra e Lima Duarte na maturidade. A belíssima Leonor Silveira faz a rainha Cristina da Suécia, envolvida naquela coqueterie verbal típica do tempo de Vieira. Duelos verbais, nas quais ele se afirma melhor diante de um adversário em termos de retórica. Quer dizer a palavra é sentido e salvação, mas também poder.Palavra e Utopia é um produto híbrido, como foi a vida de Vieira, rigorosamente dividida entre o Brasil e a Europa. Mas não só. Vieira também se dividiu entre a obediência eclesiástica e seu dever moral. Seria tolice atribuir-lhe atitudes hoje consideradas politicamente corretas, mas o fato é que tinha mentalidade avançada para a época, o que lhe custou problemas com a Inquisição. Achava que os índios deveriam ser evangelizados e não escravizados, conforme a lógica econômica daquele tempo. O fato de ser interpretado, na idade adulta, por um português e por um brasileiro remete a essa vocação anfíbia do jesuíta. Supõe, também, uma ponte simbólica, e por vezes tão difícil de ser construída, entre Brasil e Portugal.

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