Manoel de Oliveira faz releitura de <i>A Bela da Tarde</i>

Admiradora de Manoel de Oliveira,Catherine Deneuve tem participado de muitos filmes do grandediretor português, mas não volta ao papel de Sevérine em "BelleToujours", atração desta quinta-feira da 30.ª Mostra de Cinema SãoPaulo, na qual Oliveira faz uma espécie de releitura daobra-prima de Luis Buñuel, A Bela da Tarde. Sevérine é agorainterpretada por Bulle Ogier e o filme é centrado no velhoMichel Piccoli, obcecado por reencontrar a bela que, nos anos 60 freqüentava o bordel de Madame Anaïs para dar vazão a suaspulsões masoquistas - por amor ao marido, como Piccoli explicaao barman interpretado por Ricardo Trêpa. Catherine não quis oufoi Oliveira que achou de bom tom não pedir que ela voltasse àpersonagem que esculpiu seu mito? A interrogação fica semresposta, mas é curioso assinalar que Belle Toujours concorreuno recente Festival de Veneza, cujo júri era presidido porCatherine e ela não atribuiu nenhum prêmio, nem de consolação, aOliveira. Em parte, foi bom. Qualquer prêmio que não fosse o Leãode Ouro, dado a Jia Zhang Qe, por Still Life, seria injusto.Belle Toujours - Bela Sempre é uma jóia que dura exatos 70minutos. Passa num piscar de olhos - pelo menos para cinéfilosfamiliarizados com o método do grande Manoel, que está beirandoos 100 anos (nasceu em 1908) sem perder o entusiasmo juvenil.Podem até existir diretores maiores no cinema atual, mas rarosousam como ele. A Bela da Tarde, de Buñuel, com roteiro deJean-Claude Carrière adaptado do livro de Joseph Kessel, marcouépoca pela abordagem do sexo (a mulher casada que se prostitui àtarde) e também pela complexidade de sua narrativa que une, embloco, passado, presente e imaginação. Buñuel tinha 67 anos quando fez A Bela da Tarde} (e ofilme recebeu o Leão de Ouro em Veneza, em 1967). Oliveira, naépoca, tinha ?apenas? 59 anos e uma carreira inteira pela frente Cineasta que adora a palavra - mas não constrói suamise-en-scène no dinamismo dos diálogos, como fazia, por exemplo Joseph L. Mankiewicz -, ele trata, aqui, de temas comoperversão e religiosidade. O cinema industrial, até comochamariz de público, gosta de tratar de vícios públicos evirtudes privadas (estas, a bem da verdade, andam cada vez maisraras). Oliveira inverte a equação. É um autor que não seinteressa pelo que acontece com seus personagens na intimidadedo sexo. Existem poucos espaços em Belle Toujours - o teatro, ohotel, o bar, um canto de rua e esse ambiente fechado no qual serealiza, enfim, o encontro de Piccoli com a Bela da Tarde. Elemostra aquela caixa misteriosa cuja tampa o oriental abria paraDeneuve no filme de Buñuel e até hoje não sabemos o que haviadentro. Bulle anuncia que mudou, que é outra mulher. Quer irpara o convento, tema recorrente de Oliveira (Piccoli diz que oconvento dele é a bebida). As conversas no bar, entre homens, ouo diálogo do casal, durante o jantar, retomam discussões sobre adúvida e sobre vício e virtude que já estavam na cena da mesa deO Espelho Mágico, o Oliveira anterior. O que mais impressionaé a construção do tempo e do espaço. Os planos são fixos,paisagens de cartão-postal permanecem horas na tela, mas hánisso uma vivacidade incomum. É um segredo que só Oliveirapossui. Belle Toujours - Sempre Bela (2006, 70 min.) - UnibancoArteplex 1. Rua Frei Caneca, 569, (11) 3472-2365. Hoje, 16h50

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