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'Manifesto', do alemão Rosefeldt, reflete sobre a interação entre arte e política

Filme conta com uma atuação intensa de Cate Blanchett

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2017 | 22h12

Treze vezes Cate Blanchett em Manifesto, e pode haver aí uma pegadinha. O espectador fica tão absorvido no longa de Julien Rosefeldt, prestando atenção nas falas e/ou tentando identificar os autores - nomeados, com a atriz, no começo -, que , a menos que esteja anotando as personagens, arrisca-se a perder o número de quantas vezes ela aparece. No final, são 12 quadros, e num deles Cate aparece com o boneco dela mesma. Será esse o treze? Ou é o quadro da apresentadora que discute arte conceitual com a repórter de TV?

Pegadinhas à arte, Manifesto, como você pode ler abaixo, é um elaborado exercício intelectual de Julian Rosefeldt. Nasceu como instalação/performance, antes de ganhar versão para o cinema, ancorada na persona estelar de Cate. Para o público que a acompanha - só para lembrar, Cate permanece nas telas como a irmã punk de Thor -, existe certo parentesco desse projeto com Não Estou Lá, o longa de Todd Haynes que ‘desconstrói’ Bob Dylan, e ela é um de seus intérpretes. De cara, o filme esclarece que manifesto é qualquer declaração pública de um indivíduo, um partido, um país. Os dicionários esclarecem que a tal declaração pública pode ser de uma corrente literária, quem sabe de um partido religioso, etc.

Na concepção de Rosefeldt, os manifestos são muitos, do Manifesto Comunista de Marx e Engels - cuja gênese é contada no belo O Jovem Karl Marx, de Raoul Peck, apresentado na Mostra -, ao manifesto do dadaísmo, de Tristan Tzara, ou o de Claes Oldenburg para a pop art, etc. Seria consideravelmente mais simples se, para cada quadro ou bloco, Rosefeldt utilizasse somente um texto, mas muitas vezes são frases de diferentes autores. Cada uma ganha sua circunstância, não necessariamente uma contextualização. Funcionam como estopins - a imagem fundadora do filme. De resto, pode ser meio óbvio que o manifesto Dada, que propõe a morte da arte, seja encenado como um funeral, mas o da pop-art, que defende uma arte política/erótica, mística, vira prece de agradecimento numa cena de refeição - como se fosse o Thanksgiven.

+ Análise: 'Manifesto' revela-se um elaboradíssimo exercício intelectual

A pergunta que não quer calar é - qual o objetivo de Rosefeldt com seu manifesto? Ao passear pela história da arte e da política, o artista e cineasta alemão não deixa de abordar graves temas que permeiam o fazer artístico, principalmente nesses tempos de obscurantismo. Um acréscimo brasileiro à encenação poderia ser o manifesto modernista - tupi or not tupi - encenado em alguma exposição de nudes, considerando-se o escândalo que eles ainda provocam. Para permanecer no antropofágico modernismo brasileiro, vale lembrar que Mário de Andrade definia sua arte como um biscoito fino ao qual as massas um dia teriam acesso. Rosefeldt não deixa de ser herdeiro de Mário, mesmo que eventualmente não o conheça. Sua arte também é um biscoito fino. Não tem nada a ver com ‘trama’, ‘história’, e muito menos com pipoca e refrigerante, como virou a tônica dos blockbusters para grandes massas. É intrigante, para quem aceitar o desafio de refletir com ele.

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