Manchester à Beira-Mar vai na contramão de uma cultura que cultua o final feliz

Filme estreia nesta quinta-feira, 19

Mariane Morisawa , Especial para o Estado

19 Janeiro 2017 | 05h00

TORONTO - Manchester à Beira-Mar, que estreia no Brasil nesta quinta (19), é uma volta por cima e tanto de seu diretor, Kenneth Lonergan, que se envolveu numa batalha de seis anos para lançar seu longa anterior, Margaret (2011), por divergências com os produtores e o estúdio. Em entrevista ao Estado durante o Festival de Toronto, ele minimizou o caso. “Fiquei muito tempo sem dirigir filmes porque dá muito trabalho. Nesse período, escrevi três peças. No meu entender, estava muito ocupado. Mas, aparentemente, para o resto do mundo sou um preguiçoso”, disse o nova-iorquino, que também é corroteirista de Máfia no Divã (1999), A Máfia Volta ao Divã (2002) e Gangues de Nova York (2002e diretor de Conte Comigo (2000). 

O projeto caiu em seu colo por acaso. Os atores Matt Damon e John Krasinski pediram que Lonergan escrevesse o roteiro a partir de uma ideia dos dois, sobre um homem que deixou sua cidade e, depois de anos, é resgatado por seu irmão, que lhe pede para cuidar de seu filho. Era para Damon dirigir. Mas ele acabou desistindo e pediu para Lonergan assumir a função. Para garantir que a visão do cineasta fosse preservada desta vez, Damon, um dos produtores, exigiu o corte final. 

Casey Affleck – que ganhou o Globo de Ouro 2017 de melhor ator de drama pelo papel e é forte candidato na corrida pelo Oscar –é Lee Chandler, que trabalha como faz-tudo de um condomínio em Boston, mora num quartinho deprimente, não tem amigos, quase não fala, mas se mete em brigas de vez em quando. Um dia, recebe o aviso de que seu irmão Joe (Kyle Chandler) morreu. Volta à sua cidade natal, Manchester by the Sea, no Estado de Massachusetts. Seu irmão deixou especificado no testamento que deseja que seu filho, o adolescente Patrick (Lucas Hedges), que foi abandonado pela mãe, seja criado pelo tio. 

Ao mesmo tempo em que retoma o contato com o sobrinho, Lee resiste a ficar. A razão é explicada aos poucos, em flashbacks longos, que cortam a narrativa sem aviso. “Eles vêm em blocos e têm uma progressão, meu montador disse que era como uma história paralela em vez de flashbacks”, explicou Lonergan. “É algo que passa pela cabeça de Lee o tempo inteiro, ele está meio vivendo no passado e no presente ao mesmo tempo, e a estrutura reflete isso. Não foi de propósito, mas foi um acidente feliz.”

Na contramão de uma cultura que cultua o final feliz 

O naturalismo é a grande arma do diretor Kenneth Lonergan, de Manchester à Beira-Mar. “Gosto de escrever diálogos realistas, que vêm da interação dos personagens. O elenco ensaiou como se estivesse numa peça e passou um tempo na região, o que foi bom principalmente para Kyle Chandler, nascido na Georgia e morador do Texas, e Michelle Williams, que interpreta a ex-mulher de Lee, criada em Montana e que vive hoje em Nova York. 

A atriz brinca que, se fosse homem, teria sido presa por perseguir as mulheres da região. “Eu ficava na porta de escolas, observando as mães. Ficava pegando detalhes: Qual era a aparência delas? Usavam ouro ou prata? Botas de cano alto? Como eram seus cabelos? Quantos filhos tinham? Como falavam? Qual era seu sotaque? Fui a cafés. Comprei roupas em lojas locais. Conheci um garçom e pedi para gravar sua voz.” 

Para Casey Affleck, nascido e criado em Massachusetts, a dificuldade foi se manter no estado mental de Lee. “Precisava cuidar para não ficar tentando agradar ao público. Às vezes, isso acontece com os atores, quando o melhor é contar a história que se quer contar, com personagens que se comportam como as pessoas se comportam, sem se preocupar que sejam transparentes. Porque as pessoas normalmente não são assim, elas não querem mostrar como se sentem.” Pela quantidade de prêmios que Affleck levou nesta temporada, deu certo. 

 

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