´Man to Man´ abre festival em Berlim com coletiva movimentada

Joseph Fiennes saiu do sério na coletiva após a exibição de "Man to Man", filme do francês Régis Wargnier que abriu oficialmente o 55.º Festival de Berlim. Primeiramente, ele abriu os braços em sinal de desânimo quando um jornalista pediu à sua co-estrela Kristin Scott Thomas que o comparasse com Ralph Fiennes, com quem a atriz fizera "O Paciente Inglês". Kristin foi elegante: "São pessoas diferentes, talentos diferentes, mas são ambos muito sensíveis e criativos".Não demorou muito e outro jornalista quis saber de Joseph Fiennes porque se sentiu atraído pelo projeto - a pergunta colocada para Fiennes foi se ele achava eficiente tratar do tema do filme. O ator fez um pequeno discurso dizendo que o tema de "Man to Man" é o abuso da ciência, do racismo e da indiferença pelo outro, muito atual nesta era de fundamentalismos políticos e religiosos. Mas cometeu um erro: devolveu a pergunta ao jornalista. Quis saber dele se achava o filme de Wargnier eficiente. O jornalista disse que sua opinião era irrelevante. Fiennes retrucou que não; ponderou que seria interessante uma troca de informações, já que o jornalista ia divulgar o filme para o mundo todo. O repórter insistiu na negativa. Fiennes bateu pé: "Assim não existe diálogo e a comunicação fica difícil"."Man to Man" se passa na Inglaterra vitoriana, quando um cientista (Joseph), associado a outros dois, traz da África um casal de pigmeus para mostrar à Real Academia de Ciência. O trio imagina haver encontrado o elo perdido entre o homem e o macaco. No processo, à medida que Joseph percebe humanidade e individualidade nos africanos ele pretende invalidar a pesquisa. Um dos parceiros (Iain Glen) é contra. Começa uma guerra entre ambos, marcada por gestos que apontam para uma verdadeira moral dos chamados ´civilizados´. Todos se referem aos pigmeus como selvagens. O verdadeiro selvagem é o personagem de Glen.O desabafo de Joseph Fiennes teve seu eco no casal de atores que faz os pigmeus, eles próprios descendentes das pequenas criaturas da floresta. Os jornalistas queriam saber se enfrentaram muito racismo na vida. Ele respondeu de maneira singela: "Não, até agora".Foi um começo estimulante para a Berlinale de 2005. Talvez sinalize para alguma coisa importante. Um grande festival de cinema deve ser um ponto de encontro e difusão de idéias. Ninguém é dono da verdade, foi o que Fiennes sugeriu. A entrevista terminou sendo melhor do que o filme. No fim da sessão, "Man to Man" recebeu aplausos (fracos) e vaias (também fracas). É um filme visualmente muito bonito e permeado de ironias, mas não é realmente bom. Seu tema, de qualquer maneira, é forte, e Wargnier consegue passá-lo. O filme trata do embate entre barbárie e civilização, mostrando a mesma relatividade de pontos de vista. Pode não ser grande cinema (e não é), mas levanta questões relevantes que a imprensa de Berlim não parece ter sabido (nem quisto) entender.O festival continua nesta sexta-feira com "Hotel Rwanda", pelo qual Don Cheaddle concorre ao Oscar de melhor ator. E, como nem só de cinema vive uma grande cidade como Berlim, no caminho entre o hotel e o Berlinale Palast pode-se ver, na Walter Gropius Baus - que foi uma das sedes da Bienal, no ano passado - uma mostra fotográfica dedicada a Robert Capa que vale, por si só, a vinda à Alemanha. Capa era gênio. Seu trabalho como fotógrafo permanece vivo e forte. O repórter viajou a convite da organização do festival.

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