Malle volta com "Trinta Anos Esta Noite"

Embora não tenha feito nenhuma adaptação de Albert Camus, Louis Malle era fascinado pelo escritor francês que ganhou o Prêmio Nobel de 1957. Mas ao Camus de O Estrangeiro e A Queda, preferia o de O Mito de Sísifo, que escreveu que o único problema filosófico realmente sério é o suicídio. É o tema embutido em Trinta Anos Esta Noite. O filme, de 1963, reestréia nessa sexta-feira em cópia nova. Para muitos críticos, é o melhor Malle. Para o próprio diretor que morreu em 1995, um de seus filmes preferidos. Não representa pouca coisa, quando se avalia que Malle estreou co-dirigindo, com Jacques-Yves Costeau, O Mundo do Silêncio, que ganhou a Palma de Ouro, e fez depois Ascensor para o Cadafalso e Os Amantes.Com Trinta Anos Esta Noite, ele consolidou a aura de cineasta do escândalo, que havia começado na cena do sexo oral de Os Amantes. O escândalo foi de outra ordem no filme que agora reestréia. Malle reabilitou o autor do livro em que se baseou, o direitista Drieu la Rochelle, que voltou como herói da 1.ª Guerra, flertou com o comunismo e, na 2.ª Guerra, deu uma guinada violenta e tornou-se devoto de Hitler, o que o levou a ser execrado por toda a intelectualidade francesa de esquerda. Malle prosseguiu depois na senda do escândalo, fazendo, entre outros, um filme sobre o incesto (Sopro no Coração), outro sobre o colaboracionismo na França, durante a 2.ª Guerra (Lacombe Lucien), e outro, ainda, sobre a prostituição infantil (Pretty Baby - Menina Bonita). Mas é reducionismo, e isso sim, escandaloso querer rotular o cineasta dessa maneira.Trinta Anos Esta Noite conta a história de um suicida Alain Leroy, é interpretado por Maurice Ronet, com quem Malle havia feito Ascensor para o Cadafalso. Ronet fez muita porcaria ao longo de sua carreira, mas participou de filmes importantes. O Alain desse filme é o personagem de sua vida. Mas Malle também se projeta nele. Não por acaso, numa cena em que Alain abre o guarda-roupa o diretor fez questão de que todas as peças e objetos ali dentro fossem dele. Até o revólver usado por Alain era dele.Malle vinha de uma experiência desgastante - Vida Privada, com Brigitte Bardot e Marcello Mastroianni. Ele quis fazer o filme sobre o mito BB, mas teve uma relação difícil com a estrela. As críticas foram ruins. Começou a escrever um roteiro sobre suicídio, mas não estava satisfeito. Falou com um amigo, que acabara de ler o livro de Drieu la Rochelle. O próprio Malle havia lido, anos antes, Fogo Fátuo (Le Feu Follet, título do livro). A narrativa de Drieu começou a superpor-se à dele.Drieu la Rochelle havia escrito o livro sob o impacto do suicídio de um amigo, o poeta surrealista Jacques Rigaut. Isso foi no começo dos anos 30. Mais tarde, o próprio escritor terminou por matar-se, em 1945. Foi o primeiro filme que Malle escreveu sozinho e, por isso mesmo, ele considerava esse projeto mais íntimo e pessoal que os anteriores. Embora tenha recebido uma rígida educação católica, o suicídio não lhe interessava em termos de culpa ou pecado. O problema de Alain é existencial. Quando o personagem sai da clínica na qual foi internado por causa do alcoolismo, começa a visitar os amigos e retoma o hábito de beber.Sem esperança - Entre eles está Jeanne Moreau, a musa de Malle (e da nouvelle vague). Os amigos lhe dizem que ele tem de parar, tem de amadurecer. Mas Alain não quer isso. Não é nem o caso de pensar que ele não pode parar o processo destrutivo. Não está interessado. E assim o suicídio é a única solução para a sua recusa da sociedade estabelecida. Na visão de Malle, Alain sabe que, por meio desse gesto radical, estará mandando um recado aos amigos, forçando-os a encarar o vazio do mundo em que vivem. Uma temática parecida, senão exatamente igual, será retomada mais tarde pelo cineasta em O Ladrão Aventureiro, com Jean-Paul Belmondo, de 1967.É um filme sombrio, pessimista, mas Malle gostava de dizer que, para ele, teve um efeito profundamente liberador. Deixou-o livre para tentar novas coisas. Ele também considerava o comportamento de Alain muito próximo de um certo tipo de personagem que sempre gostou de tratar. Embora tenha 30 anos, Alain recusa-se a deixar a adolescência e a se tornar adulto. Pode-se dizer, um tanto simplificadamente, mas é verdadeiro, que ele se mata porque não quer virar adulto.Trinta Anos começou a ser rodado em cores, mas Malle e o diretor de fotografia Ghislain Cloquet logo se deram conta que o colorido era avesso ao que queriam expressar na tela. Poderiam transformar a cor em preto-e-branco, mas preferiram jogar tudo fora e começar de novo. O próprio Malle dizia que seria maravilhoso se pudesse ter feito isso em todos os filmes, pois é sempre bom refilmar o que se roda nos primeiros dias, quando o cineasta ainda está iniciando o corpo-a-corpo com o filme que pretende fazer. Trinta Anos Esta Noite (Le Feu Follet). Drama. Direção de Louis Malle. Fr-It/63. Duração: 16 anos

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