"Malena" é a ode de Tornatore à beleza

Giuseppe Tornatore fez questão de dar a entrevista em italiano. O cenário era Berlim, durante o 51.º Festival Internacional de Cinema, e o filme era Malena, que estréia nesta sexta-feira na cidade. Na sala ao lado, Monica Bellucci também dava entrevistas. É a própria Maddalena, a Malena do relato. A reportagem teve acesso aos dois. Malena era uma das apostas da empresa americana Miramax no festival alemão. O filme não fez o sucesso esperado na Berlinale, mas está na corrida do Oscar. Mereceria o de melhor trilha, um trabalho prodigioso do compositor Ennio Morricone.Filmes são produtos audiovisuais, para se ver e ouvir. Ver a deslumbrante Monica ao som de Morriconi pode ser uma experiência e tanto, mas Malena tem mais a oferecer. Na Itália, os críticos caíram matando, mas Tornatore diz que também foi assim com Cinema Paradiso, que fez o sucesso que todo mundo sabe e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Alguns críticos brasileiros também não gostaram. Disseram que, em matéria de garotos descobrindo como praticar sozinhos a sua sexualidade, Federico Fellini fez melhor numa das grandes cenas de Amarcord. Claro que o filme de Fellini é uma obra-prima e Malena não é, mas isso é injusto com Tornatore. É desqualificar os méritos que Malena tem.De Cinema Paradiso a Malena, passando por Estamos Todos Bem e, no fundo, qualquer outro filme que tenha feito o diretor, a memória é sempre um tema recorrente no cinema de Tornatore. O garoto de Cinema Paradiso vira o adulto que recorda a importância de um homem, projecionista numa cidadezinha siciliana, em sua vida. O velho de Estamos Todos bem parte numa viagem sentimental em busca dos filhos e revê o próprio passado. O garoto de Malena vira o adulto que conta a história, marcado por aquela figura de mulher. Mesmo assim, Tornatore diz que não entendeu seu filme como uma história de memória. Ela está lá, mas não é o mais importante para o diretor.Não é um argumento original dele. Tornatore baseou-se numa idéia original (um romance) de Luciano Vincenzoni. "Se você gosta de cinema, sabe quem é", diz. Vincenzoni escreveu mais de cem filmes na Itália, entre eles alguns dos principais realizados pelo grande Sergio Leone. Mas foi o próprio Tornatore quem escreveu o roteiro. E o que é mais importante para ele em seu filme? "É uma história simples, sobre um duplo crescimento - um menino que vira homem e a mulher que recupera sua dignidade." É a idéia que só fica clara no desfecho e que o espectador de Malena poderá confirmar. "Queria contar uma história exaltando a dignidade, queria mostrar que alguém que perdeu a dignidade e a honra só pode reencontrá-las no próprio local em que as perdeu." E assim ele compôs esse final realmente belo e emocionante. Malena conta uma história que se passa na Sicília, durante a 2.ª Grande Guerra. É contada do ângulo de um garoto que, quando o filme começa, associa um fato da guerra - a declaração de guerra de Mussolini à França e à Inglaterra - ao que pode ser uma trivilidade de infância, a primeira bicicleta, e a outro fato - a descoberta de Malena.O garoto está com os amigos numa amurada, junto ao mar, quando surge aquela deusa que lhe provoca um efeito instantâneo no baixo ventre. Malena é a mulher mais desejada da cidade. Desperta o desejo de todos os machos e a cólera de todas as mulheres do paese ao passar, daqui para lá e de lá para cá. O vaivém é constante na tela. Vêem-se suas pernas, um pedaço do vestido. O marido vai para a guerra, Malena passa dificuldades, termina prostituindo-se. Pior - vai para a cama com oficiais nazistas. No dia em que a guerra termina, as mulheres vingam-se.Tornatore foi criticado pelo que muita gente, as mulheres principalmente, consideram sua particular misoginia. O filme celebra uma personagem, Malena, e uma atriz, Monica, mas o tratamento dispensado a todas as outras mulheres em cena foi considerado preconceituoso. São todas megeras. O diretor defende-se. "Vi muitos filmes de época, muitos cinejornais e o que mais me chocou neles foi a brutalidade das mulheres em relação às outras mulheres, que haviam dormido com o inimigo." O que mostra é pálido, perto do que viu documentado. Ele acrescenta que entendeu Malena como uma ode à beleza, à capacidade que ela possui de provocar o que as pessoas têm de melhor e pior. "Malena é simultaneamente idolatrada e desrespeitada, representa a degradação e a esperança."Há muito tempo ele sonhava com esse filme. Na verdade, era o filme que queria fazer após Cinema Paradiso. Mas só o concluiu agora - por quê? "Porque só agora encontrei a atriz perfeita para o papel. Quando vi Monica Bellucci tive certeza de que a minha busca chegara ao fim e havia encontrado a minha Malena." Monica saltou das passarelas para as telas dos cinemas. Fez filmes inexpressivos até que, no ano passado, interpretou o principal papel feminino de Under Suspicion, o thriller de Stephen Herek com Gene Hackman exibido no Festival de Cannes. "Monica foi muito discriminada por ter sido modelo. Todo mundo achava que não poderia ser uma atriz.Como atriz não é nenhuma Sarah Bernhard, mas Tornatore enche a tela com sua carnalidade. É uma deusa. Como a própria Monica vê uma personagem como Malena? "Sou uma mulher moderna e independente, por isso confesso que tenho dificuldade para entender a maneira como Malena é tratada." Mas ela aprendeu a conhecer essa mulher, a respeitá-la. No fim, estava empenhada em traduzir, na tela, a forma como Malena precisa resistir às pressões do mundo para se tornar aceita na própria comunidade. A linda mulher une sensibilidade à beleza. Malena não existiria sem ela.Malena (Malna). Drama. Direção de Giuseppe Tornatore. It-EUA/2000. Duração: 94 minutos. Cinearte 2, horário normal. Jardim Sul UCI 7, às 17h45, 19h45 e 21h45. SP Market Cinemark 5, às 11h50, 14h10, 16h25, 19h15 e 21h40 (hoje e amanhã também meia-noite). 14 anos.

Agencia Estado,

15 de março de 2001 | 17h46

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