Makhmalbaf voltará a filmar no Afeganistão

O cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf não consegue esconder sua indignação - não apenas com o clima mundial de medo gerado pelos ataques terroristas a Nova York e Washington, no mês passado, mas principalmente com a infame desconfiança despertada entre os povos, especialmente contra os habitantes do Afeganistão. "Uma população de famintos e desesperados morre aos milhares a cada dia, sem ter nenhuma culpa do que está acontecendo", afirmou o diretor, em entrevista por telefone, de Paris. "Desde os acontecimentos do dia 11 de setembro, o mundo deixou de receber notícias verdadeiras sobre o que acontece lá." Makhmalbaf tem uma estreita relação com os afegãos. Foi lá que ele rodou O Ciclista, em 1988, e O Caminho Para Kandahar, neste ano, filme que será um dos destaques da 25ª Mostra BR de Cinema, que começa oficialmente na quarta-feira (17), com um show do também diretor Emir Kusturica. Makhmalbaf não vem ao Brasil, como pretendia, prestigiar a exibição de sua obra: ele embarca terça-feira para o Irã, de onde pretende retornar para o Afeganistão. Apesar do rígido controle da fronteira, o cineasta e sua família (os filhos Samira, Maysam e Hana também são cineastas) vão contar com um auxílio do governo iraniano para cruzar a fronteira e passar uma semana em território afegão, buscando desvendar com suas lentes tudo o que está acontecendo. Makhmalbaf não sabe o que vai encontrar. "A última vez em que estive no Afeganistão, justamente para filmar O Caminho Para Kandahar, fui surpreendido por um país surreal", conta. "A destruição era tamanha que se tornou comum encontrar nas ruas pessoas substituindo a perna perdida em alguma explosão por uma pá." O filme, de fato, é uma verdadeira reportagem sobre o Afeganistão pré-atentado aos Estados Unidos. O Caminho Para Kandahar conta a história de Nafas, uma jovem jornalista afegã que se refugiou no Canadá. Lá, ela é surpreendida por uma carta desesperada da irmã, que ficou no país e que comunica pretender dar cabo da vida antes de um eclipse solar que está próximo. Nafas, que abandonou o Afeganistão durante a guerra civil do Talebã, decide voltar até a cidade de Kandahar, onde está sua irmã e a quem pretende ajudar a cruzar a fronteira do Irã. A lente de Makhmalbaf acompanha todas as tentativas de Nafas em salvar a parente em um local onde as mulheres não têm o direito nem de mostrar seus traços. "O que mostramos no filme é uma realidade: o Afeganistão é um país onde dez milhões de seus habitantes, as mulheres, não exibem o rosto. Trata-se de um povo sem face. Quando elas são vistas caminhando no deserto, nada é mais surreal do que essa imagem", comentou o cineasta, que rodou boa parte do filme na fronteira do Afeganistão com seu país. Mas, como vai acontecer novamente agora, ele conseguiu entrar secretamente e testemunhar, em primeira mão, a realidade da população. "Fiquei muito abalado com a situação, pois, nos últimos 20 anos, 6,5 milhões de pessoas foram feitas refugiadas e ao menos três milhões partiram do Afeganistão, deixando um rastro cruel: crianças órfãs, que só encontraram salvação ao aderirem ao exército", conta o cineasta, que traduz seu inconformismo em um longo discurso. Makhmalbaf conta também a radical diferença social que encontrou no país, entre suas duas passagens por lá. Na primeira vez, para rodar O Ciclista, já encontrou a pobreza que ainda marca a maioria das cidades. Agora, quando filmou O Caminho Para Kandahar, notou que o país isolou-se ainda mais, principalmente por conta da longa guerra contra a extinta União Soviética e o conflito civil com o Talebã. No período entre uma filmagem e outra, Makhmalbaf conta que nada se viu do Afeganistão. "Primeiro os soviéticos, depois os soldados talebãs, todos impediram que se registrasse qualquer coisa lá", conta. "O Afeganistão é um país sem imagem. Não há televisão, cinema, jornal ou mesmo revistas, a música é proibida e o simples ato de tirar uma fotografia é considerado um ato impuro." Com isso, a imagem criada sobre o Afeganistão, especialmente pela imprensa ocidental, foi sendo deturpada ao longo do tempo e, segundo ele, atingiu níveis gravíssimos depois dos atentados do dia 11 de setembro. "O presidente dos Estados Unidos, George Bush, contribuiu para o acirramento do desprezo aos afegãos ao firmar uma política na qual quem não está com os americanos é considerado inimigo", comenta. "Não se trata de uma população formada apenas por terroristas, mas de uma multidão que também sofre com o terrorismo." Estudo - Antes de rodar O Caminho para Kandahar, Makhmalbaf mergulhou em um profundo estudo sobre o Afeganistão, lendo mais de 10 mil páginas de documentos para coletar dados para o filme. Conseqüentemente, julga-se seguro para criticar a imagem enviesada que é pintada do país. Assim, antes de retornar para o Afeganistão, ele escreveu um longo artigo em que detalha a paupérrima condição humana dos afegãos. O artigo já tem um título provocador: "O Buda não foi demolido no Afeganistão: ele caiu de vergonha". A referência é a destruição da estátua milenar pela milícia talebã, que não permite a presença de nenhum símbolo anti-Islã no país. "Uma parte da culpa da demolição tem de ser creditada à ignorância mundial sobre as condições subumanas em que vive a população." Makhmalbaf acrescenta, ao texto, dados impressionantes. Segundo ele, o isolamento fez com que o Afeganistão não fosse submetido a experiências científicas ou sociais de nenhuma espécie: tudo o que se sabe sobre o país são a partir de dados aproximados. "Em 1992, o Afeganistão tinha uma população de 20 milhões de pessoas. Durante os 20 anos de ocupação soviética, cerca de 2,5 milhões morreram ou foram assassinados. A falta de alimentação decente e cuidados médicos e sanitários fazem com que 125 mil pessoas a cada ano, ou cerca de 340 por dia, ou ainda 14 por hora morram por causa da fome ou da guerra no país." A situação é mais grave, acredita, quando se observa as reações dos países vizinhos. Makhmalbaf não poupa nem o seu próprio: segundo ele, os iranianos têm a mesma imagem do Afeganistão que a criada pelos americanos e europeus. Os afegãos são vistos como competidores na ocupação de empregos e, por causa disso, pressionam o ministério do Trabalho a empurrar os incômodos estrangeiros para o outro lado da fronteira. "Fico irritado com o fato de a televisão iraniana não mostrar o que acontece por lá. Sei que a situação não é muito melhor no meu país, mas é inadmissível tomar uma posição de inimigo." Mohsen Makhmalbaf espera alertar o mundo sobre a verdadeira situação dos afegãos com as imagens que espera captar nas próximas semanas. "Não quero prêmios em festivais: apenas um olhar mais humano sobre aquele país."

Agencia Estado,

14 de outubro de 2001 | 16h57

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