Makhmalbaf mostra o verdadeiro Afeganistão

A cidade afegã de Kandahar entrou no noticiário internacional após os atentados do dia 11 de setembro nos Estados Unidos. Localizada próxima à fronteira com o Paquistão, ela se transformou no símbolo do terror e do atraso por ser terra natal do Mulah Omar e principal reduto da milícia do Taleban. Mas antes de cair nas mãos de fanáticos religiosos em 1996, Kandahar já se identificava com o inferno.A prolongada guerra afegã contra os soviéticos, as minas espalhadas por seu território e a miséria transformaram-na num conjunto de ruínas. Em 98, o cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf encontrou-se com Niloufar Pazira, uma afegã que se radicalizara no Canadá onde se tornou jornalista. Pazira pedia sua ajuda para entrar em Kandahar e encontrar-se com uma amiga, que queria se matar. Makmalbaf não pôde fazer muita coisa, mas ficou com a história na cabeça e resolveu filmá-la.A Caminho de Kandahar estreou no Festival de Cannes deste ano sem chamar muita atenção. Mas depois dos ataques terroristas de setembro tornou-se um filme obrigatório. Até o presidente Bush pediu a assessores para vê-lo. Makhmalbaf misturou ficção e documentário. Chamou Pazira para representar o próprio papel, mas mudou seu nome para Nafas e substituiu a amiga por uma irmã.Na vida real, Pazira não pôde entrar no Afeganistão. No filme, ela entra clandestinamente pela fronteira com o Irã. O diretor também não foi autorizado a filmar em território afegão. As cenas foram rodadas em solo iraniano, em campos de refugiados afegãos.Atrás da burka - Nafaz atravessa a fronteira passando-se pela quarta esposa de um refugiado obrigado a regressar ao Afeganistão. No meio do caminho, eles são assaltados por milicianos. Nafaz encontra-se então com um americano que foi para o Afeganistão em busca de Deus. O personagem é real. Ele aleva até um menino que havia sido expulso da escola corânica. Um dos méritos da direção é ter conseguido amarrar a história de Nafaz aos dramas que assolam o país, construindo desse modo um retrato cruel e verdadeiro do país. Na teocracia afegã, por exemplo, as mulheres não podem mostrar o rosto. Em uma das cenas, quando são atendidas por um médico, não lhes é permitido sequer dirigir a palavra a ele. A consulta é feita através de um intermediário, um membro da família, do sexo masculino. Nafaz e o público observam o Afeganistão através da burka, o traje feminino que encobre completamente o corpo da mulher. Mas a sensibilidade feminina se manifesta por meio da jornalista, que vai registrando suas impressões num gravadorportátil.Próximo a Kandahar, Nafaz se vê obrigada a juntar-se a um grupo de mulheres que acompanha uma noiva para sua festa de casamento. Não se fica sabendo se ela chega ou não ao seu destino, nem se sua irmã se matou como havia prometido. Não importa e nem essa era a intenção de Makhmalbaf. O que ele se propõe é mostrar um país destroçado por mutilados, famintos, oportunistas e fanáticos. Um país onde, como diz um dos personagens, a modernidade só se manifesta nas armas que o destróem.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.