Mais Truffaut, com "Domicílio Conjugal"

Com Domicílio Conjugal, que entra nesta sexta-feira em cartaz, o público de São Paulo acompanha mais uma fase da existência de Antoine Doinel, o alter ego de François Truffaut, sempre com Jean Pierre Léaud no papel. Doinel para quem não se lembra, surgiu no primeiro longa-metragem de Truffaut, o autobiográfico Os Incompreendidos (em cartaz no CineSesc). Depois vieram o curta-metragem Antoine e Collette (da série O Amor aos 20 Anos), Beijos Proibidos e Domicílio Conjugal. O último é Amor em Fuga, uma espécie de síntese dos anteriores.Em Domicílio Conjugal, Doinel parece ter se estabilizado emocionalmente. Casou-se com Christine (Claude Jade) e o par tem um filho. Profissionalmente, Doinel se vira vendendo flores e Chistine ajuda nas despesas dando aulas de violino. Como Doinel se parece com Truffaut, não consegue sossegar por muito tempo. Logo estará tendo um caso com a nipônica Kyoko (Hiroko Berghauer). Bem, tudo isso é um novelão, um sitcom, mas com que graça tudo é contado!Truffaut é um cineasta do amor, da vida cotidiana. Sabe que o relacionamento humano pode ser feito de grandes lances de paixão, mas também dos pequenos gestos do dia-a-dia, implicâncias recíprocas, gracinhas, os insides jokes de todo casal que se preze. Saber desvelar isso ao público, sem parecer que se trata de invasão de intimidade, é uma arte que não se pode qualificar de menor. Aliás, essa é outra característica do cinema intimista de Truffaut. Ele, de fato, coloca o espectador na posição de íntimo dos personagens. Conhecemos Doinel, simpatizamos com suas inquietações e nos mostramos dispostos a perdoar suas fraquezas e tolerantes com suas pequenas calhordices. É um personagem benigno, romântico, mesmo naquilo que tem de esquivo, dissimulado e pouquíssimo direto.Truffaut, o cineasta, não o personagem, dizia que a vida era muito curta e muito dura para ser desperdiçada em brigas inúteis. Usava como tática de sobrevivência concordar com tudo o que lhe diziam - e fazer exatamente aquilo que lhe vinha à cabeça. A receita pode ser discutível como maneira de convivência num mundo hostil, mas de qualquer forma é esse mesmo o modus operandi de Doinel. Sempre que há um conflito, ele se desvia, contorna e procura a via menos sofrida para solucioná-lo. Ou para deixar tudo como está.Assim é quando arruma a tal da namorada japonesa. Um encanto exótico, que, no entanto, logo se revela cansativo. Doinel não se entende com Kyoto (que mal fala o francês) e morre de tédio ao lado da mulher. Não há muitas cenas de antologia neste filme, mas uma delas certamente é a de Doinel, no restaurante em companhia de Kyoto, e telefonando o tempo todo para Christine. A outra não pode ser revelada para não estragar a surpresa do espectador, mas diz respeito à maneira encontrada por Christine para mostrar ao marido que sabia que ele tinha arrumado uma amante oriental.O filme é uma delícia, mas não tem o mesmo encanto e a inspiração de Beijos Proibidos (Baisers Volés), este sim imantado pela canção e pelo espírito ligeiro, no bom sentido do termo, de Charles Trenet. No entanto, a série Doinel, como um todo, está na origem das comédias românticas de bom gosto, aquele tipo de história que coloca o casal contemporâneo em cena. De certa forma, Truffaut está na origem da reflexão moderna sobre o casal. É muito fácil falar da falência do par heterossexual, da desordem amorosa, etc. Acontece, simplesmente, que não se conseguiu colocar nada de tão eficiente - e tão problemático - no lugar. Depois das experiências radicais dos anos 60 e 70, voltou-se ao casal, com todos os seus impasses e limitações. Enfim, a geração que iniciou a vida sexual depois da aids teria alguma coisa a dizer a respeito, mas esta valorização do casal, amorosa mas sem nenhuma idealização, está lá, na origem de boa parte dos filmes de Truffaut. Mesmo daqueles que nada têm de leve em seu entrecho, como o trágico (e belíssimo) A Mulher do Lado.O fato é que a série Doinel perde impulso à medida em que os episódios vão se sucedendo. Os Incompreendidos é um protótipo de primeira obra, aquela na qual o artista dá vazão plena ao seu espírito criador, como se temesse ser este seu primeiro e último passo forma de expressão escolhida. O recurso à autobiografia também é comum, porque a certa altura da vida todo mundo sente necessidade de exorcizar seus fantasmas. Assim, em seu primeiro e genial longa-metragem, Truffaut fala de sua infância problemática, vivendo com uma mãe instável e sem conhecer o pai verdadeiro. Tudo é pungente, e Doinel parece uma forma canônica da infância complicada. O plano final, com os olhos do pequeno Léaud (também ele problemático, na vida real) fixados no espectador é de cortar o coração.Tendo já jogado seus demônios na tela com Os Incompreendidos, Truffaut compreendeu que o personagem que criara era bom demais para ser descartado. Assim, Doinel acabou ressurgindo, e voltava a cada vez que a produtora de Truffaut, Les Films du Carrosse, entrava em crise financeira. E isto porque o público se acostumou a acompanhar as peripécias do personagem, tão parecido com a figura pública do diretor, e comparecia em massa às salas de cinema. Como nenhuma história, real ou imaginária, é eterna, Doinel também começou a se repetir. Seus tiques e truques tornaram-se familiares, às vezes previsíveis e, por isso, menos atraentes.Enfim, se há restrições a serem feitas a Domicílio Conjugal, impossível mesmo é negar sua vivacidade e frescor. Dessa leveza tanto imitada, Truffaut tinha a forma e o segredo. Ninguém faz igual, embora haja muita gente que tente.Domicílio Conjugal (Domicile Conjugal). Drama. Direção de François Truffaut. Fr/70. Duração: 100 minutos. Livre

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