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Mais três chances de ver 'Nico, 1988' na Mostra de São Paulo

Filme da diretora italiana Susanna Nicchiarelli venceu a Seção Horizontes do Festival de Veneza de 2017

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2017 | 12h41

Uma garotinha alemã vê, ao longe, uma imensa fogueira, uma nuvem de fumaça, mas, mais importante, ouve um som. Berlim queimando em 1945 é a primeira imagem de Nico, 1988, filme que conta os dois últimos anos de vida de Christa Päffgen, a modelo e cantora mais conhecida pelo álbum The Velvet Underground & Nico, de 1967, que acabou virando enorme referência do indie rock mundial.

Mas o filme da diretora italiana Susanna Nicchiarelli se dedica justamente ao outro lado de Nico: sua carreira depois disso teve 20 anos de investidas criativas num campo em que ela reinou, gerando e influenciando o gothic rock avant garde que sempre esteve na cabeça de gente tão distinta quanto Patti Smith, Siouxsie and the Banshees, Morrisey e Elliot Smith. 

São ainda três chances de ver o filme na 41.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: no sábado, 28, às 17h30, no Espaço Itaú Frei Caneca; na segunda-feira, 30, às 20h10 no Cinearte; na terça-feira, 31, às 18h20, no Cinesesc.

O filme levou o prêmio da Seção Horizontes do Festival de Veneza em agosto, e segundo a diretora, além da música, foi essa parte mais obscura da vida de Nico que a atraiu para o projeto.

“Ela se importava tão pouco com o fato de ser menos conhecida, menos famosa do que antes”, disse Nicchiarelli à Variety. “Ela não tinha nostalgia, nem saudade sentimental da primeira parte de sua carreira musical em oposição à segunda. Talvez essa seja a principal razão para que eu tenha me apaixonado pelo que Nico se tornou nos anos 1980: essa mulher de 40 anos que eu vi nas entrevistas, tão irônica e tão forte, sem se importar nem um pouco com a superstar que ela tinha sido, sobre a beleza lendária que ela tinha parado de carregar. Como seu filho me disse uma vez, ela parecia indestrutível. Tão longe do clichê da estrela em decadência, ou da quarentona frágil sentindo falta de sua juventude. Eu amei que ela era tão diferente do clichê.”

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Nico, 1988 namora com alguns clichês de biopics de rock como problemas com drogas e uma van em turnê, mas o tratamento dado a esses momentos é o que separa esse filme da turba. A diretora entrevistou, entre várias outras pessoas que trabalharam com Nico na época, o filho que a cantora teve com Alain Delon (note-se, duas das pessoas mais bonitas que já passaram pela Terra). O personagem do filho, Christian Aaron Boulogne, também ocupa um papel central no filme (o pai o abandonou na vida real). As interpretações musicais apaixonadas da atriz Trine Dyrholm, ela mesma cantora e compositora, completam o tripé que sustenta a produção. 

“A música de Nico foi adaptada por uma banda de rock progressivo italiano bem conhecida chamada Gatto Ciliegia contro il Grande Freddo”, explica a diretora. “Escolhi readaptar a música com eles porque pensei, claro, que seria horrível usar as canções originais com Trine dublando as letras.” Todos os clássicos de Nico estão lá: These Days, All Tomorrow's Parties, My Heart is Empty. O resultado acerta no alvo.

Depois daquela cena inicial com o flashback para o fim da Segunda Guerra, o filme começa em Manchester, cidade onde Nico escolheu viver em 1986, numa cabine de rádio. Um entrevistador pouco preparado lhe pergunta se ela quer falar sobre os anos no Velvet Underground. O “Não” definitivo que sai da boca de Dyrholm é o que dá o tom do filme.

O produtor que a acompanha, que acaba virando seu empresário, Richard (interpretado por John Gordon Sinclair absolutamente distante de qualquer clichê de agente do rock), então a leva em turnê pela Europa, inclusive passando para o lado de lá da Cortina de Ferro. A turnê é o espaço de uma Nico ainda lutando para resolver dois conflitos: o vício em heroína e, mais importante, a relação conturbada com o filho, jovem artista, que passou um tempo internado numa clínica psiquiátrica.

Nico é sempre associada ao Velvet Underground, a Andy Warhol, e à lista impressionante de homens que se apaixonaram quase que de maneira mística por ela no fim dos anos 1960 (Brian Jones, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Lou Reed, Leonard Cohen, só para ficar entre os mais conhecidos). O filme, mesmo com momentos ficcionais, tira o véu da fantasia para mostrar que ali havia, muito mais, um ser humano fascinante.

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