Mais três candidatos ao Oscar chegam às telas

Alguns indicados para o Oscar já estão em cartaz nos cinemas de todo o País: o belo As Horas, de Stephen Daldry, o não tão bom Gangues de Nova York, de Martin Scorsese, e o deslumbrante Senhor dos Anéis - As Duas Torres, de Peter Jackson, mas esse é azarão total. Outros chegam hoje às telas de diversas cidades brasileiras. São três filmes que somam juntos mais de 20 indicações. Chicago, de Rob Marshall, concorre em 13 categorias, incluindo as de melhor filme e diretor, estatueta à qual o cineasta estreante torna-se automaticamente favorito, após receber o prêmio do Director´s Guild. O Pianista, de Roman Polanski, foi indicado para sete prêmios, incluindo, também, os de melhor filme e diretor. E O Homem sem Passado, do finlandês Aki Kaurismaki, concorre a melhor filme estrangeiro.Você já pode ver, portanto, os cinco filmes que concorrem na categoria principal e avaliar suas chances de premiação na festa do dia 23. O único candidato a melhor filme que não emplacou seu diretor entre os finalistas foi Senhor dos Anéis: o neozelandês Jackson foi substituído por Pedro Almodóvar, do ótimo Fale com Ela, que também está em exibição na cidade. Se prevalecer a tendência da academia de ratificar a escolha do Director´s Guild, Rob Marshall ganha por Chicago. Se, pelo contrário, prevalecer a tendência a homenagear Martin Scorsese por sua carreira, ele leva por Gangues, mas aí será um daqueles casos históricos de injustiça do Oscar: é o pior filme do diretor, um dos piores, em todo caso.O Homem sem Passado é o melhor dos três filmes que estréiam hoje. O Pianista também é melhor do que Chicago, mas você não precisa ser fã de carteirinha de musicais para apreciar as qualidades do filme que o ex-coreógrafo Rob Marshall adaptou do show da Broadway dirigido, originalmente, por Bob Fosse.Marshall é dos que põem Fosse no céu e consideram Cabaret o mais perfeito de todos os musicais. O maior elogio que se pode fazer a seu filme é que Fosse não teria feito melhor. Logo na abertura de Chicago, que se passa na era dos gângsteres, Renée Zellweger mata o amante que a levou para a cama com a promessa de impulsionar sua carreira no show biz. Catherine Zeta-Jones, que Renée idolatra como a grande artista que gostaria de ser, também vai presa, acusada de matar a irmã e o marido, a quem flagra em pleno adultério.Entra em cena Richard Gere como o advogado cujo caráter se mede pelos dólares que as pessoas que querem que ele as defenda estão dispostas a pagar. John C. Reilly é o marido manso de Renée. Gere aceita o caso e transforma Renée na queridinha da mídia. O filme antecipa o culto atual das celebridades instantâneas. É muito bem montado e tem números sensacionais: o de Reilly e o de Gere que transforma Renée em marionete são os melhores. E, ah, sim, antes que alguém cometa a besteira de dizer que Marshall legitimiza a falta de caráter do advogado, é bom sugerir que você preste bastante atenção no que rola na tela. O diretor é crítico, não cínico como seu personagem.Roman Polanski já disse ao Estado, em sucessivas oportunidades - no Festival de Cannes do ano passado, no qual O Pianista ganhou a Palma de Ouro, no Festival do Rio BR 2002 -, que sente que a realização desse filme é a concretização de toda a sua carreira de diretor. É a melhor coisa que fez, acha. Talvez não seja: o noir Chinatown, dos anos 1970, permanece como sua obra-prima irretocável, mas isso não tira a classe de O Pianista. Polanski sempre quis fazer um filme sobre a sua experiência no gueto de Cracóvia, sob o nazismo. Mas não encontrava a história certa. Tinha medo de ser demasiado autobiográfico. O livro sobre o pianista Witold Szpilman forneceu-lhe a inspiração que queria, com a diferença de que sua história ocorre no gueto de Varsóvia.É um filme que mostra o processo a que foi submetido o povo judeu com rara minúcia. As primeiras restrições, as primeiras agressões, tudo é mostrado sem complacência. O levante no gueto ajuda a destruir o mito dos judeus passivos diante da sua destruição, mas Szpilman não age. É uma testemunha do horror. Polanski projeta-se nele para exorcizar o fantasma do nazismo. Ele já ganhou o César e o Bafta, os Oscars da França e da Inglaterra. Merece o prêmio mais do que Scorsese, se ele tiver de ser por carreira.O Homem sem Passado é magnífico. A história do homem que perde a memória após ser agredido e que trilha um caminho sinuoso até a reconstrução combina humor e humanismo. Kaurismaki muitas vezes podia ser acusado de fazer um cinema meio tosco. Ele toca aqui o sublime. O Homem sem Passado já é um dos grandes filmes do ano.

Agencia Estado,

07 de março de 2003 | 10h30

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