Mais que trajetória pessoal, ‘Getúlio’ expõe DNA da política

Tudo é sutil sem deixar de ser intenso no longa de João Jardim

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

30 de abril de 2014 | 23h31

Getúlio, de João Jardim, é um filme concentrado. Em mais de um sentido. Resume uma vida, das mais controversas da política brasileira, a seus 19 dias finais. E o faz com um sentido de seriedade, precisão e economia de recursos que transforma cada fala e cada gesto dos personagens em algo de muito significativo. Exige do espectador concentração semelhante.

Afinal, foram anos e anos de pesquisas, livros, locações e elenco para chegar a esse resultado ótimo num gênero (o drama político) em que o cinema brasileiro parece particularmente deficiente. Aqui, em geral, tende-se à hagiografia ou a demonização. Jardim prefere tons intermediários. Tudo é sombra e matizes de luz nas etapas da trajetória final de Vargas, acossado e cada vez mais prisioneiro de um palácio, o Catete, sede do governo. As cenas foram filmadas no atual Museu da República, no Rio, que preserva os móveis, o último pijama marcado de sangue do presidente, e o revólver do ato final.

As sombras vêm de toda parte. Das más notícias acumuladas que dão conta do envolvimento da guarda pessoal do presidente no atentado ao opositor Carlos Lacerda, e que terminou no ferimento deste e na morte do major Vaz, da Aeronáutica. O escândalo é pretexto para uma campanha civil-militar, que deveria levar ou à renúncia do presidente ou a um golpe – que seria aplicado apenas dez anos depois.

As (poucas) luzes no fim de vida do presidente vêm de sua filha Alzira (Drica Moraes), seu braço direito, apoio solitário e única figura a emprestar humanidade a um palácio que, pouco a pouco, vai se tornando prisão para seu habitante. Vargas bem que tenta se desvencilhar, mas os cordéis se atam de maneira implacável com a falência do seu dispositivo militar (Zenóbio da Costa, vivido por Adriano Garib) e o envolvimento da família no escândalo, como seu irmão Benjamim (Fernando Luis).

Todo esse drama ganha expressão na presença contida e ao mesmo tempo forte de Tony Ramos como Getúlio Vargas. No de Drica, que compõe uma Alzira comovente em sua impotente solidariedade ao pai. Em todo o resto do elenco, bastante homogêneo e congruente. Assim como na fotografia de tons escuros de Walter Carvalho, com travelings delicados que realçam a gravidade do momento. Tudo é sutil sem deixar de ser intenso. Mesmo o Carlos Lacerda de Alexandre Borges é contido, dois tons abaixo do original. Getúlio é, em seu todo, um drama de câmera, pontuado por uma trilha sonora estupenda, de Frederico Jusid.

Como dizia Marc Ferro, só se faz história a partir do presente. Com sutileza, Getúlio não refaz apenas a trajetória pessoal de um homem político, mas desvenda a tradição golpista brasileira, que iria aflorar em 1964, e não se extingue com a redemocratização. Faz parte dos usos e costumes, e talvez do DNA da política à brasileira.

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