"Mais que o acaso" traz Gwyneth Paltrow

É tudo comédia romântica, diz Don Roos, falando de O Oposto do Sexo e Mais Que o Acaso. A primeira, com Christina Ricci, proporcionou uma agradável surpresa, anos atrás. A segunda, com Gwyneth Paltrow e Ben Affleck, estréia amanhã. Mostra que, sim, pode ser tudo tudo comédia romântica, mas de Don Roos são especiais. Possuem qualidades que as diferenciam das demais produções americanas do gênero, voltadas preferencialmente para o público teen. O Oposto do Sexo pode ser melhor, mas Mais Que o Acaso confirma que Roos, diretor e roteirista, tem algo a dizer sobre relacionamentos.Talvez o segredo esteja numa afirmação que ele faz, durante a entrevista realizada por telefone. Roos estava em Los Angeles e a conexão foi feita via Nova York, por meio da empresa produtora Miramax. O que ele disse pode parecer surpreendente. Roos não freqüentou nenhuma escola de cinema. Com pouco mais de 40 anos, sua formação é prática, como ele diz. Escreveu e dirigiu comédias para TV e essa foi sua escola. "Na verdade, não gosto de Hollywood", ele confessa. Ou gosta só da Hollywood antiga. Preston Sturges e Billy Wilder são seus deuses. E, no cinema atual, de quem ele gosta? "Lars Von Trier; Dançando no Escuro foi, de longe, o melhor filme que vi no ano passado."Roos esmiúça o que lhe desagrada em Hollywood. "É comum os diretores e escritores usarem seu traquejo e sua ironia para contar qualquer história." Era isso que ele queria evitar. Queria contar uma história de amor honesta, sobre o encontro de um homem e uma mulher. Para isso, reflete, não poderia esconder-se por trás de máscaras. "Tinha de abrir o coração e propor ao público que experimentasse sentimentos viscerais."Pode ser que, lendo isso, você vá ver Mais Que o Acaso achando que vai assistir a um filme de Ingmar Bergman. Não é para tanto, apenas é justo destacar o diferencial que Roos imprime à produção média da Miramax (e de Hollywood). O filme surgiu na sua cabeça como uma história de conexões ao acaso. Evoluiu para uma reflexão sobre como um homem e uma mulher encaram o amor, a perda, o inesperado. Um homem e uma mulher comuns, por meio dos quais ele espera poder falar para um público amplo.Quando teve a idéia, ele confessa que pensou em tudo rapidamente. Em dois meses, o roteiro estava pronto. Aí começou a luta pelo dinheiro. Felizmente, a Miramax se interessou pelo projeto. Ele gosta de trabalhar com a Miramax, mas não tem ilusões. "Quando colocam na sua mão US$ 30 milhões para fazer um filme, qualquer empresa ou produtor vai tentar sempre restringir sua liberdade, porque é muito dinheiro para ser perdido." A empresa aceitou produzir o filme e até propôs a dupla de protagonistas - Gwyneth e Affleck, que já haviam trabalhado juntos, embora não como par romântico, em Shakespeare Apaixonado. Gwyneth adorou o roteiro, mas Roos tinha dúvida de que ela pudesse fazer a mãe de um garoto. Mais difícil foi convencer Affleck, que a Miramax queria no papel. Ele também gostou do roteiro, mas queria investir mais na carreira como astro de ação (estréia, no mês que vem, Pearl Harbor). No final, topou e Roos acha que não poderia ter sido melhor servido. "Eles têm química na tela; sem química, não há par romântico."Na história, Affleck é um executivo da publicidade que encontra uma mulher estonteante (Natasha Henstridge) e um pretendente a dramaturgo no aeroporto. Para passar a noite com ela, ele cede seu bilhete ao outro, que está em lista de espera. Ocorre um acidente, o avião cai, o sujeito morre e Affleck, sentindo-se culpado, procura a mulher dele. Quer ajudar. Apaixona-se por ela (Gwyneth). Quando ela descobre..."Sempre fui fascinado pela maneira como o destino, a sorte e as escolhas interligam-se no amor", ele conta. Pensando nisso, criou esses dois personagens, Buddy e Abby, que se encontram em circunstâncias tão imprevisíveis. Para o diretor, é um filme sobre a necessidade de assumir riscos. "Não há amor sem risco", ele diz. "Quem quer estar em controle, quem tem medo de se deixar levar pela emoção e pelo sentimento não se apaixona de verdade."A coragem de mudar se constitui na essência de Mais Que o Acaso. "Não gosto muito quando me cobram a mensagem dos meus filmes, mas se esse filme tem alguma mensagem é a seguinte: você deve agarrar-se ao amor, quando ele surge em sua vida, não deve deixá-lo passar só para se sentir seguro." A vida é imprevisível e o amor, acredita Roos, é a única coisa na qual as pessoas conseguem se segurar de verdade. Mais Que o Acaso é a prova.Mais Que o Acaso (Bounce). Drama. Direção de Don Roos. EUA/2000. Duração: 159 minutos.

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