Chanell Stone/The New York Times
Chanell Stone/The New York Times

Mahershala Ali finalmente consegue o papel que merece

No drama de ficção científica 'O Canto do Cisne', agora disponível no Apple TV+, Ali interpreta não apenas um personagem principal, mas dois

Robert Ito, The New York Times

03 de fevereiro de 2022 | 15h00

Em um mundo mais justo, Mahershala Ali, um dos atores mais talentosos dos Estados Unidos, já teria protagonizado pelo menos uma dúzia de filmes.

Ele certamente passou por maus bocados antes de alcançar o sucesso. Nas últimas duas décadas, o ator de 47 anos teve papéis importantes em séries de prestígio (True Detective, da HBO), franquias de ficção científica (Jogos Vorazes) e thrillers políticos determinantes (House of Cards, da Netflix). Em 2017, ele ganhou seu primeiro Oscar pela atuação em Moonlight, uma aula magistral sobre o que você pode fazer com apenas vinte minutos de tela. E um segundo Oscar veio dois anos depois, por sua atuação em Green Book.



Então, talvez seja um choque saber que Ali nunca teve o papel de protagonista em um longa-metragem, não até estrelar o drama de ficção científica O Canto do Cisne, agora disponível no Apple TV+.

“Sempre me senti um pouco atrasado”, disse Ali.

Em uma manhã semanas atrás, em uma vasta entrevista por vídeo de sua casa na área da baía de São Francisco, Ali, vestido com uma jaqueta preta sobre uma camiseta branca do Team Ikuzawa, falou sobre O Canto do Cisne, o longa de estreia do diretor irlandês Benjamin Cleary.

Como se para compensar o tempo perdido, Ali interpreta não apenas um personagem principal no drama de ficção científica, mas dois: Cameron, um marido com doença terminal e pai de um filho de 5 anos; e Jack, o clone perfeito de si mesmo - com todas as suas memórias - que, sem o conhecimento da esposa e do filho de Cameron, em breve o substituirá para poupá-los do luto e da dor de vê-lo morrer. Em várias cenas, Ali divide o palco com Ali, com apenas ele próprio para contracenar. “Foi divertido, depois que parou de ser difícil”, disse ele com uma risada. “Divertido depois de passar pela parte difícil”.

 


Foi uma jornada de vida sinuosa que o levou até O Canto do Cisne, com paradas, recomeços e momentos de dúvida ao longo do caminho. Como na época em que ele estava no segundo ano do prestigioso programa de pós-graduação em atuação da Universidade de Nova York e pensou em largar tudo para voltar a trabalhar como marinheiro em São Francisco. “Eu ainda estava no sindicato”, disse ele, “e era uma grana boa”.

Ou outra vez, já no meio de sua carreira de ator, quando ele tirou um ano e meio para cuidar de seu avô doente. “Ele teve um derrame em 2010, e eu meio que larguei tudo”, disse ele. “Eu fiquei morando em Las Vegas e cuidando dele, só eu e minha avó”.

E há outras razões pelas quais o ator somente agora está interpretando seu primeiro protagonista. A indústria era muito diferente quando ele estava surgindo, explicou ele - mais estratificada entre filmes e séries, o que deixava os papéis de longas-metragens, sem falar nos protagonistas de longas-metragens, mais difíceis para atores de TV como ele. Aqueles que tinham começado na TV eram vistos apenas como atores de TV e, portanto, seu objetivo era ser o melhor ator de TV que pudesse. Ele estava bem na terceira temporada de sua terceira série, The 4400, antes de ser finalmente chamado para “pisar no personagem do Brad Pitt” (uma criança monstruosa com quem o personagem de Ali literalmente tropeça em uma casa de repouso) no filme O curioso caso de Benjamin Button.

Depois vieram outros papéis no cinema - em O lugar onde tudo termina, Jogos Vorazes e, em 2016, Moonlight - mas sem nenhum papel principal.

Na época em que Moonlight foi lançado, um jornalista do New York Times admitiu que a ascensão de Ali, ao contrário de alguns de seus colegas, “não era meteórica”.

“Quando olho para minha trajetória, meu início foi um pouco lento, se você pensar em onde estou no momento”, disse Ali.



Mesmo assim, muitos dos papéis coadjuvantes que ele estava conseguindo eram aqueles pelos quais qualquer ator mataria, como o Juan de Moonlight, um traficante de drogas que explode de amor pelo garoto que ajuda a criar. Ou Don Shirley, o pianista afro-americano do filme biográfico Green Book que contrata um segurança ítalo-americano, interpretado por Viggo Mortensen, para trabalhar como seu motorista no Sul Profundo. “Ele era o tipo mais gracioso de rebelde que você pode encontrar por aí”, disse Ali sobre o músico. “Alguém que era tão esperto e astuto e encontrou um jeito de contrariar o sistema contratando um cara branco para carregar suas malas e ser seu guarda-costas, em 1962? Achei genial”.

O Canto do Cisne chegou para Ali em 2019, depois que ele leu o roteiro e pediu para se encontrar com Cleary, seu autor. Cleary ganhara um Oscar por seu curta-metragem de 2015, Stutterer, mas nunca havia dirigido um longa-metragem. Depois de uma única “conversa muito boa” entre os dois, Ali disse sim ao projeto. “Foi um dos momentos mais bonitos da minha vida”, lembrou Cleary.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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