Magia do futebol, em três documentários

Na memória de qualquer torcedor, Pelé, Garrincha e Telê Santana ocupam um lugar de honra, pois são nomes cintilantes, que representam uma época em que o futebol brasileiro inspirava orgulho e respeito. Se a atual seleção, comandada por Luís Felipe Scolari, não incentiva grandes comemorações nesta quinta-feira, dia mundial do futebol, a lembrança das conquistas daqueles jogadores ainda sustenta grande interesse, a ponto de três documentários estarem em fase final de produção, cada um buscando detalhes que eternizem os feitos dos atletas.Fio de Esperança, dirigido por Ricardo Pichi e inspirado no livro de André Ribeiro, busca recuperar as conquistas de Telê Santana, desde o tempo em que jogou no Fluminense até a consagração como técnico do São Paulo, passando pelas duas Copas do Mundo no comando da seleção.Garrincha será um cartão de visitas - encomendado pela RAI, rede italiana de televisão, e com direção de Paulo César Saraceni, o documentário servirá para apresentar os dribles inesquecíveis de Mané à torcida italiana. "É incrível, mas eles conhecem pouco desse jogador maravilhoso", conta Saraceni.Pelé, o Atleta do Século, dirigido por Anibal Massaini Neto, pretende provar por que a história do futebol é dividida em antes e depois do aparecimento do principal camisa 10 da seleção do Brasil.Dos três, a produção do filme sobre Pelé é a mais antiga e mais trabalhosa. Desde que iniciou o projeto, em fevereiro de 1999, Massaini já entrevistou mais de uma centena de pessoas, entre atletas, jornalistas, técnicos e dirigentes, desde o início da carreira do jogador em Bauru até a consagração como empresário e garoto-propaganda.O que vai tornar o documentário um produto singular, porém, é a exibição de preciosidades: depois de vasculhar os arquivos de emissoras de televisão (Bandeirantes, Cultura, Tupi, Record, entre outras), além de consultar colecionadores da América Latina, Rússia e dos Estados Unidos, a equipe de produção selecionou imagens de mais de 250 gols do jogador, algumas inéditas para o público brasileiro (sempre é bom lembrar que Pelé marcou 1.281 gols nas 1.375 partidas que disputou em toda sua carreira). "Há lances que o próprio Pelé não se lembrava e, quando reviu, ficou extremamente emocionado", conta Massaini.Comemoração - A pesquisa não encontrou, porém, o gol que o próprio jogador aponta como um dos mais bonitos, marcado em uma partida do Santos contra o Juventus, no Estádio Rodolfo Crespi, na Mooca, no dia 2 de agosto de 1959. Há apenas algumas imagens fotográficas, mas que não permitem visualizar a beleza plástica da jogada. O próprio Pelé relembrou a jogada, na coluna semanal que assina no jornal O Globo: "Eu já havia feito dois gols e a partida estava 3 a 0, quando a bola sobrou na área do Juventus. Dominei com um toque, já dando um balão no primeiro marcador. Sem deixar a bola cair, chapelei outros dois adversários. Quando o goleiro Mão-de-Onça saiu para abafar o lance, tomou mais um chapéu. Tive de jogar o corpo para trás para poder cabecear e mandar a bola para o gol vazio. Fiz o gol e parti para cima da torcida. Fui brigando, xingando mesmo. Foi assim que nasceu o soco no ar, minha marca registrada nas comemorações."Pelé entusiasma-se ao lembrar do lance, que vai ser recriado em um estúdio, em Nova York, no fim do mês. Trata-se do mais fino biscoito prometido por Pelé, o Atleta do Século: vestindo uma roupa especial, com sensores ligados em suas articulações, o ex-jogador vai repetir os lances que ainda estão vivos em sua memória. Ligados a um computador, os sensores vão fornecer os dados sobre a movimentação de Pelé, que será reproduzida por um boneco tridimensional. É a mesma técnica do filme de animação Final Fantasy, que está dando o que falar atualmente nos EUA. O trabalho será executado por Luiz Briquet, publicitário especializado em animação para comerciais, que viaja para os Estados Unidos no fim do mês."Serão, no máximo, 15 segundos de animação, mas poderemos recriar o que parecia ser apenas a lembrança de uns privilegiados", empolga-se Massaini. A motivação é a mesma de Pelé, ansioso por repetir a jogada. "Espero que todos vibrem do mesmo modo que eu estou vibrando", comentou.O documentário vai mostrar ainda a reação curiosa dos jogadores do Juventus que, hoje, buscam o privilégio de ter levado o drible de Pelé. Em alguns momentos, conta o cineasta, eles quase discutiram sobre a verdadeira reconstituição da jogada. A diversidade desse e de outros depoimentos, aliás, obrigou a contratação do escritor José Roberto Torero para coordenar o roteiro do documentário - além de pesquisar fatos, ele escreveu um texto que vai auxiliar o trabalho de edição.As entrevistas serão valiosas na reconstituição da carreira de Pelé, servindo até para desmistificar algumas lembranças. Como a história de que ele era sonâmbulo - apesar da veemente negativa do ex-jogador, Massaini conseguiu valiosos depoimentos, como o da própria mãe de Pelé, Celeste, confirmando a história.Corinthiano - Outro fato que ele prefere manter no esquecimento, mas que é tratado no documentário, é sua paixão clubística quando criança. Novamente, Pelé prefere fugir do assunto, mas uma entrevista de seu pai, Dondinho, e outra de seu irmão, Zoca, confirmam a admiração pelo Corinthians. "Ele tinha como ídolos jogadores como Luizinho e Baltazar", revela Zoca.A infância do jogador não será recontada apenas pelo depoimento dos familiares - praticamente todos os seus colegas do time infantil do Bauru Atlético Clube, o Baquinho, foram entrevistados pela equipe de Massaini, relembrando as jogadas famosas e, principalmente, a forma de cabecear, que Pelé orgulha-se de ter aprendido com o pai. Tais detalhes, aliás, alimentaram Uma História de Futebol, curta-metragem de Paulo Machline que concorreu ao Oscar neste ano.O documentário vai mostrar ainda cenas curiosas como as diversas numerações das camisas vestidas pelo jogador. "Apesar de ser eternizado com a de número 10, Pelé atuou também com a 9 e, algumas vezes, com a 8, além de ter jogado também no gol."O material pesquisado é extenso e permitiu que Massaini desenvolvesse dois projetos. O primeiro, ainda em fase de definição estrutural, é o de um longa-metragem, com 90 minutos, destinado aos cinemas. O outro, mais adiantado, é a elaboração de uma minissérie, que já vem sendo negociada com emissoras de televisão estrangeiras, como a Discovery, além de algumas tevês por assinatura brasileiras."Para a minissérie, desenvolveremos a ordem cronológica, ou seja, desde o nascimento de Edson Arantes do Nascimento até a consagração do jogador e empresário Pelé", conta o cineasta, que já dispõe de várias horas de um material que continua a crescer - na segunda-feira, por exemplo, Massaini conseguiu a cessão da Bandeirantes de quatro horas e meia de imagens. O formato do filme, porém, ainda está em estudo. A produção já gastou mais de R$ 1,2 milhão.Apesar da busca de cenas aparentemente não ter fim, o cineasta fixou a data da estréia do filme: fevereiro de 2002, três meses antes do início da Copa do Mundo, que será disputada no Japão e na Coréia do Sul. "Por causa do Mundial, será um ano muito recheado de futebol, portanto, quero que o torcedor assista ao filme ainda descansado do esporte", explica Massaini que, para apressar o processo, está utilizando duas turmas de edição com dois equipamentos.Massaini não pretende utilizar um recurso comum em documentários, a narração em off. "Prefiro emendar os depoimentos, como se fosse uma interminável troca de passes, durante uma partida", comenta o cineasta, que ainda está indeciso por se preocupar com o mercado exterior. "Lá fora, não é comum dispensar a figura do narrador."

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